Assim que o resultado das eleições presidenciais foram divulgados um dado ficou evidente: os evangélicos seriam os principais atores do debate para definir o presidente do Brasil no segundo turno. Não foi preciso analisar os dados das regiões mais evangélicas do país, bastou entender quem foram os quase 20% da população que votaram em Marina Silva e compreender suas motivações.

Naquela mesma noite do primeiro turno a IHU On-Line conversou com o sociólogo Rudá Ricci que apontou: “O voto evangélico vai decidir o 2º turno”. Ricci, na ocasião, afirmou que não esperava o resultado que as urnas indicaram. “Marina apareceu com uma força política enorme pelo voto dos evangélicos, dos jovens e das mulheres indecisas que votaram nela no final”. Segundo ele, foi essa a grande novidade desta eleição.

Daí em diante temas defendidos pelos evangélicos sustentaram os debates. Quem é a favor do aborto? Quem vai aprovar o união civil homossexual? As religiões estavam em alta, mas uma crise parecia iniciar quando algumas lideranças resolveram abrir o voto tanto para um quanto para outro candidato. O nome da CNBB, inclusive, foi usado sem autorização em panfleto anti-Dilma. Assim, a IHU On-Line entrevistou Dom Demétrio Valentini que afirmou: “Penso que a credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque. A CNBB, tradicionalmente, sempre marcou presença na realidade brasileira como uma entidade responsável que colaborou para a implantação da democracia no Brasil, ciente, claramente, da sua responsabilidade própria. Agora, corre o risco de ser mal interpretada por equívocos acontecidos por manobras em andamento”.

Aborto e união civil gay passaram, então, a predominar o debate, o que levou Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, a abrir espaço em seu programa para defender José Serra. Do outro lado, defendendo Dilma Roussef, apareceu Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus. Assim, o professor e presbítero da Igreja Assembleia de Deus Betesda em São Paulo, Gedeon Freire de Alencar concedeu entrevista à IHU On-Line onde disse: ““Eu não sou a favor do aborto, e, teoricamente, creio que ninguém é a favor disso. Mas precisamos discutir isso porque aborto ainda é uma questão de pobre nesse país. Os ricos continuam abortando e não morrem, porque fazem em clínicas bem aparelhadas”.

Quando evangélicos e católicos lançaram o manifesto “Se nos calarmos, até as pedras gritarão!”, procuramos Dom Tomás Balduíno, que assinou o documento, para nos contar sobre os motivos que levaram esse grupo a defender o voto na candidata do PT neste segundo turno. “A questão não é o amor à Dilma, mas o ódio ao projeto de Serra. A opção por Dilma é simbólica, o significado da opção por Dilma é o mesmo de Lula, é a possibilidade da caminhada dos Sem Terra, dos negros, dos índios sem repressão”, explicou.

“O voto evangélico não foi decisivo”, defendeu a professora Magali do Nascimento Cunha na entrevista que concedeu e foi publicado no sítio do IHU. Ela acredita que, na verdade, “o protagonismo foi pautado pela grande mídia que definitivamente apoia Serra”. Ela lembra, inclusive, que a batalha “Evangélicos x PT” também não é uma novidade e, assim, relembra a disputa presidencial de 1989. “A demonização da candidatura Lula já acontecia, com argumentos que expunham desde ‘Lula é comunista e ateu’ até ‘Se Lula ganhar vai mandar fechar as igrejas’.

O jornalista e coordenador do Escritório da Fundação Ética Mundial no BrasilMoisés Sbardelotto questionou na entrevista que nos concedeu: “de que religião estamos falando ao discorrer sobre religião?”. E trouxe a resposta: “Parece-me que a religião que brota no meio do debate político é apenas uma faceta – talvez a mais negativa – do âmbito religioso. A discussão religiosa que se manifestou no debate político mostrou ser extremamente reacionária e conservadora, apelando para aspectos quase medievais de um debate que, de fundo, é do âmbito científico, bioético”.

O teólogo Leonildo Silveira Campos também concedeu entrevista à IHU On-Line sobre este tema. “Acredito que os evangélicos foram usados como ‘bucha de canhão’ numa guerra facilmente apresentada a eles numa retórica que sempre foi muito bem aceita: a luta do bem contra o mal”, indicou. Alias, Leonildo acredita que o discurso conservador só terá sucesso se outro escândalo for explorado pela mídia. E acertou. Tanto que uma “bolinha de papel”, interpretada como uma bobina de crepe pela grande mídia, foi discutida e alvo de manifestações violentas de ambos os candidatos. “Aqui outra força se levanta contra Dilma-PT: a mídia representada pelos grandes grupos financeiros estilo Globo, jornais Estado e Folha de S.Paulo e revistas como Veja, Época e outras mais”, explicou o professor.

Temos aí poucos dias para enfim dizer às urnas qual a nossa opção e cobrar ações reais para que o país possa crescer e respeitar suas riquezas. Será que isso vai entrar nos próximos debates?

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