A câmera foca o lixo que cai, entre porcos e crianças, no chão embarrado de uma favela de El Salvador.

Essa é a cena escolhida por Hans Küng e sua equipe para abrir o documentário sobre Cristianismo, exibido no programa “Religiões do Mundo”, promovido pelo IHU em parceria com o Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil. E foi a partir desse detalhe cinematográfico que o Prof. Dr. Joe Marçal Gonçalves dos Santos, mestre e doutor em teologia e pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), quis comentar o vídeo.

O encontro ocorreu na Casa de Cultura Mário Quintana, no centro de Porto Alegre, nesta quinta-feira à noite. Apesar da chuva, o público pôde acompanhar a exibição do documentário sobre a religião cristã e ouvir os comentários de Santos e também do Reverendo Jessé Castro Ramos, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.


Rev. Jessé Castro Ramos e Prof. Dr. Joe Marçal Gonçalves dos Santos, na CCMQ

E é a partir da realidade de extrema pobreza do país centro-americano que Hans Küng inicia sua reflexão sobre o cristianismo, ou “cristianismos”, no plural, como destacou Santos. Segundo o teólogo, essa proposta de reflexão a partir de uma cena como essas é fundamental para se compreender qual é a essência do cristianismo.

Esses “cristianismos”, marcados por “montagens, hibridismos, diferentes legados”, segundo Santos, são bem mostrados no vídeo, que acompanha a história dos discípulos de Jesus na Igreja católica-romana, ortodoxa, luterana, calvinista, dentre outras.

Um dos grandes desafios, concordaram os comentadores, é que vivemos em uma época marcada pela hipocrisia religiosa, em que se percebe uma grande falta – e uma grande necessidade – de coerência. Segundo Joe Santos, é preciso reconhecer que a vida vai continuar para além e apesar da religião. Para o Rev. Jessé, isso manifesta que só Deus é o Senhor da história, mesmo apesar de nossas limitações e nossa falta de fé para chegarmos à paz mundial.

Outro ponto destacado é a cena do documentário, gravada em um sobrevoo sobre o centro de Nova Iorque, em que a câmera está em close na grande catedral de St. Paul, no centro da cidade. Aos poucos, a imagem vai se abrindo, até permitir que se possa ver que aquela imensa catedral está, na verdade, rodeada por arranha-céus ainda maiores. Segundo os teólogos, a cena ajuda a refletir sobre a relação do cristianismo com a modernidade e o papel das Igrejas em um mundo globalizado.

Refletindo ainda sobre os aspectos políticos da religião (“Seguimos um preso político”, afirmou Santos) ou pastorais-catequéticos (“Como diz o conto, basta batizar e crismar os morcegos que sujam a torre da Igreja para que o pároco possa se ver livre deles”, brincou o Rev. Jessé), ambos os comentadores puderam ainda responder perguntas dos presentes, como sobre o resgate do valor da tradição cristã, especialmente no que se refere ao texto bíblico.

O programa “Religiões do Mundo continua ocorrendo até outubro. Nesta sexta-feira, 04, ocorre a exibição comentada do documentário sobre Religiões Chinesas, com a presença do Mestre Adriano Jagmin D’Ávila, do Centro Cultural Tao, de Porto Alegre. O evento ocorre das 16h às 18h, na Sala 1G119, na Unisinos.

Em Porto Alegre, o próximo encontro ocorre no dia 17 de setembro, das 19h às 21h, sobre Hinduísmo, com a presença do monge Swami Krishnapriyananda Saraswati, presidente latino-americano da Sociedade Internacional Gita, na sala A2B2 da CCMQ.

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(por Moisés Sbardelotto)

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