0 Comentário em 13 - julho - 2015

Autor: Costas Douzinas

Tradução: Daniel Carneiro Leão Romaguera

Revisão: Profª. Fernanda Bragato

 

Confesso-me culpado da acusação de otimismo declarado. Entramos em uma era de resistência para qual devemos construir uma analítica. Novas formas, estratégias e assuntos de resistência e insurreição, aparecem regularmente sem conhecimento ou orientação em Badiou, Zizek ou Negri.

Em 17 de junho de 2011, fui convidado para dirigir a ocupação da Praça Syntagma em Atenas. Após as palestras, seguindo o procedimento habitual, os membros da ocupação tinham seus números sorteados e vinham para frente falar com as 10.000 pessoas presentes. Um homem em particular estava tremendo e com sintomas evidentes de Stagefright antes de seu discurso. Ele então começou a dar uma bela palestra em frases e parágrafos perfeitamente formados, apresentando um plano completo e convincente para o futuro do movimento. “Como você fez isso?” Eu perguntei a ele mais tarde, “Eu pensei que você iria entrar em colapso”, quando eu comecei a falar, ele respondeu calmamente: “Eu estava balbuciando as palavras, mas alguém estava falando. Um estranho dentro de mim ditava o que dizer”. Muitos participantes nas recentes insurreições e revoltas deram declarações semelhantes. Meu trabalho mais recente aborda esse “estranho em mim” (a descrição usual do inconsciente), esta transubstanciação milagrosa compartilhada por pessoas de diferentes partes do mundo. [1]

A “nova ordem mundial” anunciada em 1989 foi a menor da história, chegando a um fim abrupto em 2008. Protestos, tumultos e revoltas eclodiram em todo o mundo. Nem o mainstream nem os radicais tinham previsto a onda e isso levou a uma busca frenética por precedentes históricos. Um ex-diretor do Serviço Secreto de Inteligência britânico pensou “a onda revolucionária, como 1848”. Paul Mason concorda: “Há paralelos fortes – acima de tudo com 1848, e com a onda de descontentamento que precedeu 1914″ [2] Alain Badiou suspeita de um possível “renascimento da história” em uma nova era de “revoltas e levantes” depois um longo “intervalo” revolucionário. [3] Eventualmente, porém, a história é abortada ou natimorta segundo Badiou que discorda fortemente com a minha afirmação de que entramos em uma idade de resistência.

Em uma conferência realizada na cidade de Paris no mês janeiro de 2013 estava no mesmo painel que Badiou, depois da minha apresentação alain começou: “Eu certamente admiro a eloquência do meu amigo e camarada Costas Douzinas, que reforçou seu otimismo confesso, com referências precisas para o que ele considera serem as novidades políticas dos povos e resistência na Grécia, onde teve de discernir a emergência de um novo sujeito político”. Quando ouvi o próximo ponto eu pensei que eu tinha entendido mal: Enquanto a coragem e a inventividade da resistência são motivos de entusiasmo, a resistência não é nem nova nem eficaz. A mesma coisa aconteceu em maio de 68, na Praça Tahrir e mesmo “nos tempos de Spartacus ou Thomas Munzer”. [4]

Confesso-me culpado da acusação de otimismo declarado. Entramos em uma era de resistência. Novas formas, estratégias e assuntos de resistência e insurreição aparecem regularmente, sem conhecimento ou orientação de Badiou, Zizek ou Negri. Seu tempo é imprevisível, mas a sua ocorrência certa. Assim que as resistências se espalharam pelo mundo a partir dos países atingidos pela austeridade da Turquia ao Brasil, os ex-garotos-propaganda do neoliberalismo da Bósnia-Herzegovina e Ucrânia, a filosofia tem a responsabilidade de explorar o retorno contemporâneo da resistência e desenvolver uma analítica de resistência.

Em um sentido mais estratégico, é importante seguir o conselho de Kant em seus ensaios políticos, algo como um voto de confiança para as relações públicas filosóficas avant la lettre. Na filosofia da história de Kant, a natureza garante a eventual união civil da humanidade em um futuro cosmopolita. Mas, dada à possibilidade de uma audiência pública, o filósofo deve continuar pregando a inevitabilidade do cosmopolitismo, oferecendo uma mão amiga a providência. De forma semelhante e após as repetidas declarações sobre o “fim da história”, o “fim da ideologia” e a nova ordem mundial, é importante para a esquerda proclamar que a mudança radical tornou-se possível novamente.

No século XX a esquerda colecionou uma longa lista de profetas e grupos que prometem a refundação de uma primeira e única forma correta de organização comunista. Em intervenções anteriores, Badiou explicou que a “resistência” (entre aspas irônicas) do movimento antiglobalização foi criação do poder dominante. O movimento é “um operador selvagem” da globalização e “procura traçar, para o futuro iminente, as formas de conforto para ser apreciado pela pequena burguesia ociosa do nosso planeta”. [5] Na discussão do tema, Badiou passou a atacar Negri (“um romântico da velha guarda”), que é fascinado por “flexibilidade e violência” do capital.

Ele chamou a multidão de um “sonho alucinante” que reivindica o direito de inércia do nosso planeta… o desfrutar sem fazer nada, enquanto houver um cuidado especial para evitar qualquer forma de disciplina. Mas, nós sabemos que a disciplina em todos os campos que a conhecemos é a chave para verdades. Finalmente, ele descartou a categoria do “movimento”, porque é “acoplado à lógica do Estado”; a política deve construir “novas formas de disciplina para substituir a disciplina dos partidos políticos”. [6]

De acordo com esta versão, a resistência comunista deve ficar longe do estado, adotar a ideia do comunismo e criar uma organização altamente disciplinada que age em relação às pessoas de forma direta e autoritária, que “deseja comemorar sua própria autoridade ditatorial, ditatorial porque ad infinitum democrático”. [7]

Este é o tipo de organização que as resistências recentes têm rejeitado e por uma boa causa: tanto por causa da história da esquerda e, mais importante, porque as mudanças socioeconômicas do capitalismo tardio fizeram do conceito de uma organização leninista não apenas redundante, mas indesejável e contraproducente.

A partir de uma perspectiva totalmente diferente se não oposta, e com maior interesse no princípio do prazer do que a pulsão de morte (e em partes e não numa parte), o recente livro de Howard Caygill parece compartilhar do pessimismo. [8] As suas últimas linhas referem-se a resistências contemporâneas e concluem: “a resistência está envolvida na deslegitimação desafiante de dominação existente e potencial, mas sem qualquer perspectiva de um resultado final sob o disfarce de uma solução revolucionária ou reformista … a política de resistência está desiludida e sem fim”.

Mas, apesar das reservas dos pessimistas, resistência e revolução estão no ar. Parece, porém, que a “coruja de Minerva” de Hegel não deixou seu ninho. Será porque não estamos no “crepúsculo” ainda? Em outras palavras, os filósofos não podem responder à agitação política e social, porque a época da resistência não está perto de acabar, como pensava Hegel? Ou, é o resultado de uma certa esclerose teórica e política por parte dos teóricos radicais?

Fracasso, derrota, perseguição e paranoia são marcas da esquerda. A esquerda tem aprendido a estar sob ataque, a falhar, perder e afundar na derrota. Um masoquismo duradouro se esconde nos melhores livros de esquerda: muitas são as histórias de fracasso e racionalizações variáveis. É verdade que a esquerda perdeu muito: uma unidade de análise e movimento, a classe trabalhadora como sujeito político, o inexorável avanço da história e a economia planificada como alternativa ao capitalismo. Foi também verdade que a queda do muro de Berlim atingiu com maior intensidade os socialistas ocidentais do que os antigos stalinistas. Usando termos de Freud, o luto necessário e libertador do objeto de amor da revolução se transformou em melancolia permanente. Em luto, a libido finalmente retira-se da perda do objeto e é deslocada para outro. Na melancolia, se retira para o ego”. Esta retirada serve para “estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado”. [9]

Walter Benjamin chamou isto de “melancolia da esquerda”: a atitude do militante que está ligado a uma análise política específica ou ideal – e ao fracasso desse ideal – do que a apreensão de possibilidades de mudança radical no presente. [10] De sua parte, Benjamin apela à esquerda para agarrar o “tempo do agora”, enquanto para o melancólico a história é um “tempo vazio” de repetição. Parte da esquerda é narcisicamente fixada para o seu objeto perdido, sem óbvio desejo de abandoná-lo. A melancolia de esquerda leva inexoravelmente ao fetichismo das pequenas diferenças: politicamente, ele aparece nos conflitos intermináveis​​, divisões e insultos entre companheiros de outrora. Ataques entre os mais próximos, a dupla ameaça é mais perigosa do que o inimigo. Teoricamente, de acordo com Benjamin, a melancolia da esquerda trai o mundo em prol do conhecimento. Em nosso cenário contemporâneo, temos um retorno a um tipo particular de grande teoria, que combina uma obsessão da explicação da vida, do universo e tudo com a ansiedade da influência. As sombras e fantasmas das gerações anteriores de grandes nomes pesam sobre os últimos missionários da enciclopédia.

A razão mais importante porque a teoria radical tem sido incapaz de compreender plenamente as recentes resistências é talvez a “ansiedade da grande narrativa”. A geração anterior de intelectuais radicais, como Jean-Paul Sartre, Bertrand Russell, Edward Thomposn e Louis Althusser, tinha ligações estreitas com os movimentos de seu tempo. Filósofos radicais contemporâneos são encontrados com mais frequência em salas de aula do que esquinas.

O “academicismo” mais amplo da teoria radical e sua proximidade com os estudos “interdisciplinares” e departamentos culturais de estudo mudaram seu caráter. Estes campos acadêmicos foram desenvolvidos como resultado das prioridades de financiamento nas universidades. Eles alegremente acolhem o apelo dos filósofos radicais que contribuem para o seu valor de celebridade. Mas esse enfraquecimento da relação entre teoria e prática tem um efeito adverso sobre a construção da teoria. O desejo de uma “teoria radical de tudo” causada pela “angústia da influência”, criada pela geração anterior de grandes nomes filosóficos não ajudar a superar as limitações de abstração desencarnada.

Não é nenhuma surpresa o fato de muitos esquerdistas europeus estarem felizes ao comemorar o final de Chavez, Morales ou Correa e levaram a cabo a política radical por procuração, prontos para descartar o que acontece em parte do mundo por entender irrelevante ou equivocada. Talvez se sintam melhor em perder gloriosamente do que ganhar mesmo com algumas concessões. Repetidas derrotas não ajudaram aos milhões cujas vidas foram devastadas pelo capitalismo neoliberal e governança pós-democrática.

O que a esquerda precisa não é um novo modelo de partido ou teoria brilhante dotada de completude. É preciso aprender com as resistências populares que eclodiram sem líderes, partidos ou ideologia comum, e construir com essa nova energia, imaginação e instituições criadas. A esquerda precisa de alguns sucessos depois de um longo intervalo de fracassos.

 A Grécia é, talvez, a melhor oportunidade para a esquerda europeia. A persistente militância e resistência afundaram dois governos de austeridade. E, atualmente, o Partido de Esquerda Radical denominado “Syriza” será provavelmente o primeiro governo radical eleito na Europa.

 A chance histórica foi criada não pelo partido ou por uma teoria, mas por pessoas comuns que estão bem à frente de ambos e adotaram esse pequeno partido de protesto como veículo que complementaria no Parlamento as lutas nas ruas. A responsabilidade política e intelectual de intelectuais radicais nos demais lugares é de se posicionar e demonstrar solidariedade com a esquerda grega.

Para uma geração mais velha de militantes, a teoria é uma arma na política. A partir desta perspectiva, eu argumentei em meu livro recente que formas, temas e estratégias de resistência surgem dentro e contra os circuitos de poder, reagindo e reorganizando suas operações.

Para explicar a sua multiplicação e intensificação, devemos começar com a exploração que o estado de coisas se opõe, a desastrosa combinação do capitalismo neoliberal e a decadência quase terminal da democracia parlamentar. Todas as resistências recentes de Tahrir, Syntagma, Taksim e Sarajevo parecem responder um ou outro. É, portanto, importante o exame de certas tendências comuns para iniciar a análise da idade de resistência. Deixe-me resumi-las.

Primeiro, o cenário econômico e social do capitalismo neoliberal imaterial. Sua lógica é a da privatização, do antiestado e da desterritorialização. Mas, ao mesmo tempo, no entanto, como o lucro torna-se rendas e juros, o capitalismo exige uma maior regulamentação e policiamento.

Em segundo lugar, devemos explorar a organização global biopolítica em seus dois lados: no período de crescimento falso, liberalismo pessoal, hedonismo e consumismo, com a injunção do prazer mandatório. Cada “Desejo x” tornou-se “Eu tenho o direito de x”. Quando inevitavelmente a austeridade chega, a ênfase vira para o lado inverso com o controle das populações. A escolha do indivíduo e sua felicidade bem como toda a raiva do período anterior desaparecem. O indivíduo é abandonado, o prazer mandatório torna-se a proibição de prazer a fim de salvar o DNA da nação.

Estes desenvolvimentos têm efeitos graves para a política da lei. Legalidade é utilizada pelas elites, a fim de prevenir e criminalizar a desobediência e a resistência. A ênfase anterior na liberdade controlada se transforma em um estado limitado de exceção, a repressão policial e exclusão generalizada.

A Análise global deve ser sempre ajustada ao contexto local. Resistências são sempre localizadas. Portanto, cada caso deve ser analisado no contexto de histórias locais, condições e relações de poder no tempo e espaço. A explosão, multiplicação e condensação das diferentes lutas e campanhas dependem crucialmente do Kairós, trata do momento oportuno que é muitas vezes um catalisador aleatório, como foi a morte de Alexis Grigoropoulos em Atenas no ano de 2008, Mohamed Boazizi na Tunísia em 2010, ou Mark Duggan em Londres 2011.

A insurreição espontânea é o ponto onde a complementaridade ou acoplamento da prometida liberdade de escolha do consumidor e o controle comportamental e repressão policial são desvelados. Portanto, o primeiro indicativo de conflito é a de- e re- subjetivação, que consiste na desarticulação de pessoas a partir da posição de desejo, consumo de máquinas e sua emergência em resistir às subjetividades (o “Estranho em Mim”). A participação na maioria das lutas é a re-politização da política através da introdução de um elemento ativo da democracia direta em nossas enfermas e decadentes disposições constitucionais. Três novas formas de política surgiram para responder às tendências e subjetividades do capitalismo tardio.

Em primeiro lugar, os consumíveis, os seres humanos redundantes, o homines sacri do nosso mundo. Tais são os imigrantes ilegais ou sans papiers, aqueles para quem o Mediterrâneo tornou-se um cemitério flutuante. Aqui, muitas vezes, a resistência à subjetividade assume a forma de martírio – testemunho e sacrifício – e do êxodo.

Em segundo lugar, os biopoliticamente excluídos: os desempregados e não empregáveis, jovens e velhos, pessoas que existem socialmente, mas são invisíveis para o sistema político. Resistência assume a forma de insurreição, ocasionalmente tumultos. Subjetividade assume a forma de atuação violenta para fora. O que eles exigem não é este ou aquele direito, tanto como o “direito a ter direitos”, mas para serem considerados parte do contrato social.

Finalmente, a privação de direitos democráticos. Aqui, a forma dominante é a ocupação de praças e outros espaços públicos por multidões de homens e mulheres de todas as ideologias, idades, profissões e desempregados. A produção imaterial promove uma rede social, mas não a cooperação política; comunicação, mas não as identidades ideológicas; e, sim, a colaboração com base na atomização e autointeresse. As praças ocupadas são o lugar onde os dissidentes colocam em prática as habilidades políticas de rede e colaboração que aprendemos para o trabalho.

Os jovens foram orientados por trinta anos que iriam ter uma boa vida pelo estudo e obtenção de graus, bem como continuar a aprender novas habilidades. Mais de 60% dos jovens europeus têm o ensino pós-secundário e exatamente as mesmas habilidades que seus governantes. Eles são agora o precariado. Cerca de mil advogados, engenheiros e médicos estão desempregados, isso os torna mais revolucionários do que mil trabalhadores desempregados. Estes são os indignados de Tahrir Square, Puerta del Sol, Syntagma e Taksim.

Os grupos de trabalho elaborados fornecem serviços essenciais nas praças ocupadas. Em Atenas, por exemplo, comida, saúde, atividades e meios culturais e educacionais foram fornecidos por profissionais, muitos deles com graus elevados, mas permanentemente desempregados.

As assembleias diárias e temáticas, bem como os grupos de trabalho se organizam sob um axioma estrito da igualdade. Quem está na praça, todos e qualquer um tem direito a uma parte igual de tempo para manifestar sua visão. As opiniões dos desempregados e de professores universitários tem tempo idêntico, são discutidas com o mesmo vigor e submetidas à votação para aceitação. Aqui, o direito de resistência se junta à igualdade, o segundo grande direito revolucionário, modificado de uma norma condicionada em um axioma incondicional: As pessoas são livres e iguais; cada um conta como um em todos os grupos relevantes. [11]

As praças ocupadas criam um contrapoder constituinte, que divide o espaço social entre “nós” e “eles”. Sua democracia direta faz paródia às instituições representativas, fornecendo de forma eficiente os serviços atualmente privatizados e também às pré-figuras de uma nova arquitetura constitucional e institucional. Permitam-me concluir, oferecendo sete teses para uma análise de resistência:

  1. A resistência é um direito do ser. É interno ao seu objeto. A partir do momento que o ser toma forma, ou uma assimetria de poder é estabelecida, ele encontra resistências que irreversivelmente o modificam e fissuram sua totalidade.
  2. Resistências são sempre situadas. Resistências são locais e múltiplas, que surgem concretamente em condições específicas, respondendo a uma situação, estado de coisas ou eventos.
  3. É uma mistura de reação e ação, negação e afirmação. Resistência reativa conserva e restaura o estado das coisas. Os empresta ativos, imita e subverte os braços do adversário, a fim de inventar novas regras, instituições e situações.
  4. É um processo ou experiência de subjetivação. Tornamo-nos novos sujeitos, o “estranho em mim surge” quando experimentamos uma cisão de identidade. Porque minha existência particular falhou, porque a identidade é dividida e não pode ser concluída. O sujeito passa da identidade da rotina diária para a universalidade da resistência. Trata-se de risco e perseverança: a resistência é a coragem da liberdade.
  5. É primeiro um fato, não uma obrigação. Não é a ideia ou a teoria da justiça ou o comunismo que leva à resistência, mas a sensação de injustiça, a reação corporal a dor, a fome e ao desespero. A ideia de justiça e igualdade são mantidas ou perdidas como resultado da existência e extensão da resistência e não o contrário.
  6. A resistência se torna política e pode ter sucesso em mudar radicalmente o equilíbrio de forças, ao se tornar coletiva e condensa, temporária ou permanentemente, uma série de causas, uma multiplicidade de embates e reivindicações locais e regionais capaz de reuni-los em um lugar comum ao mesmo tempo.

Persistência, acampamento, ficar em um lugar público e transformá-lo em ágora ou fórum podem ajudar a criar a demos em oposição às elites. Naquele (imprevisível) momento, a resistência pode se tornar a força hegemônica. Isso já aconteceu em alguns lugares nos últimos anos. A possível traição da revolução depois não muda o fato de que as pessoas nas ruas aprenderam que podem derrubar o mais forte dos governantes.

  1. Embora a resistência seja um fato e não uma obrigação, o tema da resistência emerge através do exercício do direito de resistir, o mais velho, de fato, e único direito natural. Direitos têm duas fontes metafísicas. Como vontade reconhecida, os direitos aceitam a ordem das coisas e ocultam a dominante particular com o manto da universal. Mas, como uma vontade que quer o que não existe, os direitos encontram sua força em si mesmo e seu efeito em um cosmos aberto que não pode ser totalmente determinado pelo poder (político ou militar financeira). A vontade de resistir forma uma universalidade criada por uma divisão diagonal do mundo social, que separa governantes dos governados e excluídos.

[1] Costas Douzinas, Philosophy and Resistance in the Crisis (Polity, 2013).

[2] Paul Mason, Why it’s Kicking off Everywhere: The New Global Revolutions(London, Verso, 2012), 65.

[3] Alain Badiou, The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings (London, Verso, 2012), 38.

[4] Alain Badiou, ‘Our Contemporary Impotence’, 181 Radical Philosophy, September-October 2013, 43.

[5] Alain Badiou, ‘Beyond Formalisation’, An Interview conducted by Pater Hallward and Bruno Bosteels (Paris, July, 2 2002) in Bruno Bosteels, Badiou and Politics (Durham, Duke University Press, 2011), 318-350.

[6] id., 336, 337.

[7] The rebirth of history, 97.

[8] Howard Caygill, On Resistance: A Philosophy of Defiance’ (Bloomsbury, 2013), 208.

[9] Sigmund Freud, ‘Mourning and Melancholia’, in Vol. 14, The Standard Edition of the Complete Works of Sigmund Freud, (Hogarth, 1957), 249.

[10] Walter Benjamin, “Left-Wing Melancholy,” in The Weimar Republic Sourcebook, ed. Anton Kaes, Martin Jay and Edward Dimendberg (University of California Press, 1994), 305.

[11] Costas Douzinas, ‘Philosophy and the Right to Resistance’ in Douzinas and Gearty, The Meanings of Rights (Cambridge University Press, 2014).

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