Para Jean- Yves Calvez, todos os pontos levantados por Ratzinger nesta encíclica constituem “um encorajamento a tomar, sem hesitar, as medidas intervencionistas e corretivas que deveriam impedir o retorno de semelhantes crises”.

Ele concedeu a entrevista, por email, à IHU On-Line.

Jean-Yves Calvez é um jesuíta com uma trajetória de vida dedicada à reflexão sobre os grandes problemas sociais da humanidade. Ele, profundo conhecedor do marxismo, é autor de uma obra clássica sobre O Capital de Karl Marx. É autor de inúmeros livros, entre eles, foram publicados no Brasil A Economia, o Homem, a Sociedade (Loyola, 1995) e Política. Uma Introdução (Ática, 1997). Calvez é um proeminente especialista no Ensino Social da Igreja.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as ideias centrais da nova encíclica de Bento XVI (Caritas in veritate)?

Jean-Yves Calvez – São tratados diversos temas. No início, pelo menos, o principal é o desenvolvimento. O que pode provocar surpresa, sabendo-se que a problemática globalização dos economistas liberais se desenvolveu, com frequência, em contradição às políticas voluntaristas de desenvolvimento: era-lhes oposto o caráter automático dos avanços das economias sob o impacto da abertura das fronteiras. O papa rende ao desenvolvimento suas cartas de nobreza; ele revaloriza, aliás, a grande encíclica do desenvolvimento, a Populorum progressio, e seu autor, o Papa Paulo VI, muito pouco citado na época do pontífice precedente, João Paulo II. Boa nova, dizem os defensores do desenvolvimento. Seguramente há, a seguir, toda uma série de outros assuntos: o meio ambiente, a solidariedade internacional (“a colaboração na família humana”), a situação demográfica do mundo, as migrações, a necessidade de ética na economia, a necessidade de uma nova gestão dos recursos raros em benefício de todos, dos mais pobres em particular. A relação entre mercado e “dom” (cap. III) é um tema que chama a atenção, associado à questão da fraternidade que pode e deve se desdobrar na sociedade civil, na qual o papa tem confiança, apoiando a revalorização do papel do Estado (“cuja função parece destinada a crescer”). Tudo isto é, poder-se-ia dizer, consequência da “crise”: e o é, indiscutivelmente, embora seja preciso observar que a crise não é o tema central, como esperavam muitos (decepcionados?); é antes, por alusão, que isso entra em questão. De outra parte, “o amor (a caridade) é tudo”, diz o papa, “na e segundo a verdade”, ou seja, segundo a estrutura das coisas e a natureza do homem; além da estrutura, o amor não é senão a lancinante dor “emocional”.

IHU On-Line – Qual a importância desta encíclica no contexto atual de crise econômica e social?

Jean-Yves Calvez – O relevo de todos os pontos que acabo de evocar é um encorajamento a tomar, sem hesitar, as medidas intervencionistas e corretivas que deveriam impedir o retorno de semelhantes crises. Mas isso não é dito com toda essa nitidez.

IHU On-Line – Que respostas a encíclica oferece para a crise moral da financeirização?

Jean-Yves Calvez – Aqui o papa não se engaja no detalhamento de medidas precisas, que, de resto, não podem resultar de um mero reerguimento “moral” dos homens. O princípio geral é, no entanto, nitidamente colocado, contra todos aqueles que gostariam de isolar a economia da moral: “A economia necessita de ética”.

IHU On-Line – Qual é a novidade que esta encíclica (Caritas in veritate) traz em relação à Populorum Progressio?


Jean-Yves Calvez
– É claro que a nova encíclica trata dos problemas do desenvolvimento num novo contexto, justamente o da globalização – querendo isto expressar um contexto de espírito mais liberal do que do tempo da Populorum progressio, que torna provavelmente mais difícil precisamente a ação para o desenvolvimento. A nova encíclica fala também num contexto de escassez, muito sublinhado, pelo menos se tratando dos recursos energéticos – é verdade que o papa diz no mesmo instante: “Há lugar para todos sobre a terra…”.

Uma resposta

  1. […] pelo Papa Bento XVI na última semana. Luiz Alberto Gómez de Souza, Plínio de Arruda Sampaio e Jean-Yves-Calvez comentam a primeira encíclica social do atual Pontífice. O jornalista Carlos Vicente, da ONG […]

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