Amante das poesias e em partilhar o amor de Deus, recentemente a irmã uruguaia Maria Cristina Giani completou 25 anos de vida religiosa. Há 12 anos no Brasil, dedica-se ao trabalho com jovens e pessoas com necessidades, tendo passado também, além do seu país de origem, pela Argentina e Roma. “Aqui tem sido minha experiência missionária mais rica, onde eu aprendi como pessoa, como consagrada, como mulher. É uma riqueza poder conhecer pessoas de diferentes lugares e a experiência com as pessoas mais carentes tem me enriquecido muito. Eu aprendi com eles a alegria da partilha, a esperança nas dificuldades, a gratuidade de ter todo o tempo do mundo para estar contigo”, afirma a irmã.

Entre 2005 e 2010, Cristina fez parte da equipe de Teologia Pública, do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, colaborando na criação dos serviços de espiritualidade, cursos EAD e Comentário do Evangelho no sitío.

A comemoração pela importante data na vida de Cristina Giani aconteceu no último dia 08 de dezembro, em que estavam reunidos os amigos da sua caminhada espiritual. “Eu sentia muito que queria agradecer a Deus e a tantas pessoas que ao longo desses anos fizeram possível que eu chegasse até aqui. Especialmente à minha família, porque a minha consagração foi privada e meus pais não estavam presentes. Queria muito agradecer a eles tudo que eu tenho recebido, a companhia deles ao longo destes anos, que para mim foi muito importante”, conta.

Irmã Cristina é membro da Comunidade de Missionárias de Cristo Ressuscitado, bacharel em Teologia, pelo Centro Universitário Unilasalle e concedeu entrevista à IHU On-Line, comentando um pouco sobre seus 25 anos de vida religiosa.

Eis a entrevista.

IHU On-Line – Por que decidiu ingressar na vida religiosa?

Cistina Giani – Eu pertenço a uma família cristã. Meus pais nunca me falaram diretamente de Deus, mas a vida deles sempre me ensinou muito do que era o amor, a solidariedade, o servir aos outros. E depois, aos poucos, na escola, quando eu comecei a catequese, iniciei uma vida de fé. Quando tinha 18 anos, através de uma amiga, eu vivenciei uma experiência de Deus que mudou minha vida e quis dedicar a Ele, a partir desse momento, toda a minha existência para poder partilhar com outros esse amor de Deus. E isso foi me cativando, me conquistando até eu decidir ser irmã. Eu sentia que queria que a minha vida fosse de Jesus, para Ele e para os outros. Aos 20 anos foi a minha consagração e a partir dali eu passei por diferentes lugares, por diferentes países, buscando sempre junto com as minhas irmãs e outras pessoas partilhar essa vida de Jesus e seu Evangelho, especialmente aos jovens e aos mais pobres.

IHU On-Line – Qual é sua trajetória na espiritualidade?

Cistina Giani – Desde que nós chegamos aqui no Brasil, mas mesmo em todas as nossas comunidades, temos essa dupla missão de querer poder nos aproximar e estar no meio do mundo dos jovens e também da realidade das pessoas mais necessitadas. Querendo fazer uma ponte de solidariedade, de intercâmbio, para poder criar, que esse é o nosso sonho, espaços onde as pessoas possam vivenciar e ser uma única família, filhos e filhas de Deus. Então, para mim, é uma das experiências mais bonitas poder fazer isso, junto com pessoas que tem outros saberes, que tiveram outras oportunidades. Partilhar a vida com quem tive essas condições e poder vivenciar essa troca de vida, de experiências, de saberes e de enriquecimento mútuo.

IHU On-Line – O que destaca nestes 25 anos?

Cistina Giani – Ao longo destes 25 anos, eu vivi momentos de muito sofrimento, de dificuldades, muitas coisas que a gente esperava que fosse de um jeito, mesmo na comunidade, e saia de outro. Projetos missioneiros que não deram certo, irmãs da comunidade que saíram, muitas coisas que me fizeram sofrer, que me fazem sofrer. Mas o que fica destes 25 anos é a presença de Deus na minha vida, na minha história e a certeza que eu caminho com Ele e Ele caminha comigo. E que vale a pena servir seu projeto, buscar, construir o Reino de Deus. Cinco ou seis anos atrás, morando aqui, nós acompanhamos uma família que a mãe estava doente, tinha AIDS, e tinha uma filha adolescente e dois filhos pequenos. Ela faleceu depois de quase três meses e então as crianças vieram aqui para a casa. Quando eu os levei de volta para a sua casa, senti muito a perda deles, porque eram pessoas que eu queria muito. Lembro que depois fui visitá-los e encontrei a filha mais velha, que tinha 16, 17 anos, limpando a casa, que era bem pequena, e os irmãos estavam ajudando fazendo o almoço. Eu pensei que teria que consolá-los, mas a força de vida que eu encontrei nela e em seus irmãos, para mim foi um sinal muito forte de ressurreição. Foi tudo muito marcante, uma experiência muito forte da força da vida e da força de Deus mesmo nas pessoas em situações de tanta dor e sofrimento. A vida é mais forte. E isso me dá força e esperança para continuar.

IHU On-Line – Como é fazer parte da coordenação da Associação Mundo + Limpo, grupo de geração de renda para mulheres, incubado pelo Tecnosociais?

Cistina Giani – Para mim é um desafio, uma luta que isso também aconteça, porque as mulheres vão mudando, porque o retorno econômico é pouco, mas é uma riqueza ver como elas vão se empoderando do seu próprio trabalho, do que elas são capazes de fazer, da autonomia frente aos seus companheiros. Então isso pra mim é mais gratificante do que todo o dinheiro do mundo. E para elas também. Mas o desafio é que possam chegar a serem pequenas empreendedoras. Então essa é a luta na qual a gente está, do cuidado com o meio ambiente, mas também de geração de renda.

Comemoração 25 anos. Fotos: Raquel Do Nascimento / Anne Ledur

Por Mariana Staudt

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