Por André Dick

          Virna Teixeira, poeta e tradutora, nasceu em 1971, em Fortaleza (CE). Desde o ano 2000, está radicada em São Paulo, onde trabalha como neurologista. Publicou os livros, com poemas próprios, Visita (2000) e Distância (2005), ambos pela 7Letras do Rio de Janeiro. Também organizou as edições Na estação central (Brasília: EdUnB, 2006), com traduções de Edwin Morgan, e Ovelha negra – uma antologia de poesia da Escócia do século XX (São Paulo: Lumme, 2007).
          Em sua poesia, como já dito na estreia da editoria Invenção, Virna lança um olhar microscópico sobre pequenos detalhes do cotidiano, sobre a ausência cotidiana e sobre viagens, revelando o corpo em movimento (de fuga ou de encontro), acompanhado ou solitário. Não por acaso, seu novo livro se chama Trânsitos (no prelo da Lumme Editor). Mesmo tratando algumas vezes de locais específicos, seus poemas podem ser vistos não como flashes fotográficos ou como postais, mas como uma significação do sentimento contemporâneo de procura. Uma procura, sobretudo, por aquilo que está deslocado: “pequeno, o / frágil / corpo / soluça / / vermelha, / a flor / entre os / dedos”, como ela escreve no poema “Calçada”, de Distância. Desse modo, é comum que seus poemas falem de deslocamentos, da insegurança do sujeito no mundo, sua solidão. Observa, para demonstrar isso, sobretudo os espaços que cercam esse sujeito: o quarto, a casa, a rua, a cidade, as paisagens que cercam essa cidade, a caminhada diária de pessoas, o comportamento humano em geral. Como afirmou em entrevista à IHU On-Line, “O mundo contemporâneo é povoado, excessivo. Há muita pressa. Os deslocamentos são rápidos, as aproximações são instantâneas, mas superficiais, há a pressão da mídia e da publicidade em toda parte. O espaço sonoro é cada vez mais reduzido. Há muito barulho, muito estímulo, muita competitividade e, paradoxalmente, muita incomunicabilidade e solidão. A forma utilizada para lidar com esta angústia contemporânea é a compulsão, o consumo, o imediatismo. É preciso tempo e coragem para processar esta procura individual, o que requer um movimento interno, uma depuração deste excesso. É preciso um pouco de privacidade, de distância para compreendê-la”.
          No campo poético e cultural, Virna estabelece um diálogo sobretudo com a poesia de língua inglesa, com nomes como Robert Creeley, William Carlos Williams e Sylvia Plath, e com as artes plásticas, realizando poemas baseados em obras de artistas como a mexicana Frida Kahlo e o cearense Leonilson. Vejamos, por exemplo, o poema “Quadro”:

           de mãos dadas, as duas Fridas
           no cordão que une

           máscaras

           usa também a de coração
           ferido

          contraste de cores, simbióticas
          dos vestidos –vitoriano
          tehuano

          ambíguos, mestizos

          o sangue supre a mais fraca
          – aorta –  
          na pulsação do céu,

          sombrio
         

          Ele dialoga diretamente com o quadro de Frida:

           

          Virna reproduz em versos alguns detalhes, como o cordão que as une, as máscaras, o coração ferido. Visualiza em seguida o contraste de cores, dos vestidos, o sangue de uma que supre a outra, o céu por trás, sombrio. Como afirma na entrevista à IHU On-Line, “Meu contato com artes plásticas ocorreu muito cedo, assim como o contato com a poesia, por causa da minha mãe, que já foi até monitora de museu e hoje tem se dedicado de forma mais integral ao seu trabalho como artista. Quando criança, frequentei aulas particulares de desenho, pintura, argila etc. Mais tarde, o contato com alguns amigos, como o escultor Eduardo Frota,  foi importante para ampliar o conhecimento, sobretudo de arte contemporânea. Meu interesse por poesia e pelas artes plásticas é constante, cotidiano, então é natural que ocorra um diálogo na escrita. A forma de escrever, de criar, pode se aproximar de alguns processos utilizados nas artes – o esboço do desenho, uma maquete, a pintura, o impacto visual da fotografia”.

          Poesia com tons científicos

          Em alguns poemas, Virna utiliza um vocabulário com termos científicos, utilizando a simultaneidade de imagens. Sua formação ajuda também a explicar isso, Virna é graduada em Medicina em 1994, pela Universidade Federal do Ceará, com residência em Neurologia na Universidade de São Paulo, e especialista na área de Dependência Química, pela Escola Paulista de Medicina. Cursou um mestrado em Medicina do Sono na Universidade de Edimburgo, na Escócia, entre 2001 e 2003, e iniciou em 2008 um doutorado na Faculdade de Letras da USP, sobre o tema Literatura e Drogas. Veja-se o poema “32° Fahrenheit”

          Patinando no gelo fino, pirueta. Rachadura. Cai numa piscina vazia

          It’s so cold in Alaska

          Uma gruta azul. Descongelamento. O coração ainda. Batia

          após o acidente. O trauma, condensado

          Frostbite, hipotermia

          A pele descolore. Inconsciência

          O diâmetro das pupilas, resgate

          Prestar os primeiros socorros

          Desfibrilador, arritmia. Aquecer

          com cobertores

         cuidados, after-burns

         O sujeito, na poesia de Virna, está sempre em mudança: seja diante de um cenário contemplativo, seja diante do choque, da surpresa diante de uma realidade que às vezes está prestes a se autodestruir:

          & ter que consolar o luto, afogar a mágoa em recuo
          subir outra vez a mesma ponte
          recomeçar no mesmo ponto
          após os destroços 
 
          A antologia Ovelha negra, em que Virna reúne poetas escoceses, de modo geral, é o auto-retrato da autora/tradutora: uma poesia elaborada, vazada em flashes fotográficos, com referências ao coloquialismo (sem permanecer nos parâmetros, um tanto desgastados, dos que fazem poemas nesse sentido lembrando Manuel Bandeira ou Oswald de Andrade), conhecimento cultural, com referências a lugares, a países, tentando concentrar o máximo no mínimo – sem rotular este trabalho de “minimalista”, que empobrece sua recepção –, todos esses elementos em conjunto com um sentido incômodo de desgaste, de deslocamento, solidão e melancolia numa dose justa, sem aspirar a um tom elevado. Nesses poemas, as mudanças de verso são como mudanças de estações; passa-se do frio para um resquício de sol (mesmo que ainda no inverno), da conversa para o silêncio; de imagens rurais para imagens urbanas, marcando uma espécie de confronto poético mediado pela observação de flores – que trazem um pouco de aroma e colorido a um mundo sombrio, cinzento, apagado, em que o amor é sempre intermediado por meios de cultura. E se caminha: se caminha muito – para algum lugar ou para lugar algum. A tentativa de permanecer acontece em vão – pois todos esses poetas estão sempre de partida, seja para o mundo, seja para a própria casa. Trata-se de um deslocamento que remete a uma tentativa de alcançar a tranquilidade, num mundo em constante movimento. Como diz Hamilton Finlay, em “Poeta”: “À noite, quando o sono não chega, / Eu conto as ilhas / E suspiro quando venho a Rousay – / Minha querida ovelha negra”. Para Virna, “traduzir é estar em contato íntimo com outra língua e com a técnica de escrita e este aprendizado é muito interessante. As escolhas têm relação também com qualidades subjetivas, particulares em cada caso. (…) Ou seja, as escolhas são individuais e multifacetadas. Acho interessante selecionar poetas que são de certa forma inéditos, pouco conhecidos, porque há lacunas ainda muito grandes de tradução de poesia (do inglês e outras línguas) para o português. O interesse do público, felizmente, tem crescido”. A poesia de Virna, ao mesmo tempo, tem despertado interesse, justamente em razão dessa reinterpretação do mundo moderno que ela apresenta por meio de sua poesia e dos seus versos.

3 Respostas

  1. marilia disse:

    Olá, André,

    Virna tem uma poesia antenada com as tendências de vanguardas contemporâneos. Sua leitura é hábil e precisa.
    Gostaria de enviar o meu livro “Selva de Sentidos”.
    um abraço,

  2. Olá, um ensaio muito coeso, desses que infelizmente são raros, sobretudo sobre a poesia contemporânea atualíssima. Um trabalho muito bonito de se ver e ler! Abraços!

  3. […] Teixeira e o deslocamento poético, uma análise no blog da Unisinos por André […]

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