Por ocasião da inauguração da Sala Ignacio Ellacuría e companheiros, no dia 10-12-2009, recebemos a seguinte mensagem:

Sr. Diretor do IHU:

Gostaria de aplaudir a iniciativa de homenagear o ex-reitor Ignacio Ellacuria e seus companheiros da Universidade jesuíta de El Salvador, assassinados (silenciados) pelas forças da tirania e da opressão há vinte anos. Recordo que na Universidade de Deusto, também jesuíta, das legendárias terras bascas, de onde procedem, além do ex-reitor
homenageado, ninguém menos que o próprio fundador da grande Companhia, sem esquecer Pedro Arrupe, instituiu há poucos anos o “Premio Ignacio Ellacuria de mejor tesis doctoral“, galardão que aquela Universidade confere à melhor tese de doutorado do ano, prêmio ao qual tive a honra de concorrer.

Guardo muitas lembranças da minha permanência naquela Universidade. Em meio às reflexões sobre direitos humanos, convivência realmente humana entre os homens e dignidade humana – princípio que em nossa Constituição está inscrito como fundamento da República –, lembro de ter assistido uma palestra de Jon Sobrino, companheiro de Ellacuria, na qual ele descrevia uma especial faceta do homenageado: o profundo respeito pelo outro, principalmente pelos excluídos. Relatava strong>Sobrino que nos eventos que anualmente realizavam na Universidade de El Salvador em homenagem a Ellacuria e seus companheiros assassinados, sempre comparecia uma humilde senhora, ex-funcionária da Universidade.

Instada a manifestar-se sobre o que admirava em Ellacuria, ela teria dito que, em certa ocasião de crise da Universidade, encontrando-se reunidas diversas pessoas ao redor do reitor discutindo alternativas para a crise, ele havia se dirigido a ela e lhe perguntado: e a senhora, o que acha? Disse que havia sido a primeira vez que alguém se havia dirigido assim a ela e se interessado em ouvir-lhe a opinião!

Convidar alguém a emitir seu juízo sobre determinado assunto que o afeta, e levá-lo em consideração, para acatar ou redarguir, é a forma de tratá-lo digna e humanamente, como muito bem se aperceberam os idealizadores e cultivadores da ética discursiva. Que tal disseminar aquela pergunta: o que você acha? Os pais para os filhos, os professores para os alunos, os vizinhos entre si, os gestores, públicos ou privados, para os seus subordinados, os governantes para os governados, os políticos para os cidadãos, etc. É transformar pessoas de objetos em sujeitos. É tornar as pessoas partícipes da comunidade da palavra, que é o que temos os seres humanos de mais característico. Quanta diferença das cotidianas ações de silenciar as pessoas, que vão desde a forma brutal do assassinato às formas mais sutis: a fraude, o engano, a mentira, as formas tecnicistas e estratégicas de gestão que visam somente a eficiência econômica, etc.

Com estima e consideração,

José Alcides Renner

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