A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), evento criado por João Paulo II em 1985, reuniu, em sua 26ª edição, mais de dois milhões de jovens em Madrid, de 16 a 21 de agosto. Na ocasião, o Papa Bento XVI anunciou o Rio de Janeiro como próxima sede da JMJ, que ocorrerá de 23 a 28 de julho de 2013.

No intuito de compreender a importância da Jornada Mundial da Juventude atualmente, a IHU On-Line conversou com o coordenador do Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil, MS Moisés Sbardelotto, que já participou das JMJs de 2000, na Itália, e de 2002, no Canadá.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Qual a especificidade da Jornada Mundial da Juventude de Madrid em relação às anteriores em que tu participaste?

Moisés Sbardelotto – Eu participei das JMJs do ano 2000, o “ano jubilar”, em Roma, na Itália, e em 2002, em Toronto, no Canadá. Uma primeira especificidade partiria deste fato: participei de eventos que ocorreram há uma década, em que estavam reunidos os jovens do papado wojtyliano, que nasceram e cresceram sob João Paulo II. Por outro lado, como alguns apontaram, a JMJ de Madri é a primeira jornada realmente “ratzingeriana”, pois os jovens que dela participaram – pelo menos em sua grande maioria – trazem consigo, com mais força, a marca deste novo papado, em sua visão de Igreja, de mundo e também da fé.

Como eu não estive em Madri, posso apenas dizer que as JMJs em que eu participei tinham em seu centro um homem das multidões e extremamente midiático como João Paulo II, em um período em que a convergência das mídias recém engatinhava. Sinal disso é que as minhas poucas fotos dessas viagens, por exemplo, foram feitas em câmeras analógicas de filme de 35mm… e nada de YouTube, Twitter ou Facebook. Em Madri, ao contrário, o centro da concentração era um homem muito mais reservado e tímido, Bento XVI, mas rodeado por um aparato tecnológico e midiático impressionante de posse dos meios de comunicação, da própria Igreja e dos milhões de jovens reunidos. O resultado simbólico e midiático, portanto, foi de um alcance e de proporções muito maiores.

Outra particularidade evidente é a coincidência histórica de dois movimentos juvenis na mesma cidade – a JMJ e os indignados -, de vertentes e características tão contrastantes. Diferentemente das primaveras árabes, dos anonymous e dos indignados, as JMJs nasceram e se organizam por vontade papal, e não a partir dos próprios jovens. O papa convoca, os jovens correspondem. Não há autonomia, responsabilidade e audácia tão marcantes como na proposta dos “indignados”. Em suma, não há indignação contra nada: ao contrário, há obediência e veneração ao Sucessor de Pedro.

IHU On-Line – Qual o sentido de fazer este tipo de evento considerando o trânsito religioso contemporâneo?

Moisés Sbardelotto – Sem dúvida, é um evento que reafirma uma identidade: são jovens, católicos e fiéis ao papa (mesmo que cada uma dessas definições sejam bastante fluidas e maleáveis em um ambiente multitudinário e pluricultural como a JMJ). Uma espécie de “parada do orgulho católico”, como afirmou ironicamente o jornal El País.

Por isso, me parece que o sentido mais relevante é o de reafirmar que a Igreja institucional ainda tem “força viva”. A grande massa de jovens católicos reunidos é o fôlego de uma instituição que cada vez mais se dá conta da sua “falta de ar”, ofegante entre a velocidade das mudanças e dos processos sociais e o peso de uma estrutura que não lhe permite avançar no mesmo ritmo. Mas, em vez de mudar a estrutura, refugia-se na demonstração de grandiosidade das massas que aplaudem, gritam e se entusiasmam porque “viram o papa de perto”.

É uma pena que o sentido da JMJ se resuma aos seus excessos: midiáticos, financeiros, papistas, eclesiais, comerciais (o cálculo final computa quase 220 milhões de dólares arrecadados pelo setor comercial da cidade de Madri nos dias do evento). A questão central é justamente toda essa construção simbólica de grandiosidade e de quase megalomania da Igreja institucional, que se interpõe no sentido mais bonito do evento, que é o do encontro “católico” (universal), no sentido mais profundo, que exigiria muito menos estruturas e investimentos de todos os tipos. No fim, em vez de ser a memória de uma grande ceia e partilha entre jovens na presença de Jesus, trata-se de um Woodstock (ou Lollapalooza, na versão do século XXI) na presença do papa.

Mas também há pontos positivos, já que as JMJs são um evento único em suas dimensões materiais e simbólicas. Dificilmente encontraremos uma concentração tão numerosa em nome de qualquer outra causa/pessoa. Mas quem reúne esses jovens? O papa? A instituição Igreja? A boa nova do Evangelho? Jesus? Não é fácil encontrar uma resposta unívoca, mas o fato é surpreendente e inegável – quase 2 milhões de jovens de todo o mundo se reuniram em Madri. E isso tem a sua força: quem poderá questionar o que acontece no fundo dos corações e das mentes dos jovens que realmente participam em “busca de Deus” e de sentido para a vida e para a realidade que os cerca? Não seria essa – se sinceramente correspondida – uma força capaz de “mudar o mundo”?

Também é bom diferenciar entre a jornada oficial propriamente dita (especialmente a vigília do sábado para o domingo e a missa dominical) e a pré-jornada que ocorre nos dias anteriores, em um formato descentralizado, em encontros espalhados em todas as dioceses do país-sede. Esses contatos mais localizados e essas trocas de experiência mais diretas em cidades pequenas, na convivência das casas de família, sem envolver grandes estruturas de organização e de divulgação, assim como os diversos eventos culturais e religiosos que os compõem, organizados pelos próprios jovens e por seus grupos, são, talvez, a manifestação mais profunda e duradoura da proposta das JMJs: o encontro dos jovens entre si, com os “outros”, e com Deus. Um encontro das diferentes culturas e realidades mundiais em um universo de “catolicismos” – sem uma centralização tão forte. Em um mundo que se diz globalizado, esse diálogo quase babélico de jovens poderia ser o estímulo a um “pentecostes” de novidades positivas para o futuro da Igreja e do mundo. Essa é a esperança.

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A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), evento criado por João Paulo II em 1985, reuniu, em sua 26ª edição, mais de dois milhões de jovens em Madrid, de 16 a 21 de agosto. Na ocasião, o Papa Bento XVI anunciou o Rio de Janeiro como próxima sede da JMJ, que ocorrerá de 23 a 28 de julho de 2013.

No intuito de compreender a importância da Jornada Mundial da Juventude atualmente, a IHU On-Line conversou com o coordenador do Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil, MS Moisés Sbardelotto, que já participou das JMJs de 2000, na Itália, e de 2002, no Canadá.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Qual a especificidade da Jornada Mundial da Juventude de Madrid em relação às anteriores em que tu participaste?

Moisés Sbardelotto – Eu participei das JMJs do ano 2000, o “ano jubilar”, em Roma, na Itália, e em 2002, em Toronto, no Canadá. Uma primeira especificidade partiria deste fato: participei de eventos que ocorreram há uma década, em que estavam reunidos os jovens do papado wojtyliano, que nasceram e cresceram sob João Paulo II. Por outro lado, como alguns apontaram, a JMJ de Madri é a primeira jornada realmente “ratzingeriana”, pois os jovens que dela participaram – pelo menos em sua grande maioria – trazem consigo, com mais força, a marca deste novo papado, em sua visão de Igreja, de mundo e também da fé.

Como eu não estive em Madri, posso apenas dizer que as JMJs em que eu participei tinham em seu centro um homem das multidões e extremamente midiático como João Paulo II, em um período em que a convergência das mídias recém engatinhava. Sinal disso é que as minhas poucas fotos dessas viagens, por exemplo, foram feitas em câmeras analógicas de filme de 35mm… e nada de YouTube, Twitter ou Facebook. Em Madri, ao contrário, o centro da concentração era um homem muito mais reservado e tímido, Bento XVI, mas rodeado por um aparato tecnológico e midiático impressionante de posse dos meios de comunicação, da própria Igreja e dos milhões de jovens reunidos. O resultado simbólico e midiático, portanto, foi de um alcance e de proporções muito maiores.

Outra particularidade evidente é a coincidência histórica de dois movimentos juvenis na mesma cidade – a JMJ e os indignados -, de vertentes e características tão contrastantes. Diferentemente das primaveras árabes, dos anonymous e dos indignados, as JMJs nasceram e se organizam por vontade papal, e não a partir dos próprios jovens. O papa convoca, os jovens correspondem. Não há autonomia, responsabilidade e audácia tão marcantes como na proposta dos “indignados”. Em suma, não há indignação contra nada: ao contrário, há obediência e veneração ao Sucessor de Pedro.

IHU On-Line – Qual o sentido de fazer este tipo de evento considerando o trânsito religioso contemporâneo?

Moisés Sbardelotto – Sem dúvida, é um evento que reafirma uma identidade: são jovens, católicos e fiéis ao papa (mesmo que cada uma dessas definições sejam bastante fluidas e maleáveis em um ambiente multitudinário e pluricultural como a JMJ). Uma espécie de “parada do orgulho católico”, como afirmou ironicamente o jornal El País.

Por isso, me parece que o sentido mais relevante é o de reafirmar que a Igreja institucional ainda tem “força viva”. A grande massa de jovens católicos reunidos é o fôlego de uma instituição que cada vez mais se dá conta da sua “falta de ar”, ofegante entre a velocidade das mudanças e dos processos sociais e o peso de uma estrutura que não lhe permite avançar no mesmo ritmo. Mas, em vez de mudar a estrutura, refugia-se na demonstração de grandiosidade das massas que aplaudem, gritam e se entusiasmam porque “viram o papa de perto”.

É uma pena que o sentido da JMJ se resuma aos seus excessos: midiáticos, financeiros, papistas, eclesiais, comerciais (o cálculo final computa quase 220 milhões de dólares arrecadados pelo setor comercial da cidade de Madri nos dias do evento). A questão central é justamente toda essa construção simbólica de grandiosidade e de quase megalomania da Igreja institucional, que se interpõe no sentido mais bonito do evento, que é o do encontro “católico” (universal), no sentido mais profundo, que exigiria muito menos estruturas e investimentos de todos os tipos. No fim, em vez de ser a memória de uma grande ceia e partilha entre jovens na presença de Jesus, trata-se de um Woodstock (ou Lollapalooza, na versão do século XXI) na presença do papa.

Mas também há pontos positivos, já que as JMJs são um evento único em suas dimensões materiais e simbólicas. Dificilmente encontraremos uma concentração tão numerosa em nome de qualquer outra causa/pessoa. Mas quem reúne esses jovens? O papa? A instituição Igreja? A boa nova do Evangelho? Jesus? Não é fácil encontrar uma resposta unívoca, mas o fato é surpreendente e inegável – quase 2 milhões de jovens de todo o mundo se reuniram em Madri. E isso tem a sua força: quem poderá questionar o que acontece no fundo dos corações e das mentes dos jovens que realmente participam em “busca de Deus” e de sentido para a vida e para a realidade que os cerca? Não seria essa – se sinceramente correspondida – uma força capaz de “mudar o mundo”?

Também é bom diferenciar entre a jornada oficial propriamente dita (especialmente a vigília do sábado para o domingo e a missa dominical) e a pré-jornada que ocorre nos dias anteriores, em um formato descentralizado, em encontros espalhados em todas as dioceses do país-sede. Esses contatos mais localizados e essas trocas de experiência mais diretas em cidades pequenas, na convivência das casas de família, sem envolver grandes estruturas de organização e de divulgação, assim como os diversos eventos culturais e religiosos que os compõem, organizados pelos próprios jovens e por seus grupos, são, talvez, a manifestação mais profunda e duradoura da proposta das JMJs: o encontro dos jovens entre si, com os “outros”, e com Deus. Um encontro das diferentes culturas e realidades mundiais em um universo de “catolicismos” – sem uma centralização tão forte. Em um mundo que se diz globalizado, esse diálogo quase babélico de jovens poderia ser o estímulo a um “pentecostes” de novidades positivas para o futuro da Igreja e do mundo. Essa é a esperança.

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