Por André Dick

          Antonio Candido, num ensaio muito interessante, “Inquietudes na poesia de Drummond” (do volume Vários escritos), escreve que na obra do mineiro há uma “constante invasão de elementos subjetivos, e seria mesmo possível dizer que toda a sua parte mais significativa depende das metamorfoses ou das projeções em vários rumos de uma subjetividade tirânica, não importa saber até que ponto autobiográfica. Tirânica e patética, pois cada grão de egocentrismo é comprado pelo poeta com uma taxa de remorso e incerteza que o leva a querer escapar do eu, sentir e conhecer o outro, situar-se no mundo, a fim de aplacar as vertigens interiores. […] Trata-se de um problema de identidade ou de identificação do ser, de que decorre o movimento criador da sua obra na fase apontada, dando-lhe um peso de inquietude que a faz oscilar entre o eu, o mundo e a arte, sempre descontente e contrafeita” (Grifos meus). Nesta consideração, temos todos os elementos que caracterizam a proposta teórico-crítica de Candido: a busca do equilíbrio entre o eu, o mundo e a arte, em que o “egocentrismo” é visto como algo a ser combatido pela “taxa de remorso” que leva ao Outro. Candido afirma ainda, ainda, que o “eu” em Drummond “é uma espécie de pecado poético inevitável, em que precisa incorrer para criar, mas que o horroriza à medida que o atrai. O constrangimento (que só poderia tê-lo encurralado no silêncio) só é vencido pela necessidade de tentar a expressão libertadora, através da matéria indesejada”. Ou seja, Drummond se horrorizaria em relação à sua própria personalidade, à medida que é atraído pelo eu, o que lhe traria um “constrangimento”, que só pode ser vencido pela “expressão libertadora”. Sobre o passado, que persegue Drummond, como a qualquer melancólico, que não consegue se desprender dele, Candido ainda escreve: “O passado, trazido pela memória afetiva, oferece farrapos de seres contidos virtualmente no eu inicial, que se tornou, dentre tantos outros possíveis, apenas o eu insatisfatório que é. Ora, o passado é algo ambíguo, sendo ao mesmo tempo a vida que se consumou (impedindo outras formas de vida) e o conhecimento da vida, que permite pensar outra vida mais plena. É portanto com os fragmentos proporcionados pela memória que se torna possível construir uma visão coesa […] dando impressão de uma realidade mais plena”. O eu insatisfatório, neste caso, traz os farrapos de seres contidos no eu inicial, em busca de uma “realidade mais plena”, resultado de “fragmentos proporcionados pela memória”.

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          Embora Candido insista na ideia de que essa representação do poeta quer abarcar uma visão social, daí ele se considerar um gauche, isso não é verdade, pois, como um melancólico moderno, Drummond é bastante individualista – como ele mesmo escreve – e sua função social – pelo menos antes de sua passagem para o cronismo poético – é basicamente negar o mundo que aí está e não tentar salvá-lo ou representá-lo. Desse modo, ele não conta a História como ela verdadeiramente seria, como se seguisse o propósito aristotélico, mas faz dela uma estória, um relato. Daí ser sempre difícil separar o “ser” do “mundo”, como escreve Candido, mesmo quando a subjetividade seria, como no caso de Drummond, “individualista”. O “mundo”, para Candido, seria a História, ou seja, o poeta só estaria imerso nela quando se importasse com o social, como homem situado entre os outros.
          Constata-se, a partir daí, na análise de Candido, uma “polaridade” discutível: de um lado, a preocupação com os problemas sociais, e, de outro, os problemas individuais; de um lado, o “lirismo individualista”; de outro o “lirismo social”; de um lado, a “máquina retorcida da alma”, de outro, a “relação com o outro, na família, no amor, na sociedade”; de um lado, o “eu retorcido”; de outro, o “desentendimento entre os homens”; de um lado, o poeta “social”; de outro, o “grande cantar da família como grupo e tradição”; de um lado, o “egotismo profundo”, de outro “uma espécie de exposição mitológica da personalidade”. Tal dicotomia é prejudicial ao entendimento, à medida que o próprio Candido afirma que “a poesia da família e a poesia social, muito importantes na sua obra (de Drummond), decorriam de um mecanismo tão individual quanto a poesia de confissão e autoanálise, enrolando-se tanto quanto elas num eu absorvente”. A referida polaridade não tem relação com Drummond, mas sim com a obra crítica de Candido. Neste sentido, a poesia de Drummond aponta o contrário da proposta teórico-crítica de Candido: ela não tem discurso algum e, embora individualista, é muito mais humana, porque precária. A história de Drummond implica justamente em reafirmar que o poeta é gauche? Por que o poeta individualista tenta para Candido, a História, nunca a estória dos pequenos relatos lembrada por Vattimo. Candido constata que elementos subjetivos e mesmo autobiográficos se inserem na procura drummondiana. Querer ser o outro, indica Candido, faz com que o poeta deixe de ser o “eu” e se integre ao público, deixe de ser “estória” e passe a ser “História”. Candido (foto abaixo) se pergunta por que isso ocorre. A pergunta, no entanto, poderia ser: em qual poesia isso ocorre? Em qual poesia a procura pelo “público” não representa a própria incursão na subjetividade, uma vez que o indivíduo está impossibilitado de representar aquele, voltando sempre a si mesmo? Outra questão seria: por que visualizar o mundo de forma retorcida comunica menos do que o poeta social?

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          Em resposta a uma carta de Mário de Andrade, que lhe pedia para incentivar as coisas do Brasil, Drummond respondeu que achava o país infecto, com “pessoas incultas”, que viviam sob “céus sombrios”. A afirmação de Drummond certamente é contundente, mas ela mostra o quanto ele não era um “militante” social da poesia como o vê Candido – como não era João Cabral, criticado por Candido, em determinado momento do artigo “Poesia ao norte”, pela busca da “pureza poética”. Não é por tentar enfrentar o medo da sociedade contemporânea que o poeta é mais ou menos militante – em busca de uma sociedade igualitária, mas em que o discurso de todos é abafado por uma pretensa voz superior –, ou deseja transformar o mundo, a fim de “encontrar uma desculpa para si mesmo”. O “cantar” não se torna “geral”, em “evento” apenas porque é “profundamente particular”; ele é geral porque é profundamente particular. Do mesmo modo, o poeta não mostra um “aguçamento dos temas de inquietude pessoal e o aparecimento dos temas sociais” que levam a uma “peculiaríssima poesia familiar”. A família deixaria de ser o “social” apenas para representar o “ser solitário e subjetivo”? Nesse sentido, ele não é um poeta público, como também o considera Otto Maria Carpeaux, para quem Drummond também representa, por outro lado, em seu individualismo, a sociedade de seu tempo. Não se questiona aqui a reflexão de Candido de que o sentimento drummondiano pertence também a outros homens, e é feito também pelo sentimento alheio, mas sim a reflexão de que o poeta possa representar o outro, o povo, como se estivesse num patamar superior (essa linha de raciocínio provém do romantismo crítico de Schlegel e de Novalis). Candido anota, em determinado momento: “[…] a sua poesia social não é devida apenas à convicção, pois decorre sobretudo das inquietudes que o assaltam. O sentimento de insuficiência do eu, entregue a si mesmo, leva-o a querer completar-se pela adesão ao próximo, substituindo os problemas pessoais pelos problemas de todos”. Ou no seguinte fragmento: “[…] o eu estrangulado é em parte consequência, produto das circunstâncias; se assim for, o eu torto do poeta é igualmente uma espécie de subjetividade de todos, ou de muitos, no mundo torto”; ou “a experiência política permitiu transfigurar o quotidiano através do aprofundamento da consciência do outro”. São argumentos próprios do romantismo, em que uma voz lidera sobre as demais. O ápice da poesia de Drummond é visto no momento em que persegue a sociedade: em A rosa do povo, o poeta vivia a “descoberta e a prática apaixonada da poesia social”. A poesia não seria a arte do objeto, mas do “nome do objeto, para constituir uma realidade nova”. Como escreve Sérgio Buarque de Holanda, avaliando a timidez de Drummond, o poeta é o contrário de um romântico, ou seja, “ele não quer comprazer-se no malogro, nem se lamenta sobre as dores do mundo, nem – salvo por exceção – chega a sonhar com algum paraíso futuro”. A melhor saída não é exatamente colocá-lo numa nota de cinquenta cruzados novos, esquecida em alguma gaveta sem época:

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          No entanto, há algo de memorável nesta nota: os olhos tristes do poeta, por trás dos óculos, prevendo o intercâmbio não das palavras, mas o desgaste que viria com o tempo do qual quer escapar – sendo esquecido, historicamente, no fundo de uma gaveta. Por sua vez, Candido, interessado mais em história, sociologia e política, vendo a literatura como um complemento dessas áreas, viu essa vontade popular de Drummond sublimada no título de um de seus livros – o mais comentado, por sinal –, justamente A rosa do povo. Ora, se virmos atentamente esse livro, chegaremos à ideia de que poucos poemas dele remetem direta e objetivamente a acontecimentos de seu tempo ou do contexto em que foram escritos. Pode-se pensar que Drummond, como já ressaltou em alguns escritos memorialísticos, tenha ficado um certo tempo entusiasmado por certas ideias políticas. No entanto, os poemas, a não ser aqueles que evidenciam tal traço – não por acaso, os piores do livro, que o encerram –, apenas potencializam traços de Brejo das almas, Sentimento do mundo e José: uma fuga do eu da sociedade, um sentimento constante e incômodo de solidão e de isolamento (são belíssimos poemas como “Carrego comigo”, “Anoitecer” e “Nosso tempo”) – todos esses elementos, aliás, vistos de forma pejorativa por Hugo Friedrich em sua Estrutura da lírica moderna, mas como a introdução do que combatem. Alguns versos de “Nosso tempo” mostram que Drummond fala de um sentimento que podemos sentir hoje, em tempos de relações superficiais e de guerras disfarçadas de justiça: “Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos / […] Este é tempo de divisas, / tempo de gente cortada. / De mãos viajando sem braços / obscenos gestos avulsos”. Vejamos a solidão de “Passagem da noite”, de “Retrato de família” ou de “Uma hora e mais outra”, o clima melancólico de “Nos áureos tempos”. Há poemas de simples detalhes do cotidiano, como “Ontem”, “Episódio” e o excelente “Fragilidade”; a visualização do crescimento da metrópole (em “Edifício São Borja”), o tédio do serviço público (“Noite na repartição”), o medo solitário (“Morte no avião”), a sensação de tempo desperdiçado (em “Idade madura”), mas tudo é muito idiossincrático; não se percebe uma voz que represente a todos, mas apenas ao medo personificado, ao ressentimento duro, áspero, em só um homem: Drummond. Lembre-se, nesse sentido, como exemplo maior, o magnífico poema “Desfile”, com seus antológicos versos iniciais e finais.

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          Os temas, de qualquer modo, são repetidos em seus livros posteriores, apenas sob uma formalização do verso, como nos poemas de Claro enigma, Fazendeiro do ar e A vida passada a limpo. O poeta, sob esse ponto de vista de guia da humanidade, é incapaz de representar a si mesmo, e também ao outro. Não está a serviço de uma ética universal – pelo contrário, tem a sua, que é forte e não quer se impor. Sabe, ao mesmo tempo, que quem costuma falar em solidariedade com o mundo muitas vezes não a mostra nem a quem está ao lado – e, nesse sentido, sua poesia é “real”. Não há nada nele, aliás, que represente: a subjetividade não é feita somente quando está ligada a um “dentro”, ao “individualismo”, quando o “fora” é o cotidiano, o movimento diário, a máquina pública. Um poeta individualista não representa o “privado”, enquanto lá fora está o “público”. Ele não é subjetivo apenas quando pensa em si mesmo, não havendo dicotomia na formação de qualquer linguagem, como também entre alta e baixa cultura quando se trata de apropriação poética (no caso de Drummond, Alguma poesia, por representar o cotidiano, seria, para muitos, a baixa cultura, enquanto Claro enigma, por trabalhar com formas clássicas, representaria a alta cultura; o primeiro traria um “sentimento popular”; o segundo, um “sentimento sublime”). Nesse ponto, Sérgio Buarque comenta que o “exercício ocasional de um tipo de poesia militante e contenciosa” (vista em Sentimento do mundo) serviu para “purificar ainda mais uma expressão que já alcançara singular limpidez”. Percebe, ainda, que o “impulso que o levaria a superar essa poesia militante não chegaria nele a abolir a preocupação constante do mundo finito e das coisas do tempo”, como vemos em Claro enigma.  São reflexões que excluem um tanto o sentido de unidade que existe na obra do poeta mineiro. Drummond sabe, como entende de forma exata Sérgio Buarque, que a depuração não consiste em eliminar todo prosaísmo, e este serve para se intensificar o “poético pela própria força do contraste”. Por isso, Drummond – entre os poetas brasileiros – é tão moderno. Porque, como observa Roland Barthes, “o Moderno (…) é uma dificuldade ativa em seguir as mudanças do Tempo, não apenas mais no nível de grande História, mas por dentro dessa pequena história cuja medida é a existência de cada um de nós”. Aqui, podemos perceber a “pequena história” de Drummond, tão significativa em seu propósito indefinido.

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