Arquivos da categoria ‘Simpósio’

Neste sábado, últimos momentos do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin, a manhã chuvosa iniciou com a conferência da Profª. Drª. Ana Luisa Janeira, da Universidade de Lisboa, Portugal, intitulada “A Energética Teilhardiana: missão evolutiva em terras cristãs”.

Janeira apresentou suas ideias a partir da noção da energética como uma visão de mundo defendida pelo padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês Pierre Teilhard de Chardin. Segundo essa visão, a evolução pressupõe uma energia superior por excelência: o amor. Há, assim uma supremacia da energia espiritual sobre a energia material, do ponto de vista teilhardiano, pois, segundo o paleontólogo, geólogo e historiador francês, a humanidade é um garante de uma evolução não acabada.

Nesse sentido, defendeu Janeira, surge uma nova fase do processo evolucionário, que passou pela cosmogênese (cosmos), pela biogênese (vida biológica), pela antropogênese (ser humano) e que, agora, está dando um salto para a noogênese. Nesta, gera-se uma nova energia espiritual, um novo estado de consciência, cada vez mais complexo e interiorizado nas mentes dos seres humanos e do mundo. Nesse sentido, resumiu, a energética é complexidade, que aponta para o espírito.

Defendendo que a evolução não culminou conosco, Janeira afirmou que cabe a nós construir essa noosfera. “Eu não acho que Teilhard tenha resolvido alguma coisa, mas sim complexificou a nossa relação com Deus. Somos corresponsáveis pela evolução e, por conseguinte, somos corresponsáveis pela própria vinda do Deus Ômega” – em contrapartida ao Deus Alfa, criador.

Analisando aspectos da Companhia de Jesus e de sua relação como jesuíta com o ambiente acadêmico, a pesquisadora portuguesa defendeu a habilidade de Teilhard em prol de uma flexibilidade singular para conceber o seu trabalho e seu zelo persistente em fazer sínteses de suas ideias. Para Janeira, Teilhard unveste numa vocação ousada e numa carreira acadêmica peculiar, cuja hostilidade recebida de seus colegas acadêmicos não favorece o diálogo aberto sobre suas ideias.

Ana Luísa Janeira é filósofa, professora associada do Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tendo-se doutorado em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris I. É autora de “A Energética no Pensamento de Teilhard de Chardin” (Livraria Cruz-Faculdade de Filosofia, 1978).

Ainda na manhã deste sábado, ocorre a mesa redonda de encerramento do Simpósio, intitulada Darwin, a Moral e a Religião, com as conferências “Darwin e os fundamentos da Moral”, com o Prof. Dr. Louis Caruana, da Universidade de Londres, e “Deus e a Ciência: o debate interno de Darwin”, com a Profª. Drª. Anna Carolina Krebs Pereira Regner, da Unisinos.

(por Moisés Sbardelotto)

Da evolução cósmica à evolução biológica. Emergência, relacionalidade e finalidade. Esse foi o título da conferência do cientista jesuíta William Stoeger no IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin, na noite desta sexta-feira, 11 de setembro. Para um público de aproximadamente 200 pessoas, o cosmólogo e astrofísico norte-americano expôs que Darwin não estava consciente, “de modo algum” da evolução cósmica. De qualquer forma, advertiu o pesquisador, sem a evolução cósmica, seria impossível a evolução biológica. “A evolução cósmica produz os componentes, bem como os locais mais frescos quimicamente ricos e as fontes de energia, necessários para o surgimento da vida e o funcionamento da evolução biológica”.

Até as descobertas de Galileu Galilei, os astrônomos e filósofos pensavam que o cosmos era feito de material imutável. Contudo, o universo evolui e com ele os elementos que o compõe. “Sem a evolução cosmológica não haveria vida, não estaríamos aqui”, disse Stoeger. Assim, de certa forma, podemos dizer que “somos todos feitos de estrelas”.

O cosmólogo convidou a plateia a tomar distância de suas concepções sobre a ciência e se perguntar quais seriam as características do universo. Em seguida, enumerou três delas: 1) evolução, 2) emergência e 3) relacionalidade. “Tudo muda, tudo evolui”, e por essa evolução passa a emergência do novo e a relacionalidade entre as diferentes formas de vida.


Universo complexo

Não há dúvidas de que o universo evoluiu do Big Bang, há cerca de 13.7 bilhões de anos. E esse mesmo universo está submetido a uma contínua diferenciação e complexificação. Stoeger falou, ainda, que certamente Deus está “envolvido” na criação do universo, não na forma de uma “microgestão”, gerenciando cada um dos pequenos e grandes fatos e atos, mas porque dotou e possibilitou que as coisas aconteçam da forma como ocorrem.

Outro ponto explorado por Stoeger em sua conferência foi que as coisas só existem por determinado tempo. Portanto, decadência e morte são ínsitas à vida, e são elas que permitem a emergência do novo. A evolução não poderia acontecer se as coisas não perecessem, destacou. “Ela seria impensável”.

De acordo com Stoeger, a teoria básica da evolução biológica introduzida por Darwin continua enormemente relevante. Junto com a genética, ela proporciona o fundamento de nossa compreensão de biologia. “Isto inclui a descendência com modificação de organismos, a percepção de que todos os organismos têm ancestrais comuns, o processo chave da seleção natural, que opera sobre variações dentro de cada organismo”.

Stoeger é cientista do Grupo de Pesquisas do Observatório do Vaticano (VORG) e especialista em Cosmologia Teórica, Astrofísica de altas energias e estudos interdisciplinares relacionados com a ciência, a filosofia e a teologia. É doutor em Astrofísica pela Universidade de Cambridge desde 1979. Entre 1976 e 1979, foi pesquisador associado ao grupo de física gravitacional teórica da Universidade de Maryland, em College Park, Maryland. É membro da Sociedade Americana de Física, de Astronomia e da Sociedade Internacional de Relatividade Geral e Gravitação. Atualmente, leciona na Universidade do Arizona e na Universidade de São Francisco. É também membro do Conselho do Centro de Teologia e Ciências Naturais (CTNS). Entre outros, publicou As Leis da Natureza – Conhecimento humano e ação divina (São Paulo: Paulinas, 2002).

No X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades, Stoeger falará sobre Deus, algo a ver ainda hoje? A conferência está marcada para 15 de setembro, a partir das 8h45min. A respeito desse tema, o cientista concedeu entrevista à IHU On-Line, que será publicada na edição 308, de 14 de setembro, segunda-feira próxima.

Na edição 309 da IHU On-Line, de 21 de setembro, você confere mais uma entrevista exclusiva com Stoeger, desta vez realizada pessoalmente. Na conversa, ele dá maiores detalhes sobre sua trajetória acadêmica, pesquisas atuais em astrofísica e cosmologia, e também fala um pouco sobre suas origens, vocação para a ciência e sacerdócio.

Por Márcia Junges

“O espinho na cauda do pavão se refere à evolução dos ornamentos dos animais, que podem servir como atrativo sexual. Segundo Darwin, isto o adoecia”, explica Aldo Mellender de Araújo. Nesta sexta-feira, 11, o professor pesquisador da UFRGS ministrou a palestra “Um espinho na cauda do pavão: reflexões sobre a teoria da seleção natural de Darwin”. O evento integrou a programação deste terceiro dia do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin, e ocorreu no Anfiteatro Pe. Werner, das 14h às 15h30.


Mellender tratou principalmente das dificuldades de Charles Darwin em aceitar o princípio da seleção sexual, quando comparado ao da seleção natural. Conceitualizando os presentes, o professor relembrou as idéias da seleção natural e sexual, esta última considerada por Darwin menos rigorosa que a primeira, segundo o livro “A origem das espécies”.

Em 1860, Darwin escreveu uma carta ao seu colaborador, o botânico Asa Gray, onde confessava ficar “doente” diante do espetáculo da cauda do pavão, e, do mesmo jeito ficava, em relação a estrutura do olho. Apresentando uma cópia do documento, Mellender explicou que, a partir disso, o pai da teoria da evolução se utiliza do conceito de seleção sexual para explicar a utilização de estruturas corpóreas como atrativos sexuais.

O livro “Origem do homem e a seleção sexual” também foi analisado. O professor frisou o destaque dado por Darwin à seleção sexual, comparado às hipóteses sobre a origem do ser humano. A evidência empírica de Darwin sobre as diferenças e batalhas entre machos e os ornamentos encontrados nestes, mostrada através dos estudos em besouros, crustáceos e aves, também foi apresentada.

Mellender apresentou um resumo dos principais pontos levantados por Darwin a favor da seleção sexual. Os cinco apontados por ele foram: as diferenças entre machos de diferentes espécies, as batalhas ocorridas para a conquista da fêmea, a manifestação da seleção sexual em machos e fêmeas, e entre monogâmicos e poligâmicos, e, finalmente, os efeitos que se opõem entre a seleção sexual e a seleção natural.

A constatação das teorias de Darwin, também foram abordadas. O destaque foi para Wallace, que defendia a escolha das fêmeas por padrões de coloração ou canto e que não acreditava na limitação dos poderes de seleção sexual apenas à luta entre machos. Joseph Hooker, Michael Ghiselin, Friedrich Weismann, Julian Huxley e Russel Lande, foram alguns dos autores e teóricos pós-Darwin destacados por Mellender, que tratou de suas contribuições e críticas.

Ainda hoje as palestras “Desvendando um dos mistérios de Darwin: A história das lianas Neotropicais”, às 16h, com a Profa. Dra. Lucia Garcez Lohmann – USP e “Da evolução cósmica à evolução biológica. Emergência, Relacionalidade e Finalidade”, às 20h, com o Prof. Dr. William Stoeger – Observatório Astronômico do Vaticano – Universidade do Arizona – EUA. Veja a programação completa.

Cerca de 200 pessoas participam do simpósio que termina amanhã, dia 12. Confira abaixo as impressões de alguns participantes:
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(por Juliana Spitaliere)

“É preciso primeiro compreender a evolução da Terra para depois compreender a evolução da vida que habita sobre ela”, frisou Gervásio Silva Carvalho, professor do departamento de Biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), na segunda conferência desta manhã, 11-09-2009, do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin. Na abertura da palestra intitulada “O pensamento biogeográfico em tempos darwinianos”, Carvalho provocou a platéia dizendo que seu propósito era tentar convencê-los sobre a importância da biogeografia para a evolução biológica.

Antes de apontar os possíveis erros de Darwin na compreensão da evolução, o pesquisador fez um resgate histórico e explicou rapidamente três alegorias que, ao longo dos anos, foram citadas para compreer a existência do universo: o Jardim do Éden, o Dilúvio Universal e a Torre de Babel.

Também mostrou mapas do Velho Mundo e citou intelectuais antecessores do biólogo britânico, os quais também tentaram explicar a evolução e a origem das espécies. Entre eles, destacou Santo Agostinho, Francis Bacon, Carolus Linnaeus e Georges-Louis Leclerc.

 

 
    

No século XIX, a biogeografia era fundamentada principalmente nos estudos do botânico, zoólogo e médico sueco, Carolus Linnaeus, e do naturalista frances, Georges-Louis Leclerc. A partir das Teorias do Centro de Origem e da Dispersão, eles acreditavam que as espécies eram criações divinas e a evolução de animais e plantas iniciava em uma pequena área ou centro de criação e se movimentava, dispersando-se por outras áreas próprias à sua sobrevivência. Dessas ideias, Darwin e Wallace adotaram a teoria da dispersão dos organismos como núcleo central do programa de investigação em biogeografia.

Erros de Darwin

Para Gervásio Silva Carvalho, Darwin não conseguiu explicar e compreender a totalidade da origem e da evolução das espécies. Em sua opinião, dois são os erros que justificam tal processo. Primeiro, explica, “ele voltou a trás em suas especulações relativas à geografia. Darwin tratou a evolução por um viés biótico”. Segundo o pesquisador, o biólogo deveria ter considerado aspectos da biogeografia, já que tinha conhecimento de que os continentes haviam se separado com o decorrer do tempo. Darwin, pelo contrário, ao encontrar dificuldades em explicar a movimentação da Terra, optou pelo modelo de dispersão e reiterou em suas obras “que não houveram mudanças consideráveis na posição dos continentes, além de afirmar que a geografia tinha permanecido a mesma”. Segundo o pesquisador, essa informação é fundamental para compreender a evolução, pois “há diferenças em pensar a evolução a partir da perspectiva da Terra fixa e em movimento”. De qualquer modo, Darwin não tentou simplificar o processo, “o momento para esse tipo de explicação é que não estava pronto”, sintetizou.

Terra x vida: a evolução

Carvalho defendeu ainda que Darwin também não deu a importância devida ao modelo Court Jester, para o qual a evolução raramente ocorre exceto em respostas a mudanças físicas e climáticas.  Isso, de acordo com ele, aponta o segundo erro do biólogo britânico.

Através de A  Origem das Espécies, Darwin ficou famoso e reconhecido em todo o mundo, mas o endurecimento teórico de suas pesquisas fez com que seus seguidores, os chamados neodarwinianos, não discutissem criticamente as posições abordadas. Segundo Carvalho, isso “atrasou em cem anos o pensamento biogeográfico”.

O pesquisador frisou ainda que o grande problema do modelo de dispersão, adotado por Darwin, é explicar a origem das espécies. Segundo ele, tal enigma pode ser compreendido melhor a partir das pesquisas de Leon Croizat, que desenvolveu estudos conectando táxons em regiões geográficas que não estão conectadas hoje em dia. Influenciado pelo pensamento de Croizat, Carvalho encerrou a conferência dizendo que “utilizando o princípio de que Terra e vida evoluem juntas, vamos compreender o sentido da vida”.

Nesta tarde ainda serão apresentadas duas conferências. Um espinho na cauda do pavão: reflexões sobre a teoria da seleção sexual de Darwin é o tema discutido pelo Prof. Dr. Aldo Mellender de Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Em seguida, às 16h, inicia a palestra da Profa. Dra. Lucia Garcez Lohmann, da Universidade de São Paulo – USP, intitulada Desvendando um dos mistérios de Darwin: A história das lianas neotropicais. Confira a programação completa.

Darwin: ecos da evolução

Em 11 setembro, 2009 Comentar

Em 1831, Darwin embarcou no navio britânico HMS Beagle e iniciou uma viagem que durou cinco anos, observando a diversidade das espécies relacionando as informações obtidas com a formação da Terra e com os fósseis encontrados. Foi assim que o naturalista britânico desenvolveu a teoria de que os seres vivos estão em processo de evolução com base na seleção natural e escreveu a obra A origem das espécies.

Réplicas de alguns dos animais que Darwin conheceu ao longo de sua pesquisa estão na amostra Darwin: ecos da evolução, no Anfiteatro Pe. Werner. Entre eles, destaca-se o Jabutis-de-Galápagos. Em sua obra, Darwin registrou a emoção de ser conduzido pelo animal: “Frequentemente eu subia em suas costas e com as pernas batia do lado do corpo para que elas levantassem e assim poderia ser conduzido, mas era difícil manter o equilíbrio”. A exposição pode ser conferida até a próxima quinta-feira, 17-09-2008, quando encerra o X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades.