“Existe um racismo sutil vindo de boa parte da sociedade em relação aos batuqueiros, fruto de uma mistura entre medo, preconceito e desconhecimento, pois somente os negros são identificados como feiticeiros.”, afirmou o Professor Norton Figueiredo Corrêa, do PPG em Cultura e Sociedade da Universidade do Maranhão – (UFMA), falando sobre o tema “Corpo e concepção da pessoa comparados no batuque do Rio Grande do Sul e no catolicismo” na edição especial do IHU Ideias que aconteceu no final de tarde da última terça-feira .

Fazendo um comparativo entre as características principais do culto originário de escravos africanos que se fixaram no território do Rio Grande do Sul e o catolicismo,  Norton chamou-nos a atenção para o fato da importância e da finalidade do corpo na visão das duas religiões, “A visão cristã sobre o corpo está sendo substituída pela visão africana de corpo. Tudo é mais dançante. É possível citar como exemplo disso, os estilos musicais que fazem sucesso atualmente. Pouco se dá importância para a letra e sim para a melodia e ritmo, que fazem dançar. Isso é totalmente africano”.

Um ponto em comum entre o batuque e o catolicismo é a crença na alma imortal.  O destino da alma após a morte é divergente entre as duas religiões. Não há noção de dualidade bem e mal e céu e inferno nas religiões afro.

O pesquisador exibiu muitas fotos em sua apresentação. Imagens que mostravam as peculiaridades das práticas rituais do terreiro onde foi feita a pesquisa. Segundo ele, não é fácil  conseguir acesso ao dia-a-dia de uma casa de batuque quando não se é iniciado no culto, ““Fui ganhando confiança das pessoas da casa. “Fiquei vinte anos em contato com a religião afro para fazer minha pesquisa”.

Os cânticos rituais ao som dos tambores, chamados popularmente de rezas, são parte integrante do culto. Muitas vezes, para se ter um entendimento pleno do que ocorre dentro do contexto da religião é necessário ter um conhecimento, mesmo que básico, das lendas das divindades africanas.

Norton também expôs que a comida é parte importante do culto, sendo toda ela ofertada as pessoas que participam das festas e homenagens públicas aos orixás. Sobre o sacrifício de animais, o professor afirmou que nenhum tipo de animal é torturado ou maltratado nas práticas feitas nos terreiros, “Por que somente os batuqueiros são atingidos pelo preconceito gerado na prática do sacrifício de animais? Os judeus também praticam imolações de animais da mesma maneira que eles. Em ambas essas práticas, os animais são consumidos em festas litúrgicas e não há nenhum tipo de sofrimento”.

Falou ainda que alguns alimentos que hoje são identificados e utilizados no culto do batuque não eram conhecidos pelos adeptos no início da prática. Esses elementos foram adotados, como é o caso da batata, comida ritual oferecida ao orixá Bará, senhor do movimento e mensageiro entre homens e orixás.

Por Wagner Altes

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