A Ética da Técnica

Pesquisa estuda o que é técnica e como ela interfere na vida do homem.

A tecnociência é considerada um divisor de águas da sociedade atual. Tudo no mundo hoje depende da tecnociência, desde o modo como entendemos a nós mesmos até os modos de produção. Isso tem impactos consideráveis na compreensão dos verdadeiros desafios éticos e políticos, atualmente. É fundamental, portanto, buscar entender o que é a tecnociência e seus efeitos sociais, porque tudo é decidido neste âmbito que condiciona as nossas perspectivas de futuro.

Da necessidade de discutir as novas implicações e transformações nas relações entre tecnociência e a sabedoria prática, moral e política na atualidade, nasce o projeto de pesquisa Tecnociência, ética e poder.

Sob os olhares do professor Celso Cândido de Azambuja, o estudo problematiza o conceito de técnica e tecnociência, investigando as conexões e transformações conceituais no âmbito da filosofia social e política e os modos como influencia o cotidiano.

O Desafio

A técnica sempre fez parte das nossas vidas. Ela é condição da existência humana, originariamente. Hoje, o conjunto das atividades humanas encontra-se associado ao desenvolvimento tecnocientífico sem nenhuma possibilidade de retorno a um estado pré-tecnocientífico. Nosso destino é, portanto, tecnocientífico. Isto diz respeito não apenas a nossa atual sociabilidade, mas também à condição humana em suas dimensões fundamentais: a relação com o meio-ambiente, com a produção, com a própria subjetividade e com o outro e, enfim, com as possibilidades crescentes de manipulação artificial da própria vida.

O desafio de uma pesquisa desta natureza é, portanto, enorme, altamente complexo. Inicialmente, quando se busca entender as mudanças e diferentes definições da técnica. O conceito de técnica não é evidente e, em boa parte dos debates, é apresentado de tal forma simplificada que, ao invés de ajudar-nos a entender o estado de coisas no qual nos encontramos, ao contrário, nos ofusca ainda mais a visão.

Outro grande problema em questão é o da relação entre ética e técnica. O desafio é pensar uma filosofia da técnica a partir de três grandes vertentes, tal como propõe o filósofo Gilbert Hottois: o humanismo tecnofóbico, o humanismo tecnófilo e a tecnofilia evolucionista. Embora todas as perspectivas militem pelo bem humano, o primeiro demonstra medo e cautela ante a técnica, o segundo acredita que a tecnologia pode ser um bom instrumento de aperfeiçoamento humano e o terceiro entende que o ser humano é aberto e se encontra em processo de evolução no qual a tecnologia tem participação ativa.

Por fim, tentamos investigar ainda as relações entre poder e técnica. Quais são os efeitos de poder e contrapoder instituídos pela sociedade tecnocientífica? A tecnologia é um fenômeno de exclusão ou inclusão social? Perguntamos se as emergentes tecnologias moleculares de produção e comunicação produzem como efeito o empoderamento civil, ou ao contrário, reduzem ainda mais o poder das pessoas?

Como podemos ver estamos diante de questões nada incomuns cuja importância em nossas vidas é crescente.

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A solução encontrada

A solução, se isto é possível, segundo o professor Celso, para os problemas suscitados pela tecnociência em nossa atualidade passa, em primeiro lugar, por empreender um esforço de compreensão filosófica desta realidade, desta situação incomparável e admirável. No Brasil ainda precisamos criar uma cultura filosófica em termos de pesquisa e estudos sobre o conceito de técnica e as implicações éticas, políticas e filosóficas da tecnociência.

Especificamente quanto à pesquisa proposta, algumas perspectivas vão se impondo de forma da vez mais clara. Primeiramente, a desconstrução de três mitos fundamentais presentes na maioria das construções teóricas sobre a técnica: o da técnica como instrumento, o da neutralidade da técnica e o da oposição entre técnica e cultura, homem e máquina. Com isto, escapamos de um reducionismo conceitual frequente e de um humanismo fácil, ressentido e moralizante que não consegue enxergar na técnica nada a não ser um instrumento neutro que se pode manipular livremente conforme os gostos do momento de um sujeito pretensamente livre.

Depois, o problema da ética em uma cultura tecnológica não tem necessariamente uma solução, mas necessariamente várias soluções. Por isto, Celso diz que a vertente da tecnofilia evolucionista é, hoje, aquela que aporta a base teórica mais adequada e robusta, na medida em que reconhece a diversidade de respostas possíveis. As soluções dependem das conjunturas e das culturas em questão. “Culturas diferentes podem produzir respostas diferentes para os mesmos problemas. Por isso, em certos momentos até mesmo uma postura mais tecnofóbica pode ser proposta, em certos contextos”, comenta o professor.

Ao mesmo tempo, a ética e a política não conseguem mais se impor como parâmetros externos para resolver os problemas da tecnociência, isso porque a própria tecnociência coloca problemas que subordina a ética e política à sua própria dinâmica.

O resultado na sua vida

Nossa vida é guiada pela tecnociência. Entender as possibilidades e os limites das tecnologias nos ajudam a pensar as perspectivas para o futuro. Pensar as conexões entre ética, técnica e poder tem resultado prático no cotidiano das pessoas porque a técnica da um poder aos indivíduos e as instituições de um modo que as filosofias morais e políticas precedentes não conseguem alcançar nem podiam imaginar. O efeito da internet, por exemplo, conforme Celso, é muito mais de empoderamento do que de exclusão, porque as pessoas se encontram numa situação social de potencialidade de ação política desconhecida até então.