Memórias da Legalidade

Em agosto 25, 2011 Comentar

Há exatos 50 anos, Leonel Brizola dava início à única mobilização popular da história do Brasil que evitou um golpe militar, a Campanha da Legalidade.

Difundida pelo rádio, este foi um episódio importante na história da democracia brasileira. Contudo, passadas cinco décadas, o movimento que garantiu a Jango assumir a Presidência da República após a renúncia de Jânio Quadros, permanece negligenciado na sua relevância história, sendo pouco conhecido pelas gerações posteriores.

E aqueles que vivenciaram esse período, recordam do que faziam quando declarada a renúncia de Jânio? Lembram de como reagiram ao início da Campanha da Legalidade?

Para descobrir recordações ainda existentes deste episódio, a IHU On-Line conversou com Lúcio I. Regner (engenheiro civil e professor aposentado do Instituto de Matemática da UFRGS) e Sólon Viola (professor de História da Educação e de Direitos Humanos e Democracia na América Latina na Unisinos).

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Que atividade desenvolvia e onde você estava no dia em que Brizola deu início a Campanha da Legalidade?

Solon Viola – Quando ocorreu a Campanha da Legalidade eu tinha 13 anos e morava em Garibaldi, uma pequena cidade de colonização italiana. Minha atividade era a de um adolescente estudante, tinha pequenas tarefas a fazer em casa, como todas as crianças da época. Meu contato com a Campanha da Legalidade se fazia pelo rádio de casa, quando meus familiares ouviam o que acontecia em Porto Alegre e acompanhavam os acontecimentos num ambiente de bastante tensão.

Lúcio I. Regner – Era aluno do 3º. Ano do Curso de Engenharia Civil da UFRGS e funcionário do Departamento Aeroviário do Estado, trabalhando na extensão do Aeroporto Salgado Filho (pista de pouso) e outras obras aeroviárias. No momento em que foi deflagrada a Campanha, encontrava-me na Escola de Engenharia.

IHU On-Line – Como reagiu à Campanha da Legalidade?

Solon Viola – Lembro que, na época, o meu irmão mais velho já estudava em Porto Alegre e na minha casa havia uma preocupação muito grande com a sua vida, especialmente por parte da minha mãe. Ele era estudante do Rosário e se preparava para o vestibular. Na minha casa se comentava da inquietude política pela qual passava o país. Não posso afirmar com certeza se a época era essa, mas claramente havia uma expectativa para que as iniciativas do Brizola resultassem em êxito e que os golpistas então não conseguissem tomar o poder.

Lúcio I. Regner – Como cidadão e como engenheirando e funcionário do governo de Leonel Brizola, engajado no movimento e solidário com a Campanha.

IHU On-Line – Quais suas impressões daquele momento e do então governador Brizola?

Solon Viola – Essas lembranças não são claras em 1961, são mais claras em 1964. As apreensões vinham pelo rádio, vinham na forma de envolvimento na tentativa de preservação da legalidade em 1964. Mas em 1961 não, minha memória não ajuda muito, ajuda na conversa que se tinha em casa lembrando as passagens tão intensas da história brasileira e como estas repercutiam. Mas minha lembrança é da vida cotidiana, da casa, das inquietudes presentes em casa, do meu pai trazendo os informes do seu lugar de trabalho, das conversas de lá, então essas são as lembranças e, logicamente, o fato de que a família ficava presa a cadeia da legalidade, ouvindo o Brizola, ouvindo os discursos, sempre muito intranquilos.

Lúcio I. Regner – Brizola era um nacionalista autêntico e homem preocupado com a educação (6.200 escolas construídas), com as coisas do Estado e do Brasil. Entre outras, encampou a ITT e criou a CRT, bem como encampou a Bond & Share e criou a CEE.

IHU On-Line – Como recebeu a notícia de que Jânio Quadros havia renunciado?

Solon Viola – As lembranças não são claras, é o mesmo quadro. O quadro da Campanha da Legalidade ocorre exatamente na luta do Brizola para manter os espaços constitucionais no país, garantir o posicionamento da Constituição, exigir que o país permanecesse dentro das normas da democracia, o que era uma experiência ainda muito recente na história do Brasil naquele momento.

Lúcio I. Regner – Com muita preocupação.  Dada a renúncia de Jânio, João Goulart, vice-presidente, deveria ocupar a presidência. Jango, porém, estava ausente, em visita à China. A ‘direita’ brasileira e interesses externos contrários à política de Jango não queriam sua posse. A preocupação de que houvesse um golpe era eminente.

IHU On-Line – Qual sua expectativa em relação ao Brasil a partir daquele momento?

Solon Viola – Lembro disso com uma certa expectativa que foi me acompanhando ao longo da vida. Havia uma empolgação pelo Brasil, uma certa alegria de vida, uma preocupação das pessoas de que a sociedade brasileira enfim conseguisse superar sua dificuldades sociais, aquele medo de se tornar uma nação. Havia essa expectativa e, de certa maneira, empolgava a vida da minha casa e eu acredito que empolgasse também meu início de adolescência.

Lúcio I. Regner – A de que seria questão de dias ou meses a dominação norte-americana no Brasil, com graves conseqüências para a autodeterminação do país e sua normalidade democrática.

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