Iniciou na última quinta-feira (13), o Ciclo de Estudos que tema como título “50 anos do Golpe de 64. Impactos, (des)caminhos, processos”, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU juntamente com diversos PPGs e Cursos de Graduação da Unisinos.

A abertura, realizada na Sala Ignacio Ellacuria e companheiros, iniciou com a conferência “João Goulart e o Comício da Central do Brasil no contexto do Golpe”, realizada pelo Prof. Dr. Claudio Pereira Elmir, professor do curso de História da Unisinos.

O Comício da Central do Brasil, realizado no dia 13 de março de 1964, é considerado pelos historiadores como um momento dramático e histórico no período pré-ditadura, culminando no Golpe 19 dias depois. Nele, João Goulart defendeu as reformas de base propostas pelo seu governo, que visavam modificar as estruturas sociais e econômicas, contando com uma participação de aproximadamente 200 mil pessoas.

Ao retratar o governo de João Goulart, o professor falou sobre o período de conciliação anterior ao Comício, um momento no qual o presidente procura buscar apoio da direita e do centro sem que a relação com os setores da esquerda fosse afetada, com o objetivo de dialogar com os diversos partidos representados no Congresso Nacional.

Para o professor, o Comício de 13 de março foi uma grande mobilização popular chamada pelas bases sindicais, que buscou clamar por estas reformas de base que já vinham sido prometidas pelo governo, mas que não conseguia a aprovação do Congresso Nacional. “Então o Comício se coloca, como uma pressão extraparlamentar com o povo nas ruas para tentar viabilizar as reformas”, ressalta. Desta forma, o Comício era justamente uma forma de pressionar o Congresso para que as Reformas de Base fossem aprovadas.

O Comício foi considerado um momento curto de conciliação com a esquerda. A estratégia proposta durante o ato político foi justamente a de uma mobilização popular de uma série de comícios que seriam realizados até culminar em uma greve geral no dia 1º de maio.

Na visão do pesquisador, foi a partir deste pretexto que a articulação do golpe contra o governo começou a se dar. O discurso anticomunista passou a crescer, levando a realizado da Marcha da Família com Deus pela Liberdade seis dias depois do comício, movimento que segundo ele foi desprezado pelos aliados de Goulart.

Para entender melhor a forma com que o Golpe de 64 foi articulado, o historiador utilizou um trecho da entrevista de Ernesto Geisel, presidente entre 1974 a 1979, realizada pelo jornalista Elio Gaspari em 1981:

“O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução”.

Durante a palestra, o professor afirmou que a distância temporal é um benefício para compreender melhor o Comício: “O distanciamento do tempo em relação aos eventos originais é benéfico no sentido que a gente tem os eventos nas perspectivas do tempo. Então nós sabemos tudo aquilo que se deu depois de 64. Nós sabemos que houve a Ditadura, mas também que ela acabou”.

Ao fim, o pesquisador falou sobre a importância da realização deste Ciclo de Estudos: “É uma programação muito rica e extraordinária, especialmente porque vão estar aqui no IHU alguns dos maiores especialistas da historiografia brasileira com trabalhos e livros originais sobre o assunto, acho que todos devem vir e participar”.

As atividades do evento “50 anos do Golpe de 64. Impactos, (des)caminhos, processos” seguem até o dia 24 de abril, e a programação completa das palestras podem ser obtidas aqui.

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