“A resiliência, entendida como a capacidade de superar as situações adversas, é um esforço do ser humano de todos os tempos”, diz a Professora Doutora Susana María Rocca Larrosa, uma das coordenadoras do programa de Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, e palestrante do IHU Ideias dessa semana.
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A palestra “Resiliência: o papel da espiritualidade e dos fatores de proteção na juventude” ocorre nessa quinta-feira (31), das 17h30 às 19h, na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU.  Em entrevista para a IHU On-Line, Susana conta os detalhes do evento.
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Confira a entrevista com Susana Rocca (foto), sobre o tema que será abordado na palestra.
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O que tu estás preparando para o evento?
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Foto: Luana Taís Nyland

Susana – A discussão pretende abordar alguns pontos da minha pesquisa de Doutorado intitulada: “As contribuições da espiritualidade e da Pastoral católicas no desenvolvimento da resiliência, em jovens de 18 a 29 anos”.
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O que tu pretendes discutir? Quais são os pontos fundamentais do debate?
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Susana – O estudo está baseado, em primeiro lugar, na perspectiva psicológica da resiliência, entendendo-a como o processo comportamental ou psíquico de superação de situações adversas e traumáticas. Baseada em estudos da Sociologia da Religião, pontuarei algumas características da espiritualidade contemporânea. E, aprofundando em publicações atuais sobre Pastoral Juvenil (latino-americanos, do Brasil, da França), discutiremos se a espiritualidade e a contribuição da Igreja são significativas ou não para que o jovem supere situações adversas ou traumáticas, no contexto atual. Além dos principais tópicos da pesquisa bibliográfica, apresentarei os resultados de uma pesquisa social quantitativa que conclui em 2010, na qual participaram 13 jovens, de 21 a 29 anos de idade, católicos, com alta resiliência, residentes em São Leopoldo/RS. A maioria passou por uma constelação de fatores de risco e traumáticos significativos. A investigação mostra que as condições adversas e as situações traumáticas não determinam necessariamente um destino negativo. Por outro lado, reafirma-se que para superar situações traumáticas é preciso algumas condições do entorno, pois a resiliência se tece na interação do contexto social e das aptidões, das competências, das características e das posturas pessoais. Concluirei apresentando os “fatores de proteção” (externos) e os “pilares de resiliência” (internos, próprios do jovem) que podem ser fomentados para promover a resiliência de pessoas ou grupos, tendo em conta especialmente o contexto brasileiro.
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Qual a importância de se debater este assunto?
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Susana – Considerando que estamos numa época de mudança de paradigmas e de valores, e num contexto latino-americano onde há diversas situações adversas que afetam de forma especial à juventude, precisa-se entender os novos desafios e descobrir as possibilidades e as perspectivas que as instituições (religiosas ou outras) têm para contribuir na promoção da resiliência. Esta contribuição abrange tanto o trabalho de prevenção, potencializando os recursos para promover a resiliência, quanto à superação de situações adversas ou traumáticas já existentes. Tendo investigado uma ampla literatura em língua francesa, espanhola e portuguesa, creio interessante analisar e discutir como concretamente a resiliência dos jovens pode ser promovida através do trabalho das comunidades e das instituições, e através da presença e das atitudes de integrantes dos determinados grupos organizados.
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Como surgiu este tema?
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Susana – A escolha da temática está profundamente ligada a minha trajetória pessoal. Sempre me perguntei como ajudar às pessoas a superar os sofrimentos. Sendo nova, me formei como psicóloga e consagrei minha vida numa comunidade missionária católica. Dediquei mais de 25 anos ao acompanhamento de jovens e adultos, tendo morado em quatro países (Uruguai, Argentina, Brasil, França). O contato com a diversidade de culturas, de ambientes, e de mentalidades, me levou a me aproximar de diferentes experiências de sofrimento, assim como das tentativas das pessoas e das instituições para superá-las. O contexto atual de grandes mudanças desafiou-me ainda mais. Como contribuir com as instituições, as associações, os ambientes de formação e com os próprios jovens para ajudá-los a serem mais capazes de resolver os conflitos, superar as adversidades e se reconstruírem positivamente depois das dificuldades e situações traumáticas? O interesse de encarar uma pesquisa de Mestrado e Doutorado nasceu desta exigência de atualização nos conhecimentos acadêmicos e de aprofundamento na prática pastoral. A ideia de pesquisar resiliência surgiu em 2004, ao tomar contato com algumas obras sobre “resiliência” de Boris Cyrulnik (psicanalista, neurologista, psiquiatra e etólogo francês); de Stefan Vanistendael, (do BICE-Bureau International Catholique pour l’Enfance); e das publicações do CIER (Centro Internacional de Información y Estudios de Resiliencia, da Universidad de Lanús, na Argentina).
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Algum outro destaque importante?
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Susana – Na pesquisa de campo há dados interessantes. Situada num contexto de novos paradigmas, as características da espiritualidade juvenil também suscitam novos desafios. Por exemplo: os jovens se autodefinem como católicos e salientam que a ajuda de Deus e da família é essencial para poderem superar situações adversas e traumáticas. Porém, a maioria dos entrevistados não têm prática institucional coletiva na Igreja Católica nem mencionam como significativas nem autoridades, nem lideranças católicas, e sim alguns grupos de Igreja. A oração pessoal, espontânea, nas suas casas é uma prática privilegiada e freqüente, sendo a dimensão pessoal, subjetiva e emocional, um traço característico da sua espiritualidade. O que significam estes dados para as pessoas e as instituições que trabalham em favor da juventude, especialmente aqueles jovens expostos a maiores situações de risco? São desafios que merecem ser debatidos.
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Confira também a edição 241 da revista IHU On-Line, “Resiliência. Elo e sentido”.

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