Adoção: Um gesto nobre

A importância da preservação dos elos para o desenvolvimento das crianças e adolescentes

Promover uma pesquisa, de fato, aplicada. Esse foi o maior objetivo do trabalho coordenado pela professora Vera Regina Röhnelt Ramires, com a colaboração de outros pesquisadores da Unisinos e bolsistas de Iniciação Científica. O esforço e dedicação de mais de dois anos de levantamento de dados, reuniões, análises e avaliações, resultaram na cartilha “Vínculos Familiares e Comunitários: apontamentos para a proteção dos Direitos de Crianças e Adolescentes”, usada pelos profissionais da Rede de Proteção de Crianças e Adolescentes de São Leopoldo.

O desafio

De acordo com a professora Vera, a pesquisa é a avaliação de uma política pública importante assumida pelo município de São Leopoldo. Existe uma política pública no Brasil chamada Plano de Proteção e Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária. “Essa lei preconiza que nós devemos proteger ao máximo os vínculos familiares e comunitários das crianças e adolescentes, e só encaminhá-las para uma família substituta em último caso. Antes disso, deve-se tentar todas as possibilidades”, diz a docente.

A nova lei da adoção, por exemplo, tem relação com essa nova política pública, porque estabelece que, em caso de adoção, os irmãos devem permanecer juntos e na mesma comunidade, em vez de irem para outro lugar, seja cidade, estado ou país. A cidade elaborou o seu Plano Municipal de Convivência Familiar e Comunitária, implementou-o, buscando favorecer esses princípios.

“Concretamente, nosso trabalho surgiu quando o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes de São Leopoldo (COMDEDICA) lançou um edital para universidades e outras instituições interessas em apresentar um projeto de pesquisa que buscasse avaliar a implementação dessa política pública”, comenta Vera. “Nós concorremos ao edital, fomos contemplados e desenvolvemos esse projeto, buscando identificar quais os fatores que promovem e quais ameaçam os vínculos familiares e comunitários, que levam ao rompimento desses vínculos.”

A solução encontrada

A pesquisa durou aproximadamente dois anos e meio e envolveu uma equipe composta por Vera, duas pesquisadoras do Programa de Pós-Graduação (PPG), uma aluna de mestrado e cinco alunos de graduação. Foi um projeto totalmente financiado pelo município, que consistiu na avaliação de cerca de 200 famílias e mais de 220 crianças em situação de vulnerabilidade social, às quais os pesquisadores tiveram acesso pelo cadastrado do Bolsa Família. “Encontramos grupos familiares com vínculos mantidos e vínculos rompidos, e nos dedicamos a entender as dinâmicas desses grupos. No estudo um, pudemos observar que, apesar das situações adversas de vulnerabilidade, os grupos que mantinham os vínculos tinham resultados mais satisfatórios em relação aos demais grupos. O estudo dois, do mesmo projeto, envolveu uma análise do funcionamento da Rede de Proteção e Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes. Neste caso, fizemos grupos focais com todos os profissionais que atuam na Rede”, conta a professora.

Por ser um assunto de extrema relevância social e atualidade, além da importância da reflexão sobre os casos atendidos pelo município e atuação junto dessas famílias para o desenvolvimento das crianças e adolescentes, que muitas vezes, vivem em situação de negligência e violência, por exemplo. “Aqui, no nosso PPG, temos ênfase na Pesquisa Aplicada, preocupados em contribuir com a pesquisa voltada para a solução de problemas relevantes na sociedade. Eu integro um grupo de pesquisa que se dedica à clínica da infância e adolescência. Então, por isso, esse projeto com esse foco”, conclui Vera.

O resultado na sua vida

“Os estudo permitiram que identificássemos os fatores que ameaçam os vínculos familiares e que levam aos seus rompimentos. Identificar tais fatores e variáveis é de extrema importância, pois nos dá subsídios para trabalhar com essas famílias e prevenir esse tipo de desfecho”, afirma a professora. “Os resultados foram muito interessantes e alguns até surpreendentes, no seguinte sentido: as variáveis mais associadas ao rompimento de vínculos não foram as condições socioeconômicas. Os fatores que explicaram essa realidade com mais propriedade e evidência foram problemas de saúde mental, principalmente depressão; eventos adversos na vida familiar e estresse parental, que são os pais, responsáveis ou cuidadores mais sobrecarregados com as suas funções na família.“

Esse movimento originou uma série de indicadores para os profissionais da Rede de Proteção do município, para que eles, no seu trabalho, ao atender essas famílias, consigam perceber os fatores de risco de cada caso. E, tendo identificado, possam providenciar o atendimento e tratamento adequados. Isso foi colocado à disposição do município na cartilha “Vínculos Familiares e Comunitários: apontamentos para a proteção dos Direitos de Crianças e Adolescentes”, que sintetiza os resultados da pesquisa e traduz esses resultados para uma linguagem mais acessível e menos científica. Teve uma tiragem de quase 1000 exemplares e foi distribuída para todos os profissionais da Rede, que também receberam uma capacitação de dois dias de duração, com seminários sobre os resultados obtidos.

“Ainda somos convidados para palestrar ou ministrar aulas sobre o assunto. Neste momento, estamos nos dedicando à análise de intervenções clínicas com crianças, com a meta de compreender os processos e resultados que essas intervenções geram, no sentido de aprimorar o dispositivo para essas intervenções. Também temos um significativo número de dissertações de mestrado e teses de doutorado voltadas para assuntos relacionados com a violência doméstica, traumas psíquicos e outros, sempre ligados ao rompimento de vínculos. Um trabalho contínuo e frutuoso”, finaliza Vera.