Quem acompanha com freqüência o sitio do IHU percebe que o tema acerca da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte é recorrente. Ele ocupa importante espaço nas Notícias do Dia e foi alvo de várias entrevistas publicadas no espaço Entrevista do Dia.

Alguém pode se perguntar: Por que insistir tanto nesse tema? Belo Monte é relevante porque reúne elementos da área econômica, social e ambiental. É a maior obra do PAC, envolve interesses de grandes grupos econômicos (empreiteiras, bancos e fundos de pensão); relaciona-se diretamente com o urgente tema da ecologia – a obra destruirá parte da natureza intocável e de rara beleza e afetará o ecossistema na região), e atingirá povos ribeirinhos e populações indígenas, obrigando-os ao deslocamento.

Porém, mais do que tudo isso, Belo Monte é importante porque revela determinada concepção de desenvolvimento. A grande questão posta hoje é que tipo de crescimento econômico queremos? A voracidade por energia está associada aos padrões sempre crescentes de produção e consumo. O mundo necessita sempre mais de petróleo, carvão, gás, eletricidade, energia nuclear e agora biocombustíveis. A nossa civilização centrada no petróleo, e podem-se acrescentar aqui as megas hidrelétricas e usinas nucleares, não se justificam mais, são tributárias de uma sociedade que está ficando para trás.

A humanidade está passando da era do petróleo para uma era em que a produção de energia se dará em escala descentralizada e com impactos menores sobre o ambiente. A nova economia tendo como paradigma a Revolução Informacional está deixando para trás a Revolução Industrial. “Belo Monte não agrega novas tecnologias, não embica o país para o futuro. É uma obra de cimento e aço, típica do século que passou”, afirma Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace no Brasil.

Esse é o erro de uma obra como Belo Monte. O Brasil em vez de assumir a vanguarda no processo de descarbonização da economia – considerando-se sua fantástica biodiversidade –, investe em matrizes superadas, grandes hidrelétricas como as do Rio Madeira e de Belo Monte. Essas grandes obras implicam em grandes inundações de terras, em significativos deslocamentos de pessoas e em devastação ambiental gigantesca e sucessivos apagões. O futuro das novas matrizes energéticas está na descentralização, em que a energia consumida será diretamente produzida no local de produção, reduzindo a concentração em mega centrais energéticas.

Há ainda outro problema manifestada pelo gigantismo de Belo Monte. Por muito tempo, inclusive na esquerda, acreditou-se que o crescimento econômico seria a varinha de condão para a resolução de todos os problemas. Particularmente da pobreza. A equação é conhecida. O crescimento econômico produziria um círculo virtuoso: produção-emprego-consumo. Porém, o axioma de que apenas o crescimento econômico torna possível a justiça social não é verdadeiro. Será que o grande projeto brasileiro é transformar todos cidadãos em consumidores.

É preciso complexificar o debate. O debate sugerido, a partir do princípio da ‘ecologia da ação’ recomenda que devemos construir uma sociedade que seja sustentável com a natureza, às necessidades humanas presentes e futuras, com uma ética solidária, definidas desde os setores populares, tendo como fim a construção de uma sociedade baseada em valores da solidariedade, liberdade, democracia, justiça e equidade.

Postado por Cesar Sanson

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