O desejo de ter um filho é, segundo a ciência, um instinto natural de toda mulher.

Segundo a sociologia, trata-se de uma contribuição social e uma condição de status cultural. De qualquer forma, um anseio presente na maioria das mulheres. Muitas concretizam esse projeto de vida naturalmente, mas não são raros os casos de mulheres com baixa fertilidade ou com idade avançada que ainda não engravidaram. São nesses casos que as técnicas de Reprodução Assistida (RA) são vistas como alternativa.

Desde 1980, o número de clínicas que prestam o serviço a casais em busca constituir família aumentou consideravelmente no mundo todo. Brasil, Argentina e México lideram as práticas de RA na América Latina.

Aqui no Brasil ainda não há uma legislação que regulamente essas técnicas. Ainda assim, segundo a Rede Latino-americana de Reprodução Assistida 30% dos casais que procuram o tratamento obtém sucesso.

No evento IHU ideias da última quinta-feira (4), na palestra intitulada Produções tecnológicas e biomédicas e seus efeitos produtivos e prescritivos nas práticas sociais e de gênero, a pesquisadora da Universidade Federal do Paraná – UFPR, Marlene Tamanini, falou sobre o crescimento e a popularização da RA na Europa e no Brasil. Trouxe também dados sobre os prováveis motivos desses avanços, além da própria tecnologia empregada.

“A maior parte das mulheres que precisam da Reprodução Assistida estão acima de 34 anos. Talvez muito disso se deva ao fato de uma maior profissionalização feminina”, aponta Marlene, chamando a atenção para a questão da inclusão feminina no mercado de trabalho, “As mulheres que entram no mercado de trabalho tendem a adiar a gravidez por pensar que não conseguiriam cuidar bem de seus filhos”.

As técnicas de RA não são apenas procuradas por casais heterossexuais. A procura de casais homossexuais por clínicas também é expressiva. A questão sobre paternidade e maternidade de casais homossexuais não é nova e mexe com a opinião pública. Sobre isso, a pesquisadora enfatiza que só há polêmica em relação a isso devido à inexistência de uma aceitação de padrões culturais: “estamos mexendo com a noção do diferente, pois a ideia de paternidade e maternidade é heteronormativa”.

As dúvidas entre os casais homo que procuram esse tipo de tratamento são variadas. As questões de linguagem e identificação (de quem seria a mãe) é um debate constante. Será que a mãe é quem gerou ou quem doou o óvulo?

A Reprodução Assistida traz consigo toda a polêmica da ética médica e da identificação e identidade dos doadores. Por exemplo, existem associações de pessoas que nasceram de óvulos ou espermatozoides de desconhecidos e hoje, adultos, procuram descobrir quem são essas pessoas. Qual seria o direito de manter esse anonimato de doadores por parte dos médicos?

Marlene Tamanini disse que, em sua pesquisa, os especialistas frisaram que a RA busca dar “felicidade e contribui para ajudar a ‘dar’ a vida e o objetivo de identidade para as mulheres.”

Por fim, a professora palestrante questionou se não seria a hora de acabar com o anonimato das doações, sendo que, talvez, os segredos relacionados aos processos sejam piores para as pessoas e para as legislações que já vigoram no exterior.

Por Wagner Altes

Deixe uma resposta