Arquivos da categoria ‘Orações inter-religiosas’

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e com Paulo Sérgio Talarico, artista plástico de Juiz de Fora.

Ser Feliz

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

Fonte: Paulo Henriques Britto. Mínima lírica. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 34

Paulo Henriques Britto (1951)Poeta, professor e tradutor. Atualmente é professor na PUC-Rio. Já publicou diversas obras, entre elas, Formas do nada (São Paulo: Companhia das Letras, 2012) e Ensaio: A tradução literária (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.). Britto já traduziu mais de 100 livros para o português.

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e com Paulo Sérgio Talarico, artista plástico de Juiz de Fora.

Nuvens

Para descrever as nuvens
muito teria de apressar-me,
pois numa fração de segundo
deixam de ser estas e começam a ser outras.

É sua propriedade
não se repetir
nas formas, tonalidades, poses e configurações.

Sem o peso de qualquer lembrança,
pairam sem dificuldade sobre os fatos.

Mas nem testemunhá-los podem,
pois logo se dissipam em todas as direções.

Comparada com as nuvens,
a vida afigura-se firme,
quase duradoura, eterna.

Perante as nuvens
até uma pedra parece nossa irmã,
na qual se confia,
mas elas, enfim, umas levianas primas afastadas.

As pessoas que existam, caso queiram,
e depois morram uma por uma,
as nuvens não têm nada a ver com
coisas
tão estranhas.

Sobre toda a tua vida
e sobre a minha, ainda não toda,
desfilam com pompa, como desfilavam.

Não têm obrigação de morrer conosco.
Não precisam do nosso olhar para navegar.

(Fonte: Wistawa Szymborska. Instante. Rio de Janeiro: Relógio d´água, 2006, p. 21-23)

Wistawa Szymborska (1923 a 2012): Poetisa, crítica literária e tradutora. Passou a vida em sua cidade natal, Cracóvia, no sul da Polônia. É autora de uma vasta obra, tendo sido definida como o “Mozart da poesia” pela Academia de Estocolmo.  A função de suas poesias, segundo ela, “é perguntar, buscar o sentido das coisas”. No Brasil, outro livro publicado foi Poemas (Companhia das Letras, 2011), com a coletânea de 44 textos. Ficou conhecida como a “poetisa da consciência do ser”.

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e com Paulo Sérgio Talarico, artista plástico de Juiz de Fora

Adoração

Difícil chamar-te pelo nome, agora
que és tudo e meu chamado.
Ecoas. Água da sede,
bebo-te em silêncio. E despojo-te da imagem
no transparente ser e estar
sem perceber
que sou e estou
que és e estás
entregues ao não saber
do quando e onde
sempre e agora
e te sou
e me és
estando no infinito estar
sendo no infinito ser
que nos envolve e abarca
silenciosa viagem
adeus.

(Dora Ferreira da Silva. Uma palavra de ver as coisas. São Paulo: Duas Cidades, 1973, p. 95)

Dora Ferreira da Silva (1918 – 2006): Poetisa e tradutora brasileira. Recebeu três vezes o Prêmio Jabuti por suas poesias e também o Prêmio Machado de Assis, da Acadêmia Brasileira de Letras, por sua obra Poesia Reunida. Dedicou-se por mais de 50 anos à poesia, entre suas principais obras estão Andanças, Talhamar, Retratos de Origem, Poemas da Estrangeira e Hídrias.  Foi tradutora do psicólogo suíço Carl Gustav Jung.

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e com Paulo Sérgio Talarico, artista plástico de Juiz de Fora.


Te percebo, meu Senhor
 

É neste mundo que te quero sentir
É o único que sei. O que me resta.
Dizer que vou te conhecer a fundo
Sem as bênçãos da carne, no depois,
Me parece a mim magra promessa.

Sentires da alma? Sim. Podem ser prodigiosos.
Mas tu sabes da delícia da carne
Dos encaixes que inventaste. De toques.
Do formoso das hastes. Das corolas.
Vês como fico pequena e tão pouco inventiva?

Haste. Corola. São palavras róseas. Mas sangram.
São feitas de carne.

Dirás que o humano desejo
Não te percebe as fomes. Sim, meu Senhor,
Te percebo. Mas deixa-me amar a ti, neste texto
Com os enlevos
De uma mulher que só sabe o homem.

Hilda Hilst

(Fonte: Hilda Hilst. Poemas malditos, gozosos e devotos. 2 ed. São Paulo: Globo, 2011, p. 31)

Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 – 2004): Foi poeta, escritora e dramaturga brasileira. Seu primeiro livro de poesias foi “Presságio“ publicado em 1950. Formou-se em direito e escreveu por quase cinquenta anos, tendo sido agraciada com os mais importantes prêmios literários do Brasil, entre eles, o Prêmio Jabuti de melhor conto, em 1993, pela obra Rútilo Nada. Conhecida por sua forte personalidade, Hilda Hilst transportava seus leitores para uma análise filosófica acerca da busca, da morte, do amor e do horror. Ainda, seus trabalhos foram traduzidos em vários idiomas.

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e com Paulo Sérgio Talarico, artista plástico de Juiz de Fora.

 Cantiga de amor

 Acima de nós
 tudo é silêncio

 erram planetas
 insones

 abismos
 devoram estrelas

 lagos
 de hidrogêneo
 se resfriam

 supernovas
 cantam
 como cisnes

 e o silêncio
 revela
 outro silêncio…

 – olha para o céu
 amada

 olha
 e não diz nada

 

(Fonte: Marco Lucchesi. Poemas reunidos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2000, p. 64).

Marco LucchesiÉ membro da Academia Brasileira de Letras – ABL, poeta, ensaísta e professor.  Nasceu no Rio de Janeiro  em 1963 .  Lucchesi leciona na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Colégio do Brasil.  É graduado em História, doutor em Ciência da Literatura, com pós-doutorado em Filosofia da Renascença. O imortal é autor de diversas obras, entre elas Meridiano celeste & bestiário (Rio de Janeiro: Record, 2006) e A memória de Ulisses (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006). No poema acima, Marco Lucchesi desenha a descoberta do amor por meio de uma  experiência elevada.

Conheça mais de Marco Lucchesi: