Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Através de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora com Paulo Sérgio Talarico, artista plástico de Juiz de Fora.

A comoção divina

O Deus de que vos falo
Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe
Da grandeza do homem
(Da vileza também)
E no tempo contempla
O ser que assim se fez.

É difícil ser Deus.
As coisas O comovem.
Mas não da comoção
Que vos é familiar:
Essa que vos inunda os olhos
Quando o canto da infância
Se refaz.

A comoção divina
Não tem nome.
O nascimento, a morte
O martírio do herói
Vossas crianças claras
Sob a laje,
Vossas mães
No vazio das horas.

E podereis amá-Lo
Se eu vos disser serena
Sem cuidados,
Que a comoção divina
Contemplando se faz?

(Fonte: Hilda Hilst. Exercícios. São Paulo: Globo, 2013, p. 51-52)

Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 – 2004): Foi poeta, escritora e dramaturga brasileira.  Seu primeiro livro de poesias, “Presságio, foi publicado em 1950. Formou-se em direito e escreveu por quase cinquenta anos, tendo sido agraciada com os mais importantes prêmios literários do Brasil, entre eles, o Prêmio Jabuti de melhor conto, em 1993, pela obra Rútilo Nada.  Conhecida por sua forte personalidade, Hilda Hilst transportava seus leitores para uma análise filosófica acerca da busca, da morte, do amor e do horror. Ainda,  seus trabalhos foram traduzidos em vários idiomas.

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