Projeto investiga como água, sedimentos e intervenções humanas interagem no sistema Delta do Jacuí–Lago Guaíba-Laguna dos Patos
Notícia do site Sul21
Quando se fala no evento extremo de maio de 2024, as imagens mais lembradas são as das ruas inundadas, das casas submersas e das milhares de pessoas obrigadas a deixar suas cidades. Há, porém, uma parte importante dessa história que permanece longe da vista: o que aconteceu sob as águas, no fundo do Delta do Jacuí, do Lago Guaíba e da porção norte da Laguna dos Patos.
É nesse ambiente submerso que ficam registrados os caminhos percorridos pela água, os locais onde houve erosão, as áreas em que sedimentos se acumularam e as transformações sofridas pelos canais e pelo fundo do lago. Compreender esses processos é um dos objetivos centrais do Projeto Guaíba, coordenado pela Unisinos, com financiamento da Petrobras/ANP e participação de pesquisadores da UFRGS e da FEPAM.
A fase inicial dos levantamentos já permite reconhecer que o sistema Delta do Jacuí–Lago Guaíba–Laguna dos Patos apresenta uma complexidade morfológica e uma dinâmica muito superiores às que podem ser percebidas a partir da superfície. Para compreender a importância dessa constatação, é preciso reconhecer, antes de tudo, que um delta é uma grande área de acumulação sedimentar. É ali que os rios, ao alcançarem um lago, uma laguna ou o mar, perdem velocidade e capacidade de transporte, dividem-se em diferentes canais e depositam parte significativa de sua carga sedimentar.
Em certo sentido, é no delta que os rios “morrem”: o sistema fluvial dá lugar à bacia receptora. No caso do Delta do Jacuí, a transição entre os rios Jacuí, Taquari, Caí, Sinos e Gravataí e o Guaíba ocorre em um sistema muito mais complexo do que sugere o conjunto de ilhas visível em superfície. O delta compreende também canais, barras arenosas, áreas rasas, depressões e extensas feições submersas, continuamente remodeladas pela erosão, pela deposição e pela redistribuição dos sedimentos.
O Guaíba, por sua vez, constitui a grande bacia receptora desse sistema. Ele recebe e armazena temporariamente enormes volumes de água, ao mesmo tempo que retém, redistribui e transporta sedimentos em direção à Laguna dos Patos. Delta e lago integram, assim, um sistema de armazenamento, circulação e dissipação de água e sedimentos, cuja forma e funcionamento influenciam diretamente a Região Metropolitana de Porto Alegre e adjacências.
Essa relação entre os sistemas deltaicos e as populações humanas não é uma particularidade do Rio Grande do Sul. Desde a Antiguidade, os deltas atraem populações por reunirem água, solos férteis, navegabilidade e facilidade de circulação. Não por acaso, algumas das maiores cidades e centros econômicos do mundo se desenvolveram nesses ambientes. Contudo, as mesmas condições naturais que favorecem sua ocupação também os tornam instáveis e sujeitos a inundações, erosão, deposição de sedimentos e migração de canais. As cidades localizadas junto a deltas convivem, assim, com uma contradição permanente: dependem de infraestruturas estáveis, embora estejam assentadas sobre territórios em contínua transformação.
O Delta do Jacuí tem dimensões muito menores do que os grandes deltas do Nilo, do Mississippi ou do Ganges-Brahmaputra e não concentra a principal atividade econômica ou agrícola da região. Parte significativa de sua área permanece protegida pelo Parque Estadual do Delta do Jacuí. Essa condição, no entanto, não reduz sua importância. Ao contrário, sua principal função contemporânea talvez não seja econômica, mas ambiental, geomorfológica e hidrodinâmica. O delta participa da distribuição das águas, da retenção e redistribuição de sedimentos e do funcionamento de todo o sistema regional.
Mesmo relativamente preservado, ele não é imóvel. Barras sedimentares podem mudar de posição, canais podem ser aprofundados ou preenchidos, margens podem ser erodidas e novas áreas de deposição podem surgir. Essas transformações fazem parte da dinâmica natural de um delta e ajudam a compreender por que uma enchente de grandes proporções não pode ser analisada apenas pelo volume de chuva ou pela altura atingida pela água em determinado ponto.
Pela mesma razão, os efeitos da enchente de 2024 não podem ser compreendidos apenas a partir do que ocorreu naqueles dias. O evento foi desencadeado por volumes excepcionais de precipitação que atingiram simultaneamente diversas bacias hidrográficas do Rio Grande do Sul, mas seus impactos também refletiram a forma como esse território vinha sendo ocupado e manejado, com supressão de vegetação, exposição de encostas, drenagem de banhados, impermeabilização do solo e outras intervenções capazes de reduzir a retenção da água, acelerar o escoamento e ampliar o transporte de sedimentos.
Isso não significa atribuir a enchente exclusivamente à ação humana, assim como, em contrapartida, não autoriza tratá-la como um fenômeno puramente natural. O evento resultou da interação entre condições meteorológicas extremas e um sistema territorial, urbano e ambiental profundamente transformado ao longo das bacias hidrográficas. Avaliar o peso de cada um desses fatores exige dados, comparação histórica e modelagem científica. É precisamente essa base de conhecimento que está sendo construída no Projeto Guaíba.
Ao longo do primeiro ano, a equipe reuniu e integrou informações produzidas em diferentes épocas e realizou novas campanhas de campo. A base histórica inclui 54 linhas sísmicas, com aproximadamente 482 quilômetros de extensão, além de dados provenientes de 126 sondagens. Parte importante desse material foi produzida pela FEPAM em 2018, antes das enchentes.
Nas campanhas mais recentes, foram adquiridas outras 94 linhas sísmicas, que somam cerca de 753 quilômetros de levantamentos. Também foram obtidos dados batimétricos, imagens do fundo produzidas por sonar, perfis de radar de penetração no solo, fotografias aéreas, inspeções com veículo subaquático e amostras de sedimentos.
Essas técnicas nos permitem observar diferentes dimensões do ambiente. A batimetria mede as profundidades e ajuda a representar o relevo submerso. O sonar produz imagens acústicas do fundo. A sísmica rasa permite visualizar as camadas sedimentares existentes abaixo dele. As sondagens e amostragens recuperam materiais que podem ser descritos, comparados e analisados em laboratório.
A integração desses dados começa a revelar um fundo marcado por canais, depressões, escarpas, estruturas rochosas, áreas dragadas, formas produzidas pelo movimento da água e outras interferências construídas pelo ser humano, além de feições compatíveis com processos de erosão, transporte e deposição de sedimentos, especialmente no Delta do Jacuí e em corredores preferenciais de fluxo. Ainda não é possível, entretanto, determinar o quanto dessas feições foi produzido ou modificado especificamente pela enchente de 2024.
Um dos principais diferenciais do projeto é a existência dos levantamentos realizados em 2018. Sem uma imagem anterior à enchente, seria muito mais difícil distinguir aquilo que já existia das transformações ocorridas posteriormente. No caso do Guaíba, essa comparação poderá indicar onde o fundo foi aprofundado pela erosão, onde houve deposição de novos materiais, quais canais sofreram alterações e se determinadas feições mudaram de forma ou posição. Essa análise, porém, exige que dados produzidos com equipamentos, resoluções e condições de aquisição diferentes sejam cuidadosamente processados, ajustados e interpretados. Não se trata simplesmente de sobrepor dois mapas. Por essa razão, seria precipitado antecipar conclusões antes do término dessa etapa.
O Projeto Guaíba não foi concebido para oferecer uma solução imediata contra as enchentes. Nenhum levantamento geológico, isoladamente, seria capaz de fazê-lo. Nosso papel é produzir conhecimento sobre uma parte ainda pouco conhecida do sistema: a morfologia do fundo, a distribuição dos sedimentos e a estrutura das camadas existentes sob as águas.
Essas informações poderão subsidiar estudos de modelagem hidrodinâmica, projetos de engenharia, ações de monitoramento ambiental, planejamento territorial e gestão dos recursos hídricos. Também poderão contribuir para a avaliação de propostas de dragagem, mineração ou realização de obras, evitando que decisões de grande impacto sejam tomadas sem conhecimento suficiente sobre o funcionamento do ambiente.
Nos próximos dois anos, concentraremos o trabalho no processamento e na interpretação dos dados, na ampliação das amostragens, na recuperação de novos testemunhos e na comparação com os levantamentos anteriores. Entre os resultados previstos estão mapas atualizados da distribuição dos sedimentos, modelos digitais do fundo, seções das camadas sedimentares e análises dos padrões de erosão e deposição.
Esse conhecimento será particularmente importante diante das diversas propostas de intervenção surgidas após as enchentes. Algumas delas poderão mostrar-se úteis; outras talvez sejam ineficazes ou produzam consequências indesejadas.
O problema não está em discutir soluções, mas em decidir antes de compreender adequadamente o sistema sobre o qual se pretende intervir. O Delta do Jacuí e o Guaíba não são estruturas hidráulicas construídas para funcionar de maneira inteiramente previsível. São partes de um sistema natural formado ao longo de milhares de anos e continuamente modificado pela água, pelos sedimentos e pela ação humana.
Compreender esse funcionamento não eliminará os eventos extremos. Poderá, porém, permitir que cidades, infraestruturas e políticas públicas sejam planejadas com maior consciência das características do território. A inundação de 2024 mostrou que não basta olhar para o céu e acompanhar a previsão da chuva. Também é necessário olhar para os rios, para toda a bacia hidrográfica, para o delta e para aquilo que acontece no fundo do Guaíba. É esse olhar integrado que orienta o trabalho de nossa equipe.

