Há 500 anos, na cidade de Ávila (Espanha), nascia uma mulher à frente do seu tempo, Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada.

Dia 15 de outubro é o dia em que celebramos essa mulher mística, poeta, peregrina, doutora da Igreja.

Com 20 anos de idade fugiu de casa com o desejo de se dedicar à vida religiosa e por outros 25 viveu no Convento Carmelita de Encarnacíon, em Ávila. De lá saiu para reformar o Carmelo e criar a Ordem das Carmelitas Descalças, pois julgava que a aproximação com Deus só seria completa se pudesse encontrar um local tranquilo. Para Teresa, era necessário um espaço simples e com regras primitivas para a realização de uma plena experiência mística.

Vontade

Essa vontade de mudança, conforme observa Luciana Ignachiti Barbosa, em entrevista concedida à IHU On-Line, deu-se porque Teresa de Jesus “não suportava mais estar em lugar tão confortável; ansiava pela solidão, pelo recolhimento e pela vida simples com sacrifícios, para que melhor estivesse com Deus”, destaca. “Foi então que a ideia de fundar mosteiros em que a regra primitiva fosse observada calou mais fundo em seu coração. Cansada da superlotação do seu mosteiro da Encarnação e da falta de reclusão que havia ali, Teresa ansiava por poder realmente servir à regra de Santo Adalberto: amor, silêncio e pobreza”, complementa.

Carmelitas Descalças

A fundadora das Carmelitas Descalças desejava uma experiência de encontro com o Divino e acreditava que Deus era um caminho próximo e também humano. Seus escritos e suas profundas experiências místicas a colocaram como uma das mulheres mais importantes do catolicismo.

Santidade

Em 1970, Teresa de Ávila, foi proclamada Santa pelo Papa Paulo Vl, que também a consagrou como Doutora da Igreja e neste ato a definiu como: “uma mulher excepcional, como uma religiosa que, coberta inteiramente pelo véu da humildade, da penitência e da simplicidade, irradia à sua volta a chama da sua vitalidade humana e do seu dinamismo espiritual, e depois como a reformadora e fundadora de uma Ordem religiosa insigne e histórica, escritora genialíssima e fecunda, mestra de vida espiritual, incomparável na contemplação e infatigável na ação. Como é grande, como é única, como é humana e como é atraente esta figura!”

Escultura: Êxtase de Santa Teresa de Gian Lorenzo Bernini, localizada na Igreja de Santa Maria da Vitória, em Roma.

A transformação

Sua metáfora sobre o bicho da seda, que se transforma em borboleta, evidencia um chamado para a mudança que ocorrerá após a experiência com Deus. É caminhada de cada um em relação ao Divino, que “supõe um caminho de morte vida, ganhos e perdas, segundo a lógica do seguimento, trilhado com Cristo e em Cristo. É na vivência do amor que a pessoa integra todas as suas potencialidades. As crises e contradições podem converter-se em lugar de encontro. A pessoa, sabendo-se amada, responde amando. Sente-se convidada a “conhecê-Lo, amá-Lo, torná-Lo conhecido e amado”, conforme destaca Rita Romio, Irmã Teresiana, em artigo recente.

Ensinamentos

Suas obras são um chamado atual de exame de consciência, que levam a refletir sobre o contexto ao qual estamos inseridos, conforme destacou o professor Faustino Teixeira, em recente entrevista concedida à IHU On-Line: “Vivemos sob o domínio da produtividade, da busca desenfreada pelo sucesso, escravos das leis do mercado. Os grandes místicos, como Teresa, destacam a importância de outro ritmo para a vida, de cuidado com o mundo interior, de quietação dos sentidos, de atenção aos toques do silêncio. Na perspectiva de Teresa, o mergulho no mundo interior é fundamental, mas ele vem sempre acompanhado de uma sede de irradiação, de uma tensão operativa, visando sempre à virtude da caridade”.

Escritos

Sobre os escritos de Santa Teresa, Julia Kristeva – estudiosa que escreveu Thérèse mon amour. Sainte Thérèse d’Avila (Paris: Fayard, 2008) -, em entrevista publicada pelo jornal L’Osservatore Romano e reproduzida pelo sítio do IHU, enfatiza que “a escrita dessa mulher sem fronteiras nos oferece o seu corpo físico, erótico, bon vivant e anoréxico, histérico, epilético, que se faz verbo e se faz carne, que se faz e se desfaz em si fora de si, fluxos de imagens sem marcos, constantemente em busca do Outro e da palavra certa. Matriz aberta que palpita pelo amado sempre presente, sem nunca estar lá. Os êxtases de Teresa são, de repente e sem distinção, palavras, imagens e sensações físicas, espírito e carne, ou talvez, justamente, carne e espírito.”

Obras

Entre seus livros mais famosos estão o Livro da Vida (São Paulo: Penguin Classics – Companhia das Letras, 2010), Caminho da Perfeição (São Paulo: Paulus, 2014), Moradas e Fundações (São Paulo: Paulus, 2014), entre outros. Também é autora de poemas, dos quais restam 31 deles, e enorme correspondência, com 458 cartas autenticadas.

Teresa de Ávila morreu no dia 4 de outubro de 1582, com 67 anos. Foi sepultada em Alba de Tormes, onde também estão suas relíquias.

*Fontes das imagens: domvob.files.wordpress.com, c1.staticflickr.com e teresadejesus.carmelitas.pt,  respectivamente. 

Por Cristina Guerini

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