Nosso thriller prisional

 

 

Pedi à Márcia Elayne Berbich de Moraes, minha colega na Comissão de Anistia e também advogada, Conselheira Penitenciária do Estado do Rio Grande do Sul e integrante do Comitê Estadual contra a Tortura, que escrevesse um texto para o nosso Blog comentando a caótica situação prisional do Estado. O resultado foi o ótimo texto abaixo. Obrigado pela colaboração Marcia!  Creio também que a referência feita á música título do álbum-obra-prima de Michael Jackson, o mais vendido até hoje no mundo, pode funcionar para nós como uma homenagem que fazemos a ele. Um artista de primeira grandeza, cujo talento, acredito, poderia ter dado ao mundo mais momentos de empolgação e alegria e mais obras musicais e coreográficas de qualidade inigualável em sua categoria (ZK, 29/06/2009).   

 

 

Foi com espanto que observei o vídeo no youtube, no qual presos das Filipinas dançavam a coreografia de “Thriller” prestando homenagem póstuma a Michel Jackson.

 

A dança dos mortos vivos, em uniformes laranja, reflete muito mais que uma homenagem, mas a própria condição dos que estão no “cemitério social”, local para onde vão aqueles que não mais merecem viver entre nós.

 

Saindo das Filipinas e falando dos mortos vivos que nesse país se encontram, o que se constata é o aumento da população carcerária. Eram 232.755 presos em 2000. Em 2007, quase alcançando o dobro, 422.680.

 

Esse crescimento acarreta inúmeros problemas a serem resolvidos. Alguns são antigos, como a necessidade de uma reforma da Lei de Execução Penal e a leitura dessa a partir dos princípios estabelecidos em nossa Constituição. Outros, de natureza mais prática, como a falta de vagas em estabelecimentos prisionais, necessidade de construção de novos presídios e a manutenção/reforma daqueles que já existem.

 

Mais importante que isso, é preciso pensar um pouco além do que o senso comum apresenta, através de simples constatações:

 

-O Estado brasileiro nunca criminalizou tantas condutas como atualmente;

 

-Está cada vez mais fácil de ser selecionado pelo braço do sistema penal;

 

-Quanto à prisão em si, trata-se de construção da modernidade de manutenção do poder, que assim foi concebida e assim aparenta manter-se.

 

No caso do Rio Grande do Sul, não podemos mais dizer que somos modelo nessa matéria ou ainda, um dos estados em que a situação está melhor. Não! Temos o maior presídio da América Latina com 4756 presos, acomodados numa capacidade estrutural de aproximadamente 2.000 vagas. Na maior parte das galerias, as celas, construídas para seis apenados, abrigam 20 a 25 presos cada!

 

Já ouvimos muitas sugestões para o problema, como, por exemplo, a implosão do presídio central, mas aí pergunto: Onde colocar os presos que ali estão se não existem vagas? Como esperar a construção de presídios, se mesmo existindo orçamento destacado para isso, os impasses acerca de obtenção de áreas, licenças ambientais, abaixo assinados vem obstruindo a construção de novos estabelecimentos?

 

Há também aqueles que sustentem a necessidade de intervenção federal em nossos presídios. A idéia parece ao menos, uma solução imediata. No entanto, existem muitas dificuldades com relação às poucas instituições penais federais que vem funcionando. A falta de equipe técnica, capacitação de pessoal, a cópia do modelo repressivo americano, são apenas exemplos.

 

Uma última solução foi passada a mim por um ouvinte, em um programa de rádio durante o ano passado: “Levar todos os presos para uma das ilhas do lago Guaíba e lá aplicar a pena de morte para retirada de seus órgãos para doação”. Embora de originalidade cruel, essa solução também não serve, uma vez que esquece os problemas de saúde enfrentados por nossos apenados – HIV, tuberculose, rubéola, anemias crônicas, sem contar os parasitas que habitam seus corpos, tais como aqueles que já estão descansando a sete palmos abaixo da superfície.

 

Pois bem, pelo jeito a discussão do tema pode levar um tempo maior que o de um simples videoclipe. Nesse caso, devemos arregaçar as mangas, e começar a repensar o conceito de prisão. Olhar sem preconceitos para campanhas favoráveis à justiça restaurativa, penas alternativas, e até mesmo, sobre a real necessidade de criminalização de determinadas condutas. Caso contrário, nosso “cemitério prisional” só tenderá a crescer, com uma única certeza: a de que não existe vida social após a prisão (Marcia Elayne Berbich de Moraes, 29/06/2009).

 

 

Sobre justiça restaurativa:

http://jij.tj.rs.gov.br/jij_site/docs/JUST_RESTAUR/JUSTI%C7A+RESTAURATIVA.HTM

 

Penas alternativas:

http://www.mj.gov.br/data/Pages/MJ47E6462CITEMIDF2A839578ED546609E22E2060BA1D7A0PTBRNN.htm

 

Estatísticas sobre o número de presos:

http://www.mj.gov.br/data/Pages/MJD574E9CEITEMIDC37B2AE94C6840068B1624D28407509CPTBRIE.htm

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma alegriazinha para os ouvidos

 

Eis mais uma excelente dica musical da Pâmela Marques: 

Para quem já simpatizava com Los Hermanos ou The Strokes, vai ser fácil gostar dessa banda novinha em folha. Little Joy consegue unir o melhor dos dois grupos fazendo um som quase inédito. De onde vem a semelhança? O trio é formado pelo baterista do Strokes, Fabrizio Moretti e por Rodrigo Amarante, vocalista e guitarrista do Los Hermanos, além de Binki Shapiro, a bela e talentosa namorada de Moretti.

Tudo começou durante um encontro entre Amarante e Moretti, quando suas respectivas bandas tocavam em um festival de música em Lisboa, Portugal. A conversa entre os dois rendeu a noite toda e pela manhã já tinham um projeto musical desvinculado de suas bandas da época.

Mesmo com a intenção de produzir algo distinto, percebe-se nitidamente as batidas à la Strokes de Fabrizio e os acordes melódicos bem à Los Hermanos do violão de Amarante. No entanto, a mistura dos dois, pontuada pela linda voz de Binki dá o tom de ineditismo à Little Joy, que é só é “little” para imprimir o quê de melancolia e doçura que estão presentes em suas músicas.

O cd Little Joy foi lançado em Novembro pelo selo Rough Trade e a banda já passou pelo Brasil em Janeiro, tocando inclusive em Porto Alegre, no Bar Opinião.

Para quem quiser alegrar-se um pouquinho, recomendo o site onde estão disponíveis três canções do álbum http://www.myspace.com/littlejoymusic e uma conferida na performance caseira dos meninos, disponibilizada pelo Youtube (acima) (PM – 08/03/2009).

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Três meninas e um amanhã

 

Este “post” foi enviado por Pâmela Marconatto Marques, assídua leitora e comentadora deste Blog. A Pâmela é aluna do Mestrado em Integração Latino-Americana (MILA) oferecido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), além de graduada em Direito e em Ciências Sociais pela mesma Universidade. Pâmela, agradeço pela excelente sugestão musical e reitero o convite para que continues colaborando (ZK – 25/02/2009).

Três cantoras de carreiras sólidas, Rita Ribeiro, Teresa Cristina e Jussara Silveira unem seus repertórios e influências no CD e DVD Três Meninas do Brasil, que sai pela Quitanda, selo de Maria Bethânia. Com um quê de MPB, de cultura pop e de samba de raiz, o trio representa a miscigenação nacional. O registro audiovisual é resultado da apresentação no Teatro Municipal de Niterói, no Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 2008. O repertório escalado coloca lado a lado canções de Dorival Caymmi, Carlinhos Brown, Zeca Baleiro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Zé Ramalho, além de composições autorais. Duas das mais bonitas são “Maiúsculo” (acessível no link acima), de Sérgio Sampaio e “Menina amanhã de manhã”, de Tom Zé. Outra bela versão desta última, na voz de Mônica Salmaso em <http://www.youtube.com/watch?v=qDkI7irMO9s>

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Dois pianos: Patricia Barber e Hélène Grimaud

O que eu mais temia ocorreu: Patricia Barber gravou dez músicas de Cole Porter (The Cole Porter Mix, Blue Note, 2008) e eu não consigo parar de ouvir. Em plena hecatombe profissional de final de ano, o mundo pára e derrete quando ela toca Easy to Love (suspiros), Get out of Town e I concentrate on You. Há também 3 belas composições suas, inclusive esta do vídeo acima, Snow. Ouvi falar de Barber pela primeira vez no auge da “febre Diana Krall”, quando Luiz Fernando Veríssimo escreveu algo assim: Diana é só uma cantora que se acompanha no piano; jazz mesmo é Patricia Barber. 100% de acordo ! Vale ouvir tudo que ela gravou, principalmente o belíssimo CD de 2006, Mythologies (http://www.patriciabarber.com/). Para completar, oh, céus, Hélène Grimaud gravou Bach !!!! Até os machistas destroçados pela beleza da moça tiveram que reconhecer a qualidade excepcional desta gravação (Bach, Deutsche Grammophon, 2008). Há mais de uma década acompanho a carreira desta pianista francesa, ma préférée parmi tous, e sua interpretação do Opus 118 nº 2 de Brahms (peças para piano, 1892-3, gravado por ela em 1996) é o som que mais apraz esta minha humilde existência. Já em seu novo CD, primeiro álbum que ela dedica a Bach, o prelúdio da primeira faixa basta para fazer mesmo crer na alma humana. Algo se sente no filme seguinte: http://www.youtube.com/watch?v=o4ZQpNgmqPM. Mas o disco é muito melhor, não percam (D.V., SP, 27/11/08).

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Pastiche Nagô

Revue des lettresPara quem é bom sujeito (afinal, quem não gosta de samba…), vale conferir Kiko Dinucci e o Bando Afromacarrônico no CD “Pastiche Nagô”, lançado pelo selo independente Desmonta (dê uma olhada em http://www.myspace.com/afromacarronico). Eclético e saboroso, o som de Kiko, herdeiro de Adoniran Barbosa e artista multi-dotado (pinta, borda, esculpe, filma, etc.), leva letras divertidas e as cadeiras da gente junto com ele. Anotem este nome, ou melhor, requebrem este nome (D.V., SP, 02/10/08).

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Sou-cedilha, Marcelo Camelo

Lindo, lindo de doer o novo disco do Marcelo Camelo (chamado Nós-plantando bananeira ou uma espécie de Sou-cedilha, a depender de como o vivente segura a capa). Às vezes a música trucida o peito, como o piano da grande Clara Sverner tocando Saudade; ou ao escutar Santa Chuva, que Maria Rita havia banalizado em seu primeiro disco, e Marcelo recupera com uma franqueza de matar. Em outros momentos, o som cheira à circo, algodão doce, carrossel mesmo, como a sanfona de Dominguinhos em Liberdade. Nós ou Sou – dá vontade de dizer soul, por aquele pingo, ou será um pedal? ou um ponteiro que ficou por acertar? – … bueno, o disco traz, enfim, uma alegria genuína, não fosse por outra razão, a de ouvi-lo, boa nova da MPB que ele tem sabido ser desde os brothers. Em Porto Alegre, no dia 16 de outubro; em Sampa, 14-15 de novembro; de não perder por nada nesse mundo (D.V., SP, 02/10/08).

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O mistério do samba

Disse Hermeto Pascoal, respondendo a alguma pergunta monga, do estilo quem é a melhor cantora do Brasil, que Marisa Monte jamais poderia ser comparada à Elis Regina, pois Marisa ensaia tudo à perfeição, e nunca se atiraria na escuridão do abismo sem corda. Quem ouve Elis e Hermeto em Montreux (1980), sabe do que ele está falando – e, para o meu gosto, a irreverência daquela “Garota de Ipanema” dos dois é uma das coisas mais lindas e mais cheias de graça que existem (http://www.youtube.com/watch?v=8xtuXixwykw). O fato é que Marisa Monte é dona de um dos timbres mais belos já ouvidos sobre a Terra. Eu a escutei ao vivo, pela primeira vez, por incrível que pareça, em Paris, em 2000, num velho cinema transformado em casa de concertos, o Grand Rex, que tem o mezanino mais vertiginoso que já vi, ângulo agudíssimo, pura labirintite. No dia seguinte, o Le Monde dedicou a Marisa uma matéria inesquecível: “Deusa” e “rouxinol” foram pouco para defini-la. Tamanho foi o entusiasmo, que o jornalista Stephane Davet escreveu: todos os músicos da França deveriam ir fazer estágio no Brasil. Eu já a admirava, e tinha “Cor de rosa e carvão” (1994) como um dos grandes discos da MPB de todos os tempos. Depois daquela rica parceria com Nando Reis, Marisa reviveu os Novos Baianos num momento também feliz, embora requentado (”Barulhinho Bom”, 1996). Até entrar de cabeça na parceria com Brown e Arnaldo Antunes, que tem momentos interessantes, mas rebaixa nitidamente a estatura musical que ela já havia demonstrado. Depois da noite de grande inspiração no Grand Rex, vi Marisa diversas vezes no Brasil, sempre com músicos extraordinários, mas cada vez mais profissional, a ponto de seu último concerto solo (”Universo particular”, que vi em POA, em 2006) ter me parecido morno e descarnado, contradizendo, de certo modo, o frescor de sua pré-adolescência como compositora, revelada nos discos mais recentes.

No entanto, o papel que Marisa desempenha na MPB excede largamente seus próprios discos. Desde 1998, dando continuidade ao que Paulinho da Viola havia começado, ela tem resgatado a história do samba brasileiro, particularmente a da Velha Guarda da Portela, num trabalho que rendeu um disco (”Tudo azul”, 2000), uma série de shows e um documentário: O Mistério do Samba, que assisti ontem, numa sala de cinema quase vazia da Rua Augusta. As casas pobres dos sambistas lembram um pouco “Buena Vista” (Win Wenders, 1999). Todo o resto lembra a nossa alma. Quando S. Casemiro lança: “adivinha que idade eu tenho?”, alguém replica: “78!”, e ele suspira: “ah, quem me dera ter 78…” Sim, ele já cruzou os 80 há muito, e está lá sambando, firme, e ainda cobrando de D. Surica uns cornos que ela pôs nele pelos idos de 1950. Depois, Monarco explica porque, afinal, o samba pra ser bonito precisa de um bocado de tristeza, e nos incita a reacomodar nossas dores e saudades como notas, na harmonia de uma vida que não pode, não, parar pra sofrer: melhor cantar e partir pra outra. Já Tia Eunice diz que não entende quem se apaixona, porque amar loucamente “é palhaçada”. O seu olhar seco me fez sentir confortável em minha condição de palhaça juramentada. Peguei meu narigão redondo vermelho, meus olhos úmidos e os suspensórios imaginários, e saí dali torcendo para que muita gente veja este filme, um resgate da memória brasileira que serve de pretexto para resgatar também a simplicidade e a delicadeza da vida, longe da pirotecnia do cinema contemporâneo, e muito perto do nosso coração, esse pátio gostoso em que a gente toca e canta com nossos afetos (D.V., SP, 27/09/08).

Conheça os integrantes da Velha Guarda em: http://www.portelaweb.com.br/velhaguarda/velhaguarda-componentes.htm

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O amanhecer de Stacey Kent, et al.


Ela é americana, mas foi na França que ganhou um disco de ouro por Breakfast On The Morning Tram – que é de 2007, e eu só o descobri agora. Quem não conhece, não perca o trabalho da moça: http://www.myspace.com/staceykentmusic. Ela é doce como um solzinho esquentando os ossos. O repertório é lindo, em inglês e francês, com direito a música brasileira (Samba saravá, do Baden e do Vinícius) e a uma versão surpreendente de What a wonderful world - e eu pensei que jamais gostaria desta música numa voz que não fosse a do Louis Armstrong. Mas a maior das delícias é ouvi-la dizer, em Ces petits riens (vídeo acima): “Mieux vaut pleurer de rien/ Que de rire de tout/ Pleurer pour un rien/ C’est déjà beaucoup/ Mais vous vous n’avez rien/ Dans le cœur et j’avoue/ Je vous envie/ Je vous en veux beaucoup/ Ce sont ces petits riens/ Qui me venaient de vous/ Les voulez-vous ?/ Tenez ! Que voulez-vous ?/ Moi je ne veux pour rien / Au monde plus rien de vous/ Pour être à vous/ Faut être à moitié fou”. Com ela nos ouvidos, wonderful world mesmo !

Novidades do outono europeu: maravilhosa Melody Gardot, com seu Worrisome Heart (Universal, 2008); linda homenagem de Laïka Fatien a Billie Holiday, em Laïka Misery (Blujazz, 2008); Carla Bruni, em bregão e estranho disco novo, Comme si de rien n’était, mas a polêmica “Tu es ma came” é excelente – e ”Péché d’envie” e “Je suis une enfant” são bem boas; Julien Clerc, o Roberto Carlos da França, lança um disco de matar de rir, a começar pelo título “para onde vão os aviões quando eles se vão?”. As músicas também concorrem aos piores títulos de todos os tempos, com “Saia de lã”, “Fadinha”, “Incomode as pedras” , “Forçosamente”, etc., mas gosto dele. Do lado erudito, mestra e discípula dizem presente: a EMI lança uma coletânea de música para dois pianos do gênio argentino Martha Argerich, tudo de bom. Vi a venezuelana Gabriela Montero tocar como revelação, ao lado de Martha, ano passado, na Salle Pleyel. No bis, sozinha, Gabriela disse que improvisaria Bach: pediu para a platéia cantarolar um trecho ou dizer um nome de música. Bastava um assobio, e ela saía tocando todo o movimento maravilhosamente, legítima “chose de lóqui”, como dizia o Jô. Agora Gabriela mostra seu extraordinário talento em improvisações sobre música barroca (EMI, Baroque, 2008), com grandes momentos de Vivaldi e Handel numa fusão de estilos indescritível. Se este é o outono, imagina a primavera… (D.V., SP, 20/9/08)

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Ney, realmente inclassificável

O show “Inclassificáveis” é uma experiência sensorial única. Até pacatos senhores heterossexuais calvos, depois de alguns minutos de perplexidade, acabam por impulsionar freneticamente os respectivos troncos, aos gritos de “tesão” e “maravilhoso”. A concentração de feromônios no ar bombaria a escala Richter. Ora, não é novidade que Ney Matogrosso, desde sua estréia, tem marcado a música brasileira não somente pela voz extraordinária, mas pela sensualidade explosiva. Olhando para trás, ao menos dois momentos do Ney já haviam marcado também a minha vida: 1) nos anos 70, nas férias de verão, meus primos, minha irmã e eu, no auge da performática faixa etária dos 5-10 anos, massacrávamos o resto da família com nossos covers diários dos Secos e Molhados; 2) nos anos 90, Ney, numa fase intimista do seu repertório, tornou conhecido no Brasil, com um disco e uma tournée, o estupendo violonista Raphael Rabello, precocemente falecido, que venero, desde então, como o melhor dos melhores. Mas nesta temporada, Ney parece ter decidido fazer no palco tudo aquilo que só teríamos coragem de fazer num dia de imensa auto-estima em que não se teme o ridículo, e ainda assim apenas no banho, ou diante do espelho do guarda-roupa, com a porta do quarto trancada. O corpo de mais de 60 anos (e perfeito!) rebola, se esgueira, provoca, afronta, enquanto vai se despindo ao longo do concerto (já no tornozelo, eu estava louca). Entretanto, a dimensão sensual da arte de Ney é muito mais a política ausência de renúncia à sua animalidade do que o propósito de sua expressão artística, eis que a riqueza musical apresentada supera largamente a excitação que ele provoca (isto para quem consegue prestar atenção na música, claro). Seu repertório é eclético, eleito com notável cuidado e bom gosto – e cada vez mais nos damos conta da genialidade do Cazuza, da lindeza de um Jorge Drexler, etc. Brilhantemente arranjadas, mesmo as músicas que Ney já havia gravado (como minha preferida Novamente, do poderoso CD “Olhos de Farol”, 1999) são valorizadas pelo som da jovem e excelente banda que o acompanha. A iluminação e o cenário reforçam a convicção de que não se está num simples show: há muito de teatro, há dança, há moda nos atrevidos figurinos de Ocimar Versolato, há performance. O fio condutor das canções é, nitidamente, a incitação à vida e a coragem de ser por inteiro. Parece paradoxal, mas não é: em diversos momentos, Ney canta o envelhecimento. Dito deste modo, a gente só tem vontade de dizer “bem-vindos” aos anos que vêm por aí (D.V., SP, 10/08/08).

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Aureliano Tango Club, L’inmune

Fatal e propenso à fusão, o tango anda na moda em sua versão eletrônica. Cada um assimila o leve bate-estaca passional à sua moda. Lembro que o público brasileiro não quis dançar, ao menos nos shows do Bajo Fondo em São Paulo, e do Gotan em Porto Alegre (ambos em 2007) -quando a platéia gaúcha aplaudiu de pé uma lindíssima canção, creio que foi Philippe Cohen-Solal, um dos líderes do Gotan, quem gritou do palco: “por favor, não sentem” ! Já o jazz e o tango andam juntos há muitas décadas, com interferências mútuas, ou num gênero que se pretende mesmo ”tango-jazz music”. Não sei onde se encaixa exatamente o argentino Aureliano Marín, e pouco importa. O fato é que este jovem de Córdoba arrepia até a alma, tanto ao cantar suas composições, como quando bola estupendas versões dos clássicos (neste particular, valho-me do teatro para uma comparação: a gente pensa “Hamlet, de novo?”, mas quando vai assistir a um fenômeno como Wagner Moura na pele do Príncipe da Dinamarca, corrige rápido: “quando ele fará o Rei Lear ou Otelo?”). Pois o Aureliano gravou um primeiro disco independente, em 2005, o Cool Tango, em que encarou tangos maiores como Maquillaje e Pasional, mas deu mostras de versatilidade, passando pela folclórica Los ejes de mi carreta, de Yupanqui,  e por minha linda e preferida Milonga Sentimental. Ali havia apenas duas composições próprias, que passam a ser quatro no novo disco, L’inmune (2007, MCR Records). Ainda mais tangueiro, o álbum conta com nova banda: Esteban Ochoa no piano e Martín Rovaretti na percussão. Aureliano toca guitarra e baixo, e responde pelos arranjos e direção musical.  Ademais, sua voz grave vai rasgando o peito numa dor intensa e alegre, sobretudo nas belíssimas Cristal e Mano a Mano. O tango, tão dramático, parece natural na encarnação de Aureliano. Seu calor convida muito mais à dança do que o eletrônico, mas seguramente é de outro baile que se trata. Que esta moda chegue logo ao Brasil. E espero que o mundo, um dia, seja mesmo dominado pelos contrabaixistas (D. V., São Paulo, 13/7/08).

Veja mais sobre o Aureliano Tango Club em http://www.myspace.com/auretangoclub

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