• Moda “Afro-brasileira” na Angola Fashion Week

    Muito se comenta sobre as semanas de moda realizadas em NY, Londres, Milão, Paris, SP e Rio, mas tem novas rotas que começam a atrair olhares no segmento fashion. Uma delas é Luanda, na África, que sedia o Angola Fashion Week (26 a 28/06), um dos principais eventos de moda do continente africano. A fashion week reuniu algumas das principais marcas locais, além de [...]

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  • Pesquisa revela que mulheres negras estão fora do cinema nacional

    Apesar de ser a maior parte da população feminina do país (51,7%), as negras apareceram em menos de dois a cada dez longas metragem entre os anos de 2002 e 2012. Além da “total exclusão” nos cargos técnicos, a representação no elenco está limitada a estereótipos associadas à pobreza e à criminalidade Por Isabela Vieira [...]

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  • As gurus da beleza negra na internet

    Por Jarid Arraes  Há um novo nicho de mercado que vem ganhando cada vez mais espaço online: o ramo de beleza. Muitas garotas sonham em criar um blogue ou um canal no Youtube e com isso conseguir ganhar dinheiro para se sustentar, além de receber produtos enviados pelas empresas em troca de resenhas e propagandas. [...]

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Muito se comenta sobre as semanas de moda realizadas em NY, Londres, Milão, Paris, SP e Rio, mas tem novas rotas que começam a atrair olhares no segmento fashion. Uma delas é Luanda, na África, que sedia o Angola Fashion Week (26 a 28/06), um dos principais eventos de moda do continente africano.

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A fashion week reuniu algumas das principais marcas locais, além de algumas internacionais (a Neon brasileira apareceu no line up). E por falar em Brasil, um time de brasileiros foi convidado a participar do evento, que nesta edição foi produzido pela empresa Cia. Paulista de Moda, de Reginaldo Fonseca. Profissionais como Jackson Araújo, assinando a direção criativa do evento; Karlla Girotto, responsável pelo styling; André Veloso, que cuidou da beleza de todos os desfiles; e Renata Simões, que assinou os fashion videos. Um trio de celebs também foi destaque: Adriane Galisteu, Paola Oliveira e Patricia de Jesus.

Patricia de Jesus

Patricia de Jesus

Paola Oliveira

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Nas tendências apresentadas na passarela, percebe-se uma busca de valorizar a cultura do continente africano, além de resgatar a manufatura, com produtos exclusivos de ateliês, de confecção em pequena escala. Afinal, o “feito à mão” tem hoje importante inserção no mercado global e é sinônimo de Novo Luxo. Angola é um país com valiosos recursos naturais, sendo o mais glamouroso deles o diamantee a 14ª edição do AFW homenageou essa pedra rara.

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Fonte: http://www.geledes.org.br/moda-afro-brasileira-na-angola-fashion-week/

Apesar de ser a maior parte da população feminina do país (51,7%), as negras apareceram em menos de dois a cada dez longas metragem entre os anos de 2002 e 2012. Além da “total exclusão” nos cargos técnicos, a representação no elenco está limitada a estereótipos associadas à pobreza e à criminalidade

Por Isabela Vieira

As mulheres negras* não estão nas telas de cinema, nem atrás das câmeras. Pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) mostra que pretas e pardas não figuraram nos filmes nacionais de maior bilheteria. Apesar de ser a maior parte da população feminina do país (51,7%), as negras apareceram em menos de dois a cada dez longas metragem entre os anos de 2002 e 2012. Além disso, atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal de filmes nacionais. Nesse período, nenhum dos mais de 218 filmes nacionais de maior bilheteria teve uma mulher negra na direção ou como roteirista.

Coordenada pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Uerj, um dos mais renomados centros de estudos de ciência política na América Latina, a pesquisa A Cara do Cinema Nacionalsugere que as produções para as telonas não refletem a realidade do país, uma vez que 53% dos brasileiros se autodeclaram pretos ou pardos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O prejuízo, na avaliação das autoras do estudo, é a influência de determinados valores sobre a audiência.

“Pelos dados, a população brasileira é diversa, mas essa diversidade não se transpõe para ambientes de poder e com maior visibilidade”, disse uma das autoras, a mestranda Marcia Rangel Candido. Ela acrescenta que, além da “total exclusão” nos cargos técnicos, a representação no elenco está limitada a estereótipos associadas à pobreza e à criminalidade. “As mulheres brancas exercem vários tipo de emprego, são de várias classes sociais, a diversidade é maior”, destaca.

A doutoranda Verônica Tofte, coautora da pesquisa, diz que a baixa representatividade de mulheres em postos mais altos do cinema – elas ocupam 14% dos cargos de direção e 26% dos postos de roteiristas entre os filmes mais vistos -, além da invisibilidade das negras no elenco, são distorções da sociedade. “A ausência de mulheres, principalmente as negras, nesses papéis gera baixa representação e reproduz uma visão irreal do Brasil.” De acordo com a pesquisa, nenhuma das diretoras ou das roteiristas entre os filmes pesquisados era negra.

Para chegar ao perfil racial, a pesquisa comparou imagens de 939 atores, 412 roteiristas e 226 diretores de filmes, excluindo documentários e filmes infantis. “Usamos um modelo de identificação em que o pesquisador é que define o grupo racial ao qual pertence o sujeito”, esclareceu Marcia. Na classificação, para a comparação, foi utilizada uma escala de fotos de oito indivíduos, do mais branco para o mais preto, estabelecida em trabalhos científicos anteriores.

A lista dos filmes mais vistos no período é da Agência Nacional do Cinema (Ancine), organização que, na avaliação do premiado cineasta negro Joel Zito Araújo, deveria ter um papel ativo na promoção da diversidade no audiovisual. Ao avaliar a pesquisa do Iesp, ele disse que a agência precisa atuar. “Somente quem governa, que tem poder de criar políticas públicas, é que pode criar paradigmas para a nação e resolver essa profunda distorção”, disse.

Apesar de ter a função de fomentar e regular o setor, procurada, a Ancine informou que “não opina sobre conteúdo dos filmes, elenco ou qualquer coisa do tipo”.

Especialistas avaliam que há racismo na produção audiovisual brasileira

A baixa participação de mulheres negras* no cinema nacional é consequência de um elemento estrutural na sociedade brasileira: o racismo. A avaliação é do cineasta Joel Zito Araújo, que comentou pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) sobre os filmes brasileiros de maior bilheteria entre os anos de 2002 e 2012. Para a diretora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Irene Ferraz, a escolaridade e o acesso a recursos para a produção audiovisual poderiam reverter esse quadro.

O estudo A Cara do Cinema Nacional constatou que nenhum dos 218 longas-metragem nacionais analisados contou com uma mulher negra na direção ou no roteiro. A presença delas nas telas também é baixa: atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal desses filmes.

Segundo Araújo, que é P.H.D. pela Universidade de São Paulo (USP), aliado ao racismo, que invisibiliza produtores negros no cenário nacional, o padrão estético das produções atuais ainda está calçado em ideias do período colonial, provocando distorções em todas as artes, inclusive no cinema. “A supremacia branca, o reforço da representação dos brancos como uma ‘natural’ representação do humano é chave para tudo isso. O negro representa o outro, o feio, o pobre, o excluído, a minoria não desejada.” Por isso, segundo ele, não está nas telas.

A opinião do cineasta é a mesma da coautora da pesquisa da Uerj, a doutoranda Verônica Tofte, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp). Ela lembra que o Estatuto da Igualdade Racial tratou de prever a igualdade de oportunidades em produções audiovisuais, mas as leis são vagas e insuficientes para mudar a cara do cinema. “O Brasil tem uma legislação para tratar dessa situação, de conferir oportunidades iguais, no entanto, ela é burlada, sem fiscalização.” Verônica defende a distribuição de recursos do audiovisual para realizadores negros.

A diretora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Irene Ferraz, reconhece que é baixa a presença de pessoas pretas e pardas em posições de mais visibilidade e prestígio no cinema, como o elenco, a direção e a produção de roteiros. Para ela, o problema começa na formação. “O cinema é uma arte muito complexa, envolve uma indústria, precisa de editais, recursos, se você tem uma escolaridade, chegará lá. Acontece que, na nossa sociedade, o negro está excluído em várias áreas”, avaliou, em relação à subrepresentação. “O cinema reflete o que é a sociedade”, completou.

O presidente do Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual, Luiz Antonio Gerace, não vê como um problema a ausência de mulheres negras no cinema. Segundo ele, a exclusão pode diminuir a partir do maior acesso a cursos de audiovisual. “É verdade que as mulheres ocupam mais os cargos de assistente de figurino e camareira do que direção e roteiro. Mas se fizer faculdade, por exemplo, vai ter a mesma chance que os outros.”

O argumento da educação, no entanto, é frágil, na avaliação de Joel Araújo. Para ele, a solução passa por políticas públicas. “Cabe à Ancine [Agência Nacional do Cinema] buscar meios para resolver essa distorção profunda. E não ficar esperando que uma futura desejada educação de qualidade para todos extermine o nosso racismo estrutural”, destacou.

Procurada pela Agência Brasil, a Ancine, que tem a função de fomentar e regular o setor, informou que “não opina sobre conteúdo dos filmes ou elenco”. Já o Ministério da Cultura informou ter investido R$ 5,1 milhões em editais de produção audiovisual este ano. Desse total, R$ 2,8 milhões foram destinados a jovens realizadores negros, cuja contratação foi feita em 2012.

* Convencionou-se chamar negros a soma dos grupos populacionais preto e pardo, seguindo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

Fonte: http://www.geledes.org.br/pesquisa-revela-que-mulheres-negras-estao-fora-cinema-nacional/

Por Jarid Arraes 

Há um novo nicho de mercado que vem ganhando cada vez mais espaço online: o ramo de beleza. Muitas garotas sonham em criar um blogue ou um canal no Youtube e com isso conseguir ganhar dinheiro para se sustentar, além de receber produtos enviados pelas empresas em troca de resenhas e propagandas. No Brasil, esse mercado vem tomando força e hoje já existem muitas jovens blogueiras que se tornaram celebridades na internet. É importante debater, no entanto, sobre a relevância social desses novos cargos e profissões e a forma como continuam a reproduzir velhos preconceitos. Entre tantos estereótipos de gênero, a heteronormatividade e o estímulo ao consumo, destaco as questões raciais.

Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 50% das pessoas brasileiras se identificam como pretas ou pardas; ou seja, mais da metade da população do país se reconhece como negra. Mas apesar do povo brasileiro ser bastante miscigenado e não se parecer tanto assim com o ideal de beleza branco europeu, nota-se que as moças que ganham mais visibilidade e dinheiro com blogues e redes sociais são, em sua maioria, brancas, loiras, magras e de classe social média ou alta. Mas por que será?

Beatriz Andrade, do blogue Jeitinho Próprio

Beatriz Andrade, do blogue Jeitinho Próprio

O ramo da blogagem sobre beleza, primeiramente, acaba ficando restrito somente às entusiastas com boas condições financeiras, pois para começar a falar de cosméticos e cabelo é necessário algum investimento inicial com produtos. Somente assim é possível chamar atenção de alguma loja ou empresa, que consequentemente pode vir a enviar mercadorias em troca de divulgação. Não é preciso muita investigação para descobrir que há uma grande disparidade de renda no Brasil, que se concentra em uma minoria branca da população.

Em segundo lugar, pouquíssimos produtos são feitos para mulheres que não se enquadram nesses padrões de beleza. São poucas as marcas de maquiagem que fabricam cosméticos para atender tons de pele mais escuros, assim como os produtos para cabelos são predominantemente voltados para promover os cabelos lisos. Por isso é tão difícil encontrar uma blogueira ou youtuber negra, de cabelos naturais e, especialmente, de pele escura.

É possível traçar hipóteses para explicar essa ausência ou falta de visibilidade das blogueiras e youtubersnegras. Afinal, elas existem – só não fazem tanto sucesso como as loiras. Ao fazermos um resgate histórico e sociocultural, revela-se que a internet ainda não é acessível a todos. Mas acima de tudo, resta a hipótese de que o público simplesmente prefere assistir a quem se encaixa no padrão de beleza branco e magro.

É essencial pesquisar e estudar mais profundamente essa área; afinal, um novo campo está se abrindo para as mais diversas vertentes do conhecimento. Para dar o pontapé inicial, vejamos o que algumas blogueiras e vlogueiras negras têm a dizer sobre o assunto.

Colaboração e sororidade entre mulheres negras

Rosângela José é uma vlogueira de 35 anos formada em Administração de Empresas. Sua experiência com o universo da beleza negra feminina na internet começou em 2009, quando decidiu parar de alisar os cabelos. Estimulada por amigas com quem já conversara a respeito de maquiagem, Rosângela começou a gravar vídeos e hoje é tida como referência por várias garotas no mundo virtual. “Eu acredito que as dicas compartilhadas no meu canal, o modo como eu lido com meu cabelo incentiva outras meninas e mulheres negras, até pelo retorno que tenho de algumas, através de comentários, e-mails e mensagens no Facebook”, reconhece. E ela está completamente certa; sua representatividade foi inspiradora o bastante para Beatriz Andrade, designer gráfica de 27 anos, que também é guru de beleza: “Ela é um mega exemplo, transborda  autoestima, ela é demais e sou super fã!”.

Fernanda Chaves, do blogue Cantinho da Nanda

Fernanda Chaves, do blogue Cantinho da Nanda

Os laços que essas mulheres, a princípio desconhecidas, criam entre si podem muitas vezes ser invisíveis e distantes, mas também podem culminar em parcerias que despertam debates políticos e sororidade. Um exemplo disso é o vídeo que Rosângela gravou com outra youtubernegra, a Fabiana Lima, do canal “Beleza de Preta”. Em meio a relatos de experiências pessoais e falas politizadas, as duas blogueiras levantam questões pertinentes para todas as mulheres negras, independente de qualquer interesse em cosméticos e produtos capilares.

Assim, fica perfeitamente evidente a relevância social da temática. Afinal, falar de “beleza” não é, necessariamente, falar de coisas fúteis e superficiais. Para as blogueiras negras, esse assunto é, em primeiro lugar, uma chamada de atenção para o ativismo social, especialmente os movimentos feministas e negros.

Resistência ao racismo

Para as blogueiras negras do ramo, não é nenhuma novidade: são frequentes os episódios em que o racismo se fez presente em seus canais e páginas. Passando-se por simples comentários ofensivos, até perseguições mais severas, quase todas as entrevistadas constataram ter presenciado racismo e que existe, de fato, preferência pelas moças brancas e loiras para divulgar e trabalhar com cosméticos.

No entanto, apesar das dificuldades, para algumas blogueiras os comentários positivos servem de fortalecimento – é o caso de Fernanda Chaves, mãe e dona de casa de 26 anos. Nanda – como é conhecida na internet – define-se como “neutra” quando o assunto é política, mas lamenta que ainda existam coisas como racismo e machismo. Ainda assim, ela salienta que as mulheres negras, em suas palavras, devem fazer a parte que lhes cabe e “mostrar que não são piores do que ninguém”.

Michelle Shirai, do canal Mi Shirai

Michelle Shirai, do canal Mi Shirai

youtuber Gill Viana, que trabalha exclusivamente com os assuntos estéticos na internet, parece concordar com a ideia de que a melhor resposta para o racismo é fazer um bom trabalho. “Existe racismo em todos os lados e no YouTube e no mundo da blogosfera não seria diferente. Acho que vai de cada uma ir lá e buscar seu lugar ao sol, mostrando com seu trabalho que é tão capaz como outra qualquer”, diz a blogueira de 28 anos.

Beleza politizada

A paulistana Maraisa Fidelis é uma das blogueiras negras mais conhecidas no mundo dos cosméticos e, para ela, toda a questão é bem objetiva: “Você faz o seu trabalho e quem decide a audiência é o público. Se te assistem, as empresas te olham; se não te assistem, as empresas não te olham. Simples assim.” Apesar de reconhecer que há poucas mulheres negras protagonizando o mundo virtual da beleza no Brasil, Maraisa diz que nunca sofreu discriminação e que se esforça para não envolver assuntos como racismo em seu blogue, pois prefere deixar seu espaço voltado somente para os assuntos estéticos.

Não obstante, a fala de Maraisa não pode ser tomada como fechada, uma vez que ela mesma reconhece a importância de seu trabalho no fortalecimento da autoestima de garotas negras. E não é à toa: há cerca de oito meses, a blogueira resolveu assumir seu cabelo natural e hoje embeleza o Youtube com seu crespo empoderado. Apesar de seu blogue não ser direcionado apenas às meninas de cabelo cacheado, certamente há muitas garotas que se sentem representadas e fortalecidas para seguir o exemplo deixado pela vlogueira.

Fernnandah Oliveira, do blogue Criloura

Fernnandah Oliveira, do blogue Criloura

Já Fernnandah Oliveira, mais conhecida como Criloura, foi uma das entrevistadas mais politizadas e seguras de sua fala. A assistente social de 36 anos domina o universo dos cabelos e maquiagens, mas também participa ativamente de grupos de discussão sobre machismo e racismo. Suas perspectivas são bem diferentes das de Maraisa: “Penso que a beleza está dentro de um processo de subjetividade da autoestima e da aceitação. A partir deste viés é possível apresentar como a cidadania, enquanto espaço e processo de reconhecimento e garantia de direitos e deveres, está diretamente ligada neste processo”, afirma. De modo similar, ela considera necessário expor e mexer nas feridas deixadas pelo racismo nos canais de beleza. “Para quem duvida, é só contar o número de blogueiras e vlogueiras negras que estão entre as tops e as brancas. É disparado ver como há uma diferença em números e qualidade, sobre a inserção de mulheres e homens negros neste universo de blogs e vlogs de moda e beleza”.

Gill Vianna, do blogue Coisas de Uma Cacheada

Gill Vianna, do blogue Coisas de Uma Cacheada

Ainda sobre os possíveis vínculos entre a política e a beleza, a vlogueira Michelle Shirai, brasileira de 30 anos que mora no Japão, declara que nunca sofreu discriminação online, mas entende de forma muito positiva a sua influência política sobre sua audiência: “Meu trabalho com os vídeos não é só falar de beleza, mas também de encontrar a verdadeira identidade, crespa, cacheada, negra de pele escura ou clara, ter orgulho dos traços e formas. Envolve respeito e a minha união com muitas outras blogueiras e youtubers negras. Dá força, coragem e amor próprio de não ligar pro que a sociedade acha ou impõe como deveríamos nos vestir, ou usar os cabelos”.

Como pode-se perceber, a importância e a influência do trabalho das blogueiras e youtubers para as mulheres negras é evidente, até mesmo para aquelas que não são engajadas politicamente contra o racismo e a misoginia.

A beleza do ativismo

É extremamente importante que todas as mulheres negras que trabalham com moda, cabelo e cosméticos na internet saibam do potencial que seus espaços possuem para gerar transformação social. Essas ferramentas são tão pertinentes que, mesmo sem a intenção das blogueiras, as pessoas que as acompanham não permanecem as mesmas após assistirem a seus vídeos e verem suas fotos.

Maraisa Fidelis, do blogue Beleza Interio

Maraisa Fidelis, do blogue Beleza Interio

Infelizmente, ainda é impactante ver mulheres negras seguras de si, ostentando seus cabelos naturais e sem vergonha de seus traços faciais. Afinal, somos todos condicionados a valorizar e apreciar somente a beleza branca. Para as crianças negras envolvidas por nossa cultura, é ainda mais importante que esse trabalho continue a ser feito, possibilitando para elas uma autoestima muito mais segura e livre do racismo internalizado.

Nesse aspecto, todas as blogueiras entrevistadas falam sobre isso e, de certa forma, acabam sendo ativistas por meio do seu trabalho. Beatriz Andrade consegue definir esse processo quando diz que “a medida que compreende-se a autoestima, diminui-se o pré-conceito, pois o autoconhecimento provoca uma liberdade que nem o racismo ou machismo são suficientes para manter no cativeiro interior”. Sua mensagem, assim como de todas as outras gurus, é de que cada mulher negra se aceite e se ame, que supere as violências sofridas desde que veio ao mundo e que, a partir daí, mostre a que veio. Se isso não é militância, nada mais é.

Rosângela José, do blogue Negra Rosa, Rosa Negra

Rosângela José, do blogue Negra Rosa, Rosa Negra

(Crédito da ilustração de capa: Paula Portella)

Fonte: http://www.geledes.org.br/burus-da-beleza-negra-na-internet/

O racismo e a sonegação da história afrodescendente no Rio Grande do Sul.

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Entrevista especial com Jorge Euzébio Assumpção

“Há uma apropriação do passado dos negros pelos imigrantes não só por causa dos imigrantes, mas devido ao mito de o Rio Grande do Sul ser um estado diferenciado”, pontua o historiador.

A história afrodescendente no Rio Grande do Sul

“Qual é o símbolo de que temos presença negra no Rio Grande do Sul?”, pergunta Jorge Euzébio Assumpção, na entrevista a seguir, concedida pessoalmente à IHU On-Line. A resposta é categórica: “Nenhuma. Não há nenhum símbolo que demonstre a presença negra no estado. O negro passa quase que invisível pela história do Rio Grande do Sul e essa invisibilidade faz parte do racismo sulino, ou seja, ao negar e sonegar o papel dos negros no estado, estamos praticando um ato de racismo, porque se está, inclusive, escondendo as fontes históricas”.

Autor do livro Pelotas: escravidão e charqueadas 1780-1888 (Fcm Editora, 2013), resultado da sua dissertação de mestrado, o historiador demonstra que os afrodescendentes tiveram um papel fundamental no desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul, o qual é atribuído majoritariamente aos imigrantes alemães, italianos e açorianos, que colonizaram o estado a partir da segunda década de 1800. “Com a criação das grandes charqueadas, a partir de 1780, houve uma introdução de negros em grande escala no Rio Grande do Sul.

Pelotas foi a cidade em que proporcionalmente houve maior número de trabalhadores escravizados no Rio Grande do Sul, e, por consequência, o maior número de negros proporcionalmente. Calcula-se que Pelotas chegou a ter mais de 70% da sua população descendente de negros escravizados ou não”. Assumpção esclarece que não está negando o valor do imigrante na história gaúcha, “mas tentando restabelecer uma ordem de dizer que não foram somente os imigrantes os responsáveis pelo desenvolvimento do Rio Grande do Sul, mas também os negros, os quais tiveram uma participação anterior à do imigrante”.

De acordo com o pesquisador, a historiografia gaúcha passou a ser revista a partir dos anos 1980, mas ainda persiste no imaginário popular a imagem do gaúcho e da formação de um estado de imigrantes. “Há todo um mito em torno do imigrante do Sul do país, e que este é o estado mais europeu da nação. Por isso, grande parte da pesquisa dos historiadores sonega a participação do negro, porque eles contribuem com esse mito de que o Rio Grande do Sul é formado por imigrantes. Isso leva, por sua vez, ao mito do gauchismo no sentido de que no Sul se teve uma formação diferenciada por conta da qualidade aventureira do gaúcho e aqui a escravidão não se fez presente”. E acrescenta: “ORio Grande do Sul é, sim, um estado racista. Contudo, com a vinda dos imigrantes, a quantidade de negros pareceu diminuir diante da quantidade desses imigrantes que entraram no estado. Mas esse mito mantém-se até hoje”.

Jorge Euzébio Assumpção é graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Atualmente é professor dos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade Porto-Alegrense – FAPA, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB, e da Unisinos.

Confira a entrevista.

Jorge Euzébio Assumpção

Jorge Euzébio Assumpção

IHU On-Line – Como a historiografia tem abordado a atuação dos afrodescendentes no Rio Grande do Sul?

Jorge Euzébio Assumpção – De certa forma, até alguns anos atrás, essa questão não era abordada, porque para grande parte dos historiadores, os negros que viviam no Sul não haviam participado efetivamente da história do Rio Grande do Sul. A partir dos anos 1980 inicia um resgate da história da vinda dos negros para o estado e de sua importância.

Nesse meio tempo, houve uma lacuna na história, porque alguns historiadores negaram a participação do negro na história do Rio Grande do Sul, dizendo que ela aconteceu, mas foi pequena, sem tratar da dimensão que deveria, uma vez que o negro foi de fundamental importância para a conquista e a prosperidade do território sulino. Quase sempre que se fala do progresso do Sul, se atribui essa função aos imigrantes alemães e italianos e se sonega a participação da atuação dos afrodescendentes, quando se sabe que eles tiveram uma participação marcante nesse processo, porque quando da chegada dos portugueses no Sul, eles trouxeram os negros, os quais se fizeram presentes antes da oficialização do sul como território português.

IHU On-Line – O senhor menciona que a historiografia tradicional costuma associar o desenvolvimento do Rio Grande do Sul com a vinda dos imigrantes europeus, esquecendo-se dos afrodescendentes. Qual era o contexto do Sul do Brasil antes da chegada dos imigrantes e qual foi a atuação dos afrodescendentes nesse período?

Jorge Euzébio Assumpção – O Sul do país teve uma ocupação tardia porque à época havia um modelo agroexportador do Brasil para Portugal, ou seja, da colônia para a metrópole, e o Sul não fornecia as mercadorias que a metrópole queria, como cana-de-açúcar. O Rio Grande do Sul, nesse momento, foi deixado de lado, mas com as guerras de fronteira, posteriormente foi dado um destaque à região. Sendo assim, houve um interesse político militar na ocupação doSul do país e, somente aí, os portugueses começam a se interessar pela ocupação do Rio Grande do Sul efetivamente. Quando iniciou a ocupação do Rio Grande do Sul, os negros começaram a entrar no território juntamente com os portugueses e foram fundadas algumas colônias, como a de Sacramento. Isso se deu antes da chegada dos imigrantes no Sul.

IHU On-Line – Qual foi a relação dos imigrantes com os negros que estavam no Sul do país? Eles escravizaram os negros?

Jorge Euzébio Assumpção – Sim. Embora a lei não permitisse, os imigrantes tinham escravos, sim, por conta da grande propriedade rural. Apesar de os imigrantes não terem vindo para o Sul com uma grande propriedade rural, mesmo assim, eles precisavam da mão de obra.

Então, em menor escala, escravizaram, sim. Há, inclusive, documentos que mostram que os colonos de São Leopoldo tinham escravos. Nesse sentido, o imigrante vai fazer parte desse contexto escravista, muito embora ele venha para ocupar a pequena propriedade rural.

Houve um estímulo no Sul para a ocupação de terras. Agora, esse mesmo estímulo dado ao imigrante não foi oferecido para o negro, porque a mão de obra do negro era barata.

Portanto, quando se precisava de trabalhadores, pegava-se o negro, mas como também era necessária uma ocupação do território, chamou-se o imigrante, porque nada melhor do que a pigmentação da pele para diferenciar os inferiores, ou seja, o negro enquanto escravo.

“Quem trabalhava no século XIX eram os escravos. Em todo o Brasil foi assim”

IHU On-Line – Qual era o contexto histórico, social e político de Pelotas em 1814? Por que a cidade foi o grande centro afro-brasileiro da província e como se dava a relação entre afrodescendentes e não afrodescendentes?

Jorge Euzébio Assumpção – O Sul do país, diferente do resto do país, tem um foco na produção interna, e não externa. Assim, produzia produtos que alimentavam o mercado interno, como o charque a partir do gado. Antes, essa produção era feita no Ceará, mas com a seca, José Pinto Martins, um cearense, mudou-se para o Sul e instalou a primeira grande charqueada em Pelotas, no Rio Grande do Sul, porque a lagoa favorecia o escoamento da mercadoria. Embora o charque já fosse produzido no estado, com José Pinto Martins iniciou-se a produção em grande escala, a qual favoreceu o crescimento e o desenvolvimento de Pelotas. O charque trouxe a riqueza para a cidade, tornando-a a grande cidade do Rio Grande do Sul no século XIX, sendo mais importante que Porto Alegre. As companhias de teatro, antes de apresentarem as peças em Porto Alegre, as apresentavam em Pelotas. Então, o desenvolvimento de Pelotas se deu através da mão de obra escrava, por conta da produção de charque.

IHU On-Line – Nessa época o número de escravos era maior do que a população em geral da cidade?

Jorge Euzébio Assumpção – O charque deu condições para que entrasse no Rio Grande do Sul uma quantidade grande de negros escravos. Até então havia uma pequena, mas significativa, entrada de negros no estado. Mas com a criação das grandes charqueadas, a partir de 1780, houve uma introdução de negros em grande escala no Rio Grande do Sul.

Pelotas foi a cidade em que proporcionalmente houve maior número de trabalhadores escravizados no Rio Grande do Sul, e, por consequência, o maior número de negros proporcionalmente. Calcula-se que Pelotas chegou a ter mais de 70% da sua população descendente de negros escravizados ou não, porque nem todo negro era escravo. Já nessa época, no século XIX, o censo de 1914 demonstra um número significativo de negros não escravos. Mas não é pelo fato de esses negros não serem escravos que eles tiveram uma vida semelhante à do homem branco trabalhador.

“A partir do momento em que se diz que no estado teve escravo e que ele foi fundamental para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul, se nega o mito do gauchismo”

IHU On-Line – Os negros não escravos tinham escravos?

Jorge Euzébio Assumpção – Muito poucos, porque quase sempre quando um negro comprava um escravo, o fazia para poder comprar a sua carta de alforria. Era aceitável, à época, que o negro fizesse pequenos “bicos” e, através deles, acumulava uma certa quantidade de riqueza e com ela comprava um escravo para que ele ficasse livre. Mas o número de negros que possuíam escravos era muito reduzido.

IHU On-Line – É possível estimar quantos escravos havia em Pelotas trabalhando nas charqueadas entre 1780 e 1888?

Jorge Euzébio Assumpção – O censo de 1814 mostra que havia 32.300 pessoas residindo na cidade. Dessas, 8.655 eram indígenas, 5.399, homens livres, e 20.611 eram escravos. Se somarmos os indígenas, os livres negros e os recém-nascidos descendentes de negros, é possível verificar uma população significativa de escravos. Se esses escravos somavam esse percentual, mostra-se que eles não foram insignificantes como alguns historiadores fazem parecer.

IHU On-Line – Há um discurso de que o Rio Grande do Sul é o estado mais racista do Brasil. Esse discurso está atrelado a essa sonegação de informações acerca do papel dos negros no estado? Em outros estados, como Minas Gerais, houve bastante trabalho escravo, mas isso é visível na memória de Ouro Preto, por exemplo. Por que o mesmo não ocorre no Rio Grande do Sul?

Jorge Euzébio Assumpção – Quando eu vou para outros estados e digo que sou do Rio Grande do Sul, as pessoas não acreditam, porque o imaginário que se tem é que no Sul só existem pessoas brancas. Há todo um mito em torno do imigrante do Sul do país, e que este é o estado mais europeu da nação. Por isso, grande parte da pesquisa dos historiadores sonega a participação do negro, porque eles contribuem com esse mito de que o Rio Grande do Sul é formado por imigrantes. Isso leva, por sua vez, ao mito do gauchismo no sentido de que no Sul se teve uma formação diferenciada por conta da qualidade aventureira do gaúcho e aqui a escravidão não se fez presente. O Rio Grande do Sul é, sim, um estado racista.

Contudo, com a vinda dos imigrantes, a quantidade de negros pareceu diminuir diante da quantidade desses imigrantes que entraram no estado. E esse mito mantém-se até hoje.

Qual é o símbolo de que temos presença negra no Rio Grande do Sul? Nenhuma. Não há nenhum símbolo que demonstre a presença negra no estado. O negro passa quase que invisível pela história do Rio Grande do Sul e essa invisibilidade faz parte do racismo sulino, ou seja, ao negar e sonegar, estamos praticando um ato de racismo, porque se está, inclusive, escondendo as fontes históricas.

IHU On-Line – Trata-se de um racismo no sentido de sonegar a informação do papel do negro no desenvolvimento do estado?

Jorge Euzébio Assumpção – Sonegar essa informação é uma forma de ser racista no sentido de que não se dá o mérito às pessoas, ou seja, aos negros, pelo desenvolvimento do estado. Esse processo está dentro da nossa história e de todo o “romanceamento” da história do Rio Grande do Sul, a qual foi contada de uma maneira mitológica pelos historiadores. Dentro desse contexto, não pode haver a escravidão, porque a partir do momento em que se diz que no estado teve escravo e que ele foi fundamental para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul, se nega o mito do gauchismo. Não estou negando que se dê valor ao imigrante, deve-se dar, mas tentando restabelecer uma ordem de dizer que não foram somente os imigrantes os responsáveis pelo desenvolvimento do Rio Grande do Sul, mas também os negros, os quais tiveram uma participação anterior à do imigrante.

Na casa da Feitoria, em São Leopoldo, os negros faziam linho cânhamo, mas hoje essa é considerada a casa do imigrante. Há, portanto, uma apropriação do passado dos negros pelos imigrantes não só por causa dos imigrantes, mas devido ao mito de o Rio Grande do Sul ser um estado diferenciado. Estamos tentando mostrar que o Rio Grande do Sulnão é um estado diferenciado; ele tem os mesmos componentes que teve o restante do Brasil à época.

IHU On-Line – A sua pesquisa trata da escravidão nas charqueadas de Pelotas, no Rio Grande do Sul, entre 1780 e 1888. O que a sua pesquisa aponta sobre a escravidão no extremo sul do Rio Grande do Sul, especialmente nas charqueadas?

Jorge Euzébio Assumpção – As charqueadas eram ambientes insalubres e nenhum homem livre queria trabalhar nelas. Historiadores da época as narram como lugares sujos, onde se matava o boi, onde havia sangue e vinham as aves; era um local totalmente anti-higiênico.

Não havendo homens livres para trabalhar nas charqueadas, os negros foram obrigados a trabalhar nelas e foram submetidos a um regime monstruoso, porque eles trabalhavam com faca, e o escravo armado representava risco. Ocorreu, portanto, uma grande vigilância sobre eles, e não raro houve escravos matando e dando facadas nos capatazes e tentando matar os senhores. A violência nas charqueadas era muito grande, porque o tratamento dado aos negros era cruel. Tanto é que Auguste de Saint-Hilaire relata que nunca viu alguém ser tão maltratado como eram os escravos nas charqueadas.

Essa relação entre senhor e escravo foi marcada pela violência. O negro nunca se submeteu à escravidão e, portanto, partia para o confronto, o qual nem sempre era aberto, porque as condições não eram favoráveis a ele. Assim, a fuga foi a manifestação mais direta dessa resistência. Entretanto, ainda não se tem, estatisticamente, o número de negros que fugiram do trabalho escravo. Vários desses negros que fugiram do trabalho escravo, nos momentos de conflito, como aGuerra dos Farrapos, foram para estados vizinhos, como o Uruguai, onde eles se alistavam no exército.

IHU On-Line – No Uruguai havia outra consciência em relação aos negros?

Jorge Euzébio Assumpção – Sim, porque no Uruguai a abolição dos escravos se deu muito antes do que no Brasil. Chegando lá, os negros iam para o exército uruguaio, tanto que o exército de Artigas era composto basicamente por negros fugidos. Os Farrapos foram, muitas vezes, ao Uruguai buscar os escravos fugidos. Além disso, a ida dos negros para o Uruguai causava medo aos senhores, porque eles temiam que os negros voltassem para atacar suas terras. Esse foi um dos motivos pelos quais foi dada a alforria aos nascidos negros.

Grande parte do exército dos Farrapos era composta por negros. Esse é outro fato ignorado pela historiografia gaúcha. Esses negros foram para a guerra com a promessa de, depois, serem libertos. Contudo, com o acordo de paz entre oImpério e os Farrapos, não se soube o que fazer com os negros, porque o império não aceitava que fosse dada a liberdade aos escravos. Sendo assim, foi feito um acordo entre os Farrapos e o Império, no qual o Barão de Caxias eDavid Canabarro tramaram o assassinato dos negros: Canabarro desarmou os negros e avisou Caxias, que então os atacou. O acampamento Farrapos não era um acampamento onde todos ficavam juntos: índios, negros e brancos ficavam divididos cada um no seu grupo. Nem ali existiu uma democracia racial. Quando Caxias mandou atacar o grupo dos negros, ele ressaltou que era para atacar os negros e poupar a vida dos índios e dos brancos, “pois essa pobre gente poderia ser útil algum dia”. Essa foi a chamada traição de Porongos, que até hoje é discutida. Os tradicionalistas não aceitam essa discussão, porque toca na imagem de Canabarro, que é um dos ícones deles.

Mas esse fato está documentado e os documentos provam que os negros foram assassinados. Após esse episódio, foi assinada a paz, mas a escravidão permaneceu no Rio Grande do Sul. Portanto, os negros que lutaram com os Farrapos e não foram mortos, foram vendidos como escravos. Esse é outro mito de que os Farrapos queriam a libertação dos escravos. No anteprojeto de constituição elaborado pelos Farrapos, constava a permanência da escravidão. Portanto, nós construímos uma história cheia de mitos e romances, e é difícil ir contra eles, porque já estão enraizados na cultura gaúcha.

“O desenvolvimento de Pelotas se deu através da mão de obra escrava, por conta da produção de charque”

IHU On-Line – A que o senhor atribui o fato de cidades como Porto Alegre, Rio Pardo, Cachoeirinha, Pelotas e Piratini serem as principais cidades escravistas no Rio Grande do Sul em 1814?

Jorge Euzébio Assumpção – Porque esses eram os grandes centros urbanos. Nas principais cidades gaúchas havia grande concentração de escravos e eram eles que faziam tudo. Porto Alegre é uma cidade negra. O trabalho braçal de lavar roupa, pegar água no arroio Dilúvio, era feito pelos negros. Os senhores não faziam essas atividades. Embora Porto Alegre tivesse um comércio forte, havia uso de mão de obra escrava, porque quem trabalhava no século XIXeram os escravos. Em todo o Brasil foi assim.

IHU On-Line – No Rio Grande do Sul não há marcas visíveis do trabalho escravo, como as senzalas, preservadas em outros estados brasileiros. Como se dava a relação entre escravos e proprietários de terra?

Jorge Euzébio Assumpção – No Rio Grande do Sul, os proprietários de terras não tinham um número grande escravos como havia em outras regiões, porque a atividade desenvolvida aqui fazia com que menos escravos fossem necessários. Então, enquanto nas plantações de café de Minas Gerais havia mais de 150 escravos por fazenda, no Rio Grande do Sul não havia essa necessidade. As estâncias gaúchas eram marcadas por territórios enormes de terra, mas a demanda de trabalho não requeria um grande número de escravos. Entretanto, quase todas as famílias tinham um ou dois escravos, que moravam na casa da família ou fora dela. As senzalas existiam onde ha via grande concentração de escravos. Nos casos contrários, os escravos moravam em casinhas menores, nos fundos das casas dos senhores ou com eles.

Além disso, no Rio Grande do Sul nunca houve uma preocupação em preservar os vestígios de mão de obra escrava; eles foram apagados ao longo dos anos. Se o Rio Grande do Sul diz que não teve escravos, como se poderiam preservar as senzalas que mostram a presença física dos escravos? Essa informação foi sonegada, enquanto em outros estados houve uma conscientização de preservação histórica.

IHU On-Line – Como ocorreu o processo de abolição no Rio Grande do Sul?

Jorge Euzébio Assumpção – Vamos tratar do mito da abolição dos escravos no Rio Grande do Sul. Os livros de história dizem que a abolição se deu antes da assinatura da Lei Áurea, ou seja, que em 1884 os escravos foram libertos. Isso é uma grande farsa. O que houve naquele ano foi uma campanha de abolição, mas os proprietários de terras no Rio Grande do Sul, tentando manter a escravidão e, por outro lado, sentindo a pressão fortíssima dos escravos,“libertaram” os negros dando a eles uma carta com cláusula de prestação de serviço, ou seja, a libertação era dada ao escravo com a condição de ele trabalhar para o senhor até a morte deste, ou então por alguns anos. Essa medida teve um impacto grande e desde então se disse que no Rio Grande do Sul a escravidão acabou antes de 1888. Mas quase todas as cartas dadas em 1884 eram prestação de serviços.

Os historiadores demarcaram, portanto, o fim da escravidão no estado nessa época, o que não aconteceu, porque as cartas de alforria poderiam ser revogadas pelos senhores a qualquer momento e, além disso, eram os senhores que ficavam com as cartas. Portanto, a abolição de 1884 foi uma falsa abolição, diferente do que aconteceu no Ceará e noAmazonas, onde os escravos foram libertos em 1884. Essa foi uma forma de acalmar os negros mediante as pressões internas e externas e o número de negros que estava resistindo com maior intensidade. Foi um momento tenso e, para aliviar a tensão, os senhores fizeram esse grande jogo com os escravos.

IHU On-Line – Há marcas vivas da escravidão no Rio Grande do Sul?

Jorge Euzébio Assumpção – Em Pelotas, por exemplo, quase todos os grandes prédios foram construídos por escravos, ou seja, tudo que foi construído no século XIX teve participação deles. Agora, essa marca não está visível, mas se procurarmos na documentação quem eram os pedreiros, carpinteiros, veremos que todos eles foram escravos. As cercas de pedras que existem no interior do estado também foram feitas pelos escravos. Então, a mão de obra escrava está marcada na construção de PelotasPorto Alegre e dos grandes centros urbanos da época. A documentação prova isso e não temos como sonegar essa informação, apesar de termos poucas marcas visíveis.

Fonte IHU e Geledes

Nessa sexta feira dia 30/05 teremos a presença de Carem Fortunato voluntária do  Centro de apoio ao portador de anemia falciforme.

Para falar sobre:

* Doença falciforme

* Linha de cuidados na doença falciforme

* Acesso a rede de assistência

*  Questão Social.

Data: 30/05/2014           Horário: 19:30 às 22:00

Local: Sala Ignácio Ellacuria

Contato: 35911100 ramal:4130/4116    neabi@unisinos.br

Esperamos vocês AXÉ!