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Faleceu Jean-Yves Calvez

Em 11 janeiro, 2010 Comentar

Faleceu hoje, em Paris, Jean-Yves Calvez.

Jesuíta, foi um dos maiores especialistas na Doutrina Social da Igreja.

Calvez foi autor de inúmeros livros, entre eles, foram publicados no Brasil: Política. Uma Introdução. Ática, 1997; A Economia, o Homem, a Sociedade. Loyola, 1995.

Por ocasião da publicação da encíclica Caritas in Veritate de Bento XVI, a revista IHU On-Line, 13-07-2009, o entrevistou.

Para ler a entrevista, clique aqui.

As Notícias do Dia do sítio do IHU,  no dia 25-10-2006, publicou uma entrevista com ele intitulada “A análise marxista do capitalismo não caducou“.

No Brasil, o jesuita francês se tornou conhecido por sua obra sobre O Capital de Karl Marx.

Frei Beto, no livro A Mosca Azul. Reflexão sobre o poder, escreve:

“Cheguei a dar aulas de marxismo eu, frade dominicano a militantes da Ação Popular (AP) em São Paulo. Acolhia o grupo aos sábados na biblioteca do convento e, tendo à mão as obras do jesuíta Jean-Yves Calvez, explicava-lhe materialismo histórico e materialismo dialético, infra e superestrutura etc. Pode parecer estranho utilizar o texto de um padre francês para ensinar marxismo. Mais tarde, no Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde me confinaram pouco mais de um ano, eu veria os próprios comunistas recorrerem a Calvez para as classes de marxismo. Sua obra é de tamanha honestidade intelectual que, ao apresentar a teoria de Marx, o faz com uma isenção que não admite preconceitos, embora adiante procure contestar um a um aqueles argumentos”.

Mártires e mártires…

Em 20 dezembro, 2009 Comentar

O Vaticano publicou ontem, sábado, o decreto que reconhecendo o “martírio de Giorgio Popiełuszko“.

Para quem não lembra, Popiełuszko, padre polonês, foi assassinado em 1984, por esbirros do regime comunista.

Há pouco celebramos Ignacio Ellacuría e companheiros, os mártires de El Salvador. E falando de El Salvador, como não lembrar instantaneamente de D. Oscar Romero, assassinado antes do padre polaco?

Ao ler o decreto publicado ontem, logo veio à mente o pertinente artigo de Antonio Cechin, publicado nas Notícias do Dia, 16-12-2009:

“O que é de todo estranho em nossa Igreja Católica de hoje, é que não tenhamos nenhum mártir da teologia da libertação reconhecido oficialmente como santo, pela cúpula da Igreja”.

A Igreja de Roma parece continuar não conseguindo entender o que se vive na América Latina.

Uma lástima!

Faleceu ontem, às 21h30min Padre Antônio Aparecido da Silva, em consequência de um AVC sofrido no último sábado. Pe. Toninho, como era conhecido, se destacou pelo combate a toda e qualquer forma de discriminação racial. Sobre ele, Pe. Clovis Cabral escreveu um bonito texto, que pulicamos a seguir.pe. toninho

Companheiros, Companheiras,

Axé!

“Não creio que as pregações ideologicamente interessadas tenham sido determinantes e fatais para a compreensão da figura de Jesus Cristo na Comunidade Negra. Desde cedo,os negros perceberam a singularidade de Jesus, a sua mística divino-humana, a sua solidariedade com os pobres, e seu projeto de libertação-salvação. Em outros termos, os negros perceberam que a Igreja Católica, no Sul, e as Igrejas Protestantes,no Norte, embora vivendo em meio à escravidão e contaminando-se com ela, eram, entretanto, portadoras de uma grande mensagem, à qual elas mesmas eram devedoras. Uma mensagem que as superava enquanto entidades de fé: ‘santas e pecadoras’” (1)


Hoje [17/12/2009], às 21:30hs [horário de Brasília – horário de verão], faleceu na Cidade de Parapuã-SP, nosso irmão, companheiro, amigo, pai; o sacerdote orionita Pe. Antônio Aparecido da Silva: PATRIARCA DA PASTORAL AFRO-BRASILEIRA.

Nascido no dia 28 de novembro de 1948, em Lupércio, pequena cidade do interior de São Paulo; viveu uma boa parte de sua infância e juventude em Parapuã, outra pequena cidade do interior de São Paulo; onde será sepultado, amanhã[18/12], às 10:30hs. Tinha 33 anos de vida sacerdotal e pertencia a Ordem Religiosa da Pequena Obra da Divina Providência [Orionitas].

“A ressurreição, enquanto acontecimento totalizante e totalizador, instauradora de um novo messianismo e da vigência atual e escatológica do Reino, torna-se ponto de encontro e plenificação de todos os anseios e aspirações. A ressurreição é um fato globalizante, uma sementeira jogada sobre o universo. Deus nos ‘escolheu em Cristo antes de criar o mundo’, nos diz a Carta aos Efésios,’ derramou abundantemente sobre nós’ a sua graça (cf. Ef 1,4.6). Portanto, a ressurreição é o lugar da convergência, assim como a cristologia é a plenificação de todas as antropologias. (2)

Aqui em Recife, na Universidade Católica de Pernambuco[UNICAP], muitos se recordaram imediatamente de suas passagens por nossas terras pernambucanas; ministrando aulas, assessorando encontros diversos ou descansando simplesmente, como fez em julho passado. A saudade é grande e como nos ensina a poetisa, queremos “fazer das lembranças um lugar seguro”

Toninho vive! Homens e mulheres que viveram como ele, não morrerão nunca; nossa memória alcança neste momento: Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Jônatas da Conceição, Mãe Menininha do Gantois, Vilma da Portela, Mestre Neguinho do Samba, Ekedi Cremilda Barbosa, Pixinguinha, Bakita, N’há Chica, Pe. Vitor, Dom Jairo Rui Matos, Pe. Edir Soares, Pe. Mauro Batista, Pe. Heitor Frisotti, Pe. François L’Espinay, Pe. Batista, Pe. Tião, Dom Helder Câmara, Monsenhor Pandolfo, Pe. Mauricio.

Ele mesmo nos ensinou: “A comunidade é, portanto, o ponto de referência na vida e na morte: Quem vive comunitariamente, não morre jamais. Ao terminar os seus dias, permanece na comunidade como Ancestre. Ao contrário, quem vive de maneira exclusivista, egoisticamente, morre e não se torna nada mais que um cadáver”. (3)

Toninho está em boa companhia, ele agora é um ancestral nosso. Toninho transformou-se num Orixá. Axé para Pe. Toninho!

Permaneçamos unidos em oração,

Pe. Clovis Cabral, SJ

Notas:
(1) SILVA, Antonio Aparecido da. “Jesus Cristo luz e libertador do
povo afro-americano”; no livro por ele organizado: Existe Um Pensar
Teológico Negro? São Paulo: Paulinas/Atabaque, 1998,p.39.
(2) Idem, p.47
(3) Ibidem, p.50

Por ocasião da inauguração da Sala Ignacio Ellacuría e companheiros, no dia 10-12-2009, recebemos a seguinte mensagem:

Sr. Diretor do IHU:

Gostaria de aplaudir a iniciativa de homenagear o ex-reitor Ignacio Ellacuria e seus companheiros da Universidade jesuíta de El Salvador, assassinados (silenciados) pelas forças da tirania e da opressão há vinte anos. Recordo que na Universidade de Deusto, também jesuíta, das legendárias terras bascas, de onde procedem, além do ex-reitor
homenageado, ninguém menos que o próprio fundador da grande Companhia, sem esquecer Pedro Arrupe, instituiu há poucos anos o “Premio Ignacio Ellacuria de mejor tesis doctoral“, galardão que aquela Universidade confere à melhor tese de doutorado do ano, prêmio ao qual tive a honra de concorrer.

Guardo muitas lembranças da minha permanência naquela Universidade. Em meio às reflexões sobre direitos humanos, convivência realmente humana entre os homens e dignidade humana – princípio que em nossa Constituição está inscrito como fundamento da República –, lembro de ter assistido uma palestra de Jon Sobrino, companheiro de Ellacuria, na qual ele descrevia uma especial faceta do homenageado: o profundo respeito pelo outro, principalmente pelos excluídos. Relatava strong>Sobrino que nos eventos que anualmente realizavam na Universidade de El Salvador em homenagem a Ellacuria e seus companheiros assassinados, sempre comparecia uma humilde senhora, ex-funcionária da Universidade.

Instada a manifestar-se sobre o que admirava em Ellacuria, ela teria dito que, em certa ocasião de crise da Universidade, encontrando-se reunidas diversas pessoas ao redor do reitor discutindo alternativas para a crise, ele havia se dirigido a ela e lhe perguntado: e a senhora, o que acha? Disse que havia sido a primeira vez que alguém se havia dirigido assim a ela e se interessado em ouvir-lhe a opinião!

Convidar alguém a emitir seu juízo sobre determinado assunto que o afeta, e levá-lo em consideração, para acatar ou redarguir, é a forma de tratá-lo digna e humanamente, como muito bem se aperceberam os idealizadores e cultivadores da ética discursiva. Que tal disseminar aquela pergunta: o que você acha? Os pais para os filhos, os professores para os alunos, os vizinhos entre si, os gestores, públicos ou privados, para os seus subordinados, os governantes para os governados, os políticos para os cidadãos, etc. É transformar pessoas de objetos em sujeitos. É tornar as pessoas partícipes da comunidade da palavra, que é o que temos os seres humanos de mais característico. Quanta diferença das cotidianas ações de silenciar as pessoas, que vão desde a forma brutal do assassinato às formas mais sutis: a fraude, o engano, a mentira, as formas tecnicistas e estratégicas de gestão que visam somente a eficiência econômica, etc.

Com estima e consideração,

José Alcides Renner

De luto

Em 1 dezembro, 2009 Comentar

Segunda-feira, 30-11, 22h30. Um homem é morto com cinco tiros no centro de Porto Alegre.  Este homen é o líder comunitário da Vila do Chocolatão, que fica ao lado do parque Harmonia no centro da capital.

Conheci Léo Antonio Genovêncio Maciel, 57 anos, metalúrgico e papeleiro, em maio deste ano, quando visitei o Chocolatão para uma matéria para a revista Primeira Impressão. Ele apresentou a vila, os moradores e seus problemas.

Foi com choque que recebi a notícia de seu assassinato. Uma notícia muito triste para quem não pode ir lá agradecer por tantas coisas que aprendi naquela tarde que ele nos recebeu.

Vila do Chocolatão em Porto Alegre

Foto: Bruno Alencastro

Postado por Greyce Vargas