Cidadão Boilesen

Já está passando na capital, no Instituto NT e no Cine Bancários, o excelente documentário “Cidadão Boilesen”. O cineasta e também funcionário da ONU Chaim Litewski demorou 15 anos preparando cuidadosamente este documentário. Sem nenhum exagero, ele contribui para reconstituir uma parte expressiva da nossa história perdida.

Henning Boilesen nasceu na Dinamarca e veio, ainda rapaz, para o Brasil, casado com uma brasileira que conheceu na Europa. Tendo escolhido a cidade de São Paulo para morar, ele construiu uma impressionante escalada profissional e social, transformando-se no Presidente do Grupo Ultra, que comandava, entre outras, a empresa Ultragás, líder no fornecimento de gás de cozinha no Brasil durante os anos 60 e 70.

O filme começa com um entrevistador perguntando aos transeuntes da Rua Henning Boilesen, na cidade de São Paulo, se eles sabem quem foi o homem que dá nome àquela rua. Ninguém sabe. Somente no final do filme um cidadão saberá dar a resposta, mas a esta altura, é claro, o espectador já saberá quem foi Boilesen (ou ao menos terá mais informações sobre ele) e o depoimento não estragará a surpresa.

Uma das qualidades do filme é que ele vai construindo pouco a pouco as características da personalidade de Boilesen e as circunstâncias que o envolveram, e o faz, inclusive, com depoimentos de parentes e pessoas que com ele conviveram, tanto na Dinamarca quanto no Brasil. Inicialmente, com fartura de imagens e reportagens da época, vemos um Boilesen jovial, atlético, generoso, simpático, figurinha carimbada em grandes recepções e eventos sociais, empresário preocupado com o bem-estar dos seus empregados, empreendedor de programas sociais promovidos pela empresa, incorpora o espírito malicioso e brincalhão dos brasileiros, entusiasta da miscigenação e grande apreciador das mulatas brasileiras, enfim, um cidadão modelo, segundo muitos daqueles que participam dos depoimentos da primeira parte do filme.

Na segunda parte do filme é que vemos o Boilesen que liderou a tropa de empresários paulistas no apoio e financiamento da Operação Bandeirantes – OBAN. A OBAN foi uma espécie de polícia secreta instaurada em São Paulo, então centro das ações da resistência militante. Era um órgão controlado pelo exército que envolvia policiais civis e que se constituía em uma espécie de esquadrão de extermínio e comando de caça que estava acima da lei, podendo prender quem bem entendesse, torturar e até matar. Este modelo de “órgão de segurança” exportou sua fórmula para os DOI-CODIs  dos demais Estados brasileiros.

Boilesen, segundo um amigo próximo relata, tinha verdadeiro ódio dos comunistas e despejava neles todo o seu lado sombrio, violento e agressivo, que, a partir deste momento do filme, começa a ser tecido também. Boilesen não só passou a sacolinha por empresas como a Ford e a Chevrolet, como também, além das generosas doações, forneceu veículos e caminhões da Ultragás para as ações dos agentes da OBAN. O documentário também menciona a participação da Empresa Folha da Manhã, a Folha de São Paulo, no empréstimo de veículos, utilizados para transportar pessoas presas clandestinamente e torturadas.

Leio o resto dessa entrada »

Postado em Anistia e Memória Política, Cinema | Sem comentários »

Contaminações fascistas – “A Onda”, de Dennis Gansel

Imagine um professor indagando seus alunos a respeito da possibilidade de uma ditadura novamente tomar os holofotes da política na Alemanha. Um dos pupilos responderia, na estranheza de uma averiguação iconoclasta, que tal advento não poderia sequer ser imaginado; ademais, enfatizaria: “estamos acima disso”. Imagine o desinteresse precípuo de uma turma escolar, o desinteresse em assuntos que digam respeito à história política, econômica e social da humanidade. O esforço imaginativo, sem dúvida, não seria de difícil envergadura; se estamos em vigília à própria capacidade de abstração, compreendemos o desinteresse de alguns, a falta de credibilidade de outros, realidade educacional pesarosa condizente não apenas com os patamares estudantis da Alemanha, mas com a de inúmeros países − nesse caso, o Brasil poderia ser incluído. Agora, imagine um professor predisposto a “revolucionar” o ensino − à sua própria maneira −, criando um método pedagógico de simulação; imagine uma aula sobre “autocracia”.

Autocracia não significa corrida de carro em crateras. De origem grega, a palavra deriva dos radicais gregos “autos” − por si próprio − e “cratos” − governo − havendo, de igual modo, derivações secundárias de significantes, com proximidades inefáveis às primeiras constituições de sentido − “auto” de próprio e “kratia” de poder. A convergência de capacidades discursivas da matéria infiltra a exploração de um terreno histórico amplo; com a parcimônia acostada aos olhos, autocracia denota um tipo particular político, onde o indivíduo ou grupo na liderança tem poder ilimitado para mudar as leis, se achar necessário. Imagine um professor perguntando a algum aluno um exemplo factível de “autocracia”; o Terceiro Reich, à primeira vista, é a resposta que está na ponta da língua, mas tratar-se-ia de uma temática repassada de modo reiterado nos bancos escolares, uma história de holocausto e deflagração de todo o tipo de horrores, menção de erros e culpas de “outros”, não das gerações presentes. Alguém poderia salientar: “não é questão de culpa, é questão de responsabilidade histórica”. Então outra indagação viria à tona e não calaria: outra ditadura seria possível na Alemanha?

Para além de acontecimentos os quais possivelmente poderiam desenrolar-se naquele país o qual há vinte anos dividia-se ideologicamente, pergunte-se: outra ditadura seria possível no Brasil? Leio o resto dessa entrada »

Postado em Anistia e Memória Política, Cinema | Sem comentários »

Repressão de Professores em Puebla-México

null
 
Foto: Tropa de choque do Governador de Puebla, Mario Marín Torres, se prepara para reprimir manifestação de professores. 

Recebi um e-mail de Elis Braz, aluna do jornalismo na UNISINOS, que no primeiro semestre deste ano me convidou para participar, juntamente com a Professora Paula Caleffi e algumas lideranças indígenas, de um programa de rádio que ela conduzia sobre o problema do julgamento da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol no Supremo Tribunal Federal. Neste e-mail, a Elis me conta um pouco sobre o trabalho que anda desenvolvendo em Puebla no México, local onde reside e faz o seu intercâmbio.

Divulgo aqui o documentário que ela ajudou a produzir e que denuncia a repressão violenta do governo de Puebla, ocorrida no dia 10 de junho de 2009, a uma reivindicação de professores, contrários à privatização da educação por lá, proposta defendida pelo governo. Aqui no Brasil, vemos e ouvimos ecos desse tipo de “tratamento” dispensado a movimentos populares e, em especial, a protestos realizados pela comunidade acadêmica. Basta lembrar dos recentes exemplos da USP e da “gentileza” do Coronel Mendes com os professores gaúchos em frente ao Palácio Piratini.

O link para assistir ao documentário (dura 10 minutos) é: http://apollocolectivo.blip.tv/file/2295299

Elis, parabéns pelo teu trabalho e pelo teu interesse e empenho em prol das lutas populares, tanto aqui como no México. Para explicar um pouco melhor o contexto que cerca o documentário, transcrevo abaixo parte do e-mail que recebi da Elis (ZK – 05/07/2009).

 

Escrevo para dividir com todos e cada um de vocês este documentário no qual estive trabalhando nos últimos tempos em parceria com o Apollo Colectivo.  O documentário trata da repressão exercida pelo governo de Puebla, México (cidade onde vivo), sobre um grupo de professores que se manifestavam contra a Alianza por la Calidad Educativa, que é uma proposta de privatização da educação no país.

 

A presidente do sindicato de maestros, Elba Esther Gordillo, é a favor desta implementação. Por todo o país professores em discordância formam novos sindicatos e se organizam para derrubar a proposta além de outras reivindicações.
 

Essa manifestacao foi reprimida pela policia com ajuda de policiais vestidos de civis, além de uma outra série de irregularidades. Fizemos um documentario sobre o caso, tem apenas 10 minutos e o espanhol mexicano é muito facil de compreender.

 

O México vive muitos conflitos sociais, um Estado pouco legitimado pelo povo e de muita repressão. Histórias de desaparecimento forçado e tortura são comuns em todos pueblos indígenas. São centenas de presos políticos e diversas irregularidades que se extremam pela violação dos  direitos humanos dos povos oprimidos.

 

Levamos este documentário ao Encuentro Continental en Contra la Impunidad, en Morelia, IV caracol zapatista. Representantes de diversos paises de todas américas estiveram aí, associações de desaparecidos, grupos de defesa de direitos humanos, da Guatemala, Paraguai, Argentina, Bolivia, Chile, Peru… muitos! Foi bem interessante, com algumas ressalvas pelo exercito zapatista, mas enfim, vale dizer que o unico representante brasileiro foi do MST.

Por fim, senti falta da sua presenca para situar o Brasil dentro dessa dor latina pela impunidade. Acompanho seus emails sobre a Caravana da Anistia e pela convivencia e experiencia que tenho tido aqui no México reconheco ainda mais a foca e o valor desse trabalho que vens fazendo (Elis Braz – 05/07/2009).

 

Postado em Anistia e Memória Política, Cinema, Notícias | 2 comentários »

Entre os Muros

 
null
Foto: Cena do Filme “Entre les Murs” (2008).

Finalmente consegui tempo para assistir à película “Entre les Murs”, traduzido por aqui para “Entre os muros da escola”. O filme, dirigido por Laurent Cantet, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado, e se baseia no livro homônimo de François Bégaudeau, que, inclusive, atua no filme na pele do Professor François Marin.

 

Ao ver o filme anunciado nos jornais e nos cartazes de cinema fui levado, em uma primeira e pueril impressão, a imaginar que se tratava de mais um daqueles filmes sobre sala de aula que desfilam conhecidos estereótipos: o aluno bagunceiro, as bonitinhas e bonitinhos sem cérebro, os inteligentes feios e esquisitos e, é claro, o professor perfeito que em arroubos Robinwilliannianos leva seus estudantes a subirem em cima das mesas e a gritarem: “Oh capitain, my capitain!”; ou o professor que no início é durão, mas que revela depois um coração de manteiga disposto a ajudar os mais desajustados (vide Sidney Poitier em “Ao mestre com carinho”); ou, o professor gente boa de paciência e ternura infinitas, que enfrenta toda a burocracia das escolas em benefício dos seus alunos, chegando quase a se envolver sentimentalmente com uma de suas alunas (o Mr. Holland de Richard Dreyfuss); ou, finalmente, o professor meio malucão capaz de se tornar mais adolescente que os seus próprios alunos e dar-lhes verdadeiros exemplos de vitalidade e ousadia (como o roqueiro de Jack Black em “Escola de Rock”).  

 

Na medida em que o filme começou a ficar falado, suspeitei de que talvez ele não se encaixasse nos estereótipos mencionados. De todo modo, evitei ao máximo ler qualquer coisa sobre ele antes de conseguir vê-lo, com exceção de um e-mail recebido de Júlia Lafayette Pereira, estudante de Direito da UFSM, e que foi o estímulo final para que eu me dirigisse o quanto antes a uma sala de projeção. Eis o teor da dica da Júlia: “O filme é realmente genial, um retrato fiel de um dos problemas sociais que a França enfrenta em relação aos imigrantes originários de ‘países periféricos’.  Rodado em uma escola nos subúrbios de Paris, região amplamente habitada por esses imigrantes, o filme mostra o choque cultural entre as diversas nacionalidades (nativos x estrangeiros e também entre os últimos).  Retrata, igualmente, problemas universais em relação à crise do ensino escolar, educação doméstica, entre outros. As atuações são excelentes, ainda que o elenco seja composto por não-atores. Em síntese, fazia tempo que não via um filme realmente tão bom”.

 

Concordo com a Júlia. Realmente o filme é muito bom. Em primeiro lugar porque desconstrói os lugares comuns dos tradicionais filmes de colégio. Não há salvações ou lições inesquecíveis. Não há professores perfeitos dispostos a qualquer sacrifício para o bem dos seus alunos. Não há, do mesmo modo, diretores cruéis e inflexíveis. Na minha condição de professor não pude deixar de acompanhar com mais interesse o que fazia ou o que demonstrava sentir o François, professor de francês da sétima série de uma escola pública da periferia parisiense. Talvez tenha sido o professor mais humano que já vi retratado nas telas. Ora mais doce e compreensivo (especialmente com os alunos que reagiam positivamente às suas estratégias pedagógicas, e, em especial, com o aluno prodígio da turma, o chinês Wey), ora duro, impiedoso e disciplinador (o que acontece nas aulas em que certos alunos resistem às suas estratégias, como a africana Khoumba, interpretada por Rachel Régulier, quando se recusa a ler uma poesia durante a aula). François transparece a hesitação, a dúvida sobre se tomou a melhor atitude ou se forneceu a melhor explicação, mas também demonstra, ao mesmo tempo, a capacidade de dialogar com seus alunos, aprender com eles e se surpreender com a realidade cultural diferente da qual procedem (a sala conta com descendentes de árabes, africanos, chineses, latinos, franceses, góticos, rappers, etc).

 

Em certos momentos do filme, evidencia-se o acerto do professor em estimular o desenvolvimento das habilidades e competências dos seus alunos. Quando, por exemplo, consegue valorizar e envolver o aluno-problema Souleymane na elaboração do seu auto-retrato, permitindo que, ao invés de ele escrever um texto padrão que revelasse seus sentimentos e personalidade, baixasse fotos do seu celular e escrevesse seu auto-retrato na forma de legendas para as fotos. A atuação desse menino no filme, o jovem ator Franck Keïta, aliás, é digna de elogios, alternando olhares maliciosos, orgulhosos e enfastiados diante da insistência do professor para que ele se envolvesse na aula com olhares lânguidos e desprotegidos nos momentos em que é recriminado pela direção da escola por suas “proezas” de indisciplina.

 

Em outros momentos, contudo, o professor François é capaz de ser vingativo, agressivo e dissimulado, chegando, em um dos momentos de maior tensão no filme, a chamar de “vagabundas” duas alunas que desafiavam a sua autoridade e a omitir tal circunstância no relatório que fez para a direção, na tentativa de evitar que as coisas se complicassem para o seu lado.

 

Quando saí da sala de projeção, me senti com certa claustrofobia. O filme conseguiu me fazer sentir na pele o seu próprio título. As duas horas de projeção se passam literalmente entre muros, mas não só dos “muros da escola” (tanto que o título original é só “Entre os muros”). São muitos os muros que se impõem nas relações entre os personagens: o muro da hierarquia (diretor, conselho de classe, professor, alunos), o muro da linguagem (as gírias dos alunos, o francês culto, burguês e esnobe do presente do subjuntivo – questionado em uma das passagens mais criativas do filme – as barreiras lingüísticas entre os pais chineses, maleses e os professores da escola), o muro étnico (discussões sobre futebol entre os alunos de origem africana e provenientes de etnias distintas, as dificuldades de entendimento do professor quanto a certas atitudes e hábitos culturalmente distintos dos seus), o muro religioso (o aluno Souleymane, que traz uma passagem do Corão tatuado no braço), o muro social (a aluna Esmeralda que embora tenha nascido na França não se considera francesa, pois se sente excluída da comunidade, e outra aluna que acha sua vida desinteressante, pois só come, dorme e vai pra escola), e outros muros que evocam símbolos murados espalhados pelo mundo todo (fronteira do México, Favelas do Rio, Campos de Concentração, Bloqueios econômicos, Muro de Berlim, etc).

 

A sensação de claustrofobia é intensificada pelo foco da câmera que, ao longo, dos constantes diálogos chega muito perto dos rostos, das carteiras e cadeiras e se movimenta constantemente. As tomadas distantes se enquadram sempre entre as paredes da escola. O intervalo ou recreio é vislumbrado de cima, assemelhando-se a um banho de sol no presídio, com pouco espaço para as diferentes atividades que ali se dão (esportes, conversas, alimentação, descanso). Isto sim é que é show de realidade: uma obra cinematográfica que dilui as fronteiras entre o documentário e a ficção, trazendo um tema real de modo real, mas sem abrir mão do roteiro e da construção dos personagens.  

 

O filme nos estimula, assim como François a seus alunos, a fazer um auto-retrato: da nossa sociedade e do nosso papel nela, das infinitas teias de relações, algumas construtivas, outras destrutivas e outras indiferentes. Uma indiferença que pode se tornar forte e inquietante quando é percebida, como acontece na cena quase final do filme no momento em que uma aluna (que eu já notava desde o início do filme como alguém que estava totalmente à parte do processo, ou como se diz: “boiando completamente”) confessa ao incrédulo professor que não aprendeu absolutamente nada, que não entende o que estavam fazendo ali e que não pretende continuar a estudar (ZK, 02/05/2009).   

Postado em Cinema | 2 comentários »

PPGD UNISINOS no Encontro da ABEDI

PPGD UNISINOS

 

 

 

O Programa de Pós-Graduação em Direito da UNISINOS terá presença marcante no Encontro da ABEDI (Associação Brasileira de Ensino do Direito) a ser realizado no Rio de Janeiro entre os dias 16 e 18 de abril nas dependências da Fundação Getúlio Vargas. O encontro tem como tema central a “profissionalização e identidade docente”. O original do evento é que em vez de relacionar mesas e palestras que reúnam todos os participantes e inscritos, nos moldes dos tradicionais Congressos e Seminários, serão realizadas Oficinas e Mini-Cursos que reunirão as pessoas efetivamente interessadas em discutir os temas propostos.

 

As oficinas propostas pelos professores José Carlos Moreira da Silva Filho, Jânia Maria Lopes Saldanha e Deisy Ventura (que até novembro de 2008 fazia parte do corpo docente do PPGD UNISINOS) foram aprovadas pela organização do encontro. São elas: “Democracia, jurisdição e cinema” (Jânia Saldanha e alunas do PPGD); “Direito e arte: música e caricatura” (Deisy Ventura e alunos do PPGD); “Direito, literatura, cosmopolitismo” (Jânia Saldanha e alunos do PPGD); “Educar para o mundo: refundar o ensino do Direito Internacional no Brasil” (Deisy Ventura e alunos do CPGD/UFSC); e “O resgate da memória política nas aulas de Direito como estratégia para a formação cidadã e o fortalecimento da democracia – A Justiça de Transição e a discussão da Lei de Anistia no Brasil” (José Carlos Moreira da Silva Filho, alunos do PPGD e membros da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça).

 

Conforme está no site do encontro, onde poderão ser obtidas informações sobre inscrições e programação (http://abedi-rio2009.com), as oficinas têm como objetivos:

  • Promover o debate horizontal de problemas concretos relacionados ao ensino jurídico, em especial quanto à profissionalização e identidade docente;
  • Possibilitar o compartilhamento de experiências relacionadas à atividade docente, compreendendo sala de aula, gestão de curso, atividades complementares, prática jurídica, trabalho de conclusão de curso, pesquisa, extensão, dentre outras;
  • Elaboração de diagnóstico de problemas concretos e eventuais projetos de pesquisa a serem desenvolvidos conjuntamente com os participantes da oficina. Estes projetos, se concluídos, serão incluídos na programação do Congresso Nacional da ABEDi, em 2010.

Para poder visualizar o teor das propostas dessas e de outras oficinas (são vinte ao todo), acesse o site do Encontro.

 

As oficinas da Profa. Deisy Ventura e do Prof. José Carlos possuem, cada qual, um blog exclusivo no qual já estão à disposição maiores informações, links e material bibliográfico visando uma melhor preparação dos interessados. Eis os respectivos endereços: http://direitoearte.blog.lemonde/fr , http://educar-para-o-mundo.blogspot.com  e

http://memoria-politica.blogspot.com      

A Profa. Jânia Saldanha também acaba de estrear um blog sobre as suas oficinas. O endereço é: http://direitocinemaliteratura.blogspot.com   

Postado em Agenda, Anistia e Memória Política, Cinema, Desenho, Literatura, Notícias | Sem comentários »

Revolutionary Road

 

“Foi apenas um sonho” (Revolutionary Road, 2008)  é um filme para sonhadores. Não para aqueles que sonham com insípidas e infantis histórias de amor (como aquela que aparece em Titanic). O sonho que escorre pelos dedos de Frank e April Wheller (magistralmente interpretados por Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, que aqui se redimem de Titanic) é o sonho de sermos autênticos. 

Frank e April são jovens, bonitos e se acham especiais (quem não se acha?). Mais do que isso, todos afirmam que eles são especiais. Os Wheller são um excelente e perfeito protótipo do happy couple dos anos 50: moram em um tranqüilo e pacato bairro do subúrbio, em uma casa grande com um vasto gramado sem cercas; ele é um vendedor bem sucedido economicamente, faz parte de uma grande empresa e tem seu lugar assegurado em uma das inúmeras baias que se alojam nos andares de um alto prédio no centro da cidade; ela, por sua vez, é dona de casa caprichosa e mãe atenciosa com seus dois filhos, freqüentemente visitada por suas vizinhas; internamente a casa dos Wheller exibe aquele conforto morno e pastel dos carpetes, dos abajures, das mesas de centro, do piso de madeira, das telas nas portas dos fundos, dos sofás grandes, fofos e discretos, enfim de toda uma estética contida e calma, sem cores fortes e formas ousadas, que lembra o ambiente sufocante no qual a personagem de Juliane Moore em “As Horas” se afoga de tristeza.

Para muitos o verdadeiro sonho americano (devidamente exportado para todo o mundo capitalista) orbita em torno desse lay-out. O problema, porém, é que todo esse conforto de morfina não garante que seus protagonistas sejam felizes ou se sintam realizados, autênticos ou intensamente vivos. Frank odeia o seu trabalho, despreza seus colegas e superiores e maldiz o fato de ter se tornado, assim como o seu pai, apenas mais um funcionário e burocrata da mesma empresa. A sua condição de “especial” é contrariada pela imagem de um batalhão de homens, todos de chapéu, pasta, terno, gravata, jornal e guarda-chuva, em tons que variam do cinza ao azul claro, e em meio aos quais Frank se mistura para pegar o trem que leva ao centro da cidade. April, por sua vez, estudou artes cênicas e vê, logo no início do filme, sua possível carreira de atriz ser completamente desacreditada em uma exibição mal sucedida, assistida também por um constrangido e desconfortável Frank. Apenas passos são o que se ouve no corredor de saída do teatro. Frank à frente, inconformado com a frustração da esposa, como se talvez ela o espelhasse, como se talvez ela estivesse querendo pular no abismo que se esconde atrás daquela vida que levam. Atrás, April só quer ficar só e calada. Vê-se que ela é quem está mais próxima de forçar o limite, que ela quer sair da “armadilha”, e que Frank se debate para manter a arapuca intacta.

No dia do seu aniversário, porém, toda aquela placidez insatisfatória torna-se especialmente insuportável para Frank, e é quando April lhe propõe que abandonem tudo e se mudem para Paris, concretizando antigo sonho de juventude de Frank. Ela quer trilhar a Revolutionary Road (que também é o nome da estrada que fica perto da sua casa e que leva para fora da cidade), mas não pode fazê-lo sozinha. Com relutância Frank aceita a idéia. Ambos passam a viver intensamente a possibilidade da ruptura. Seus vizinhos ficam assombrados e admirados, procurando desesperadamente se convencerem de que tudo não passa de uma aventura inconseqüente pela qual não vale à pena largar uma vida sem emoções fortes, mas com estabilidade e conforto. Os colegas de trabalho de Frank permanecem incrédulos, como se vislumbrassem algum alienígena, cuja linguagem não compreendem.

A única pessoa que parece entendê-los é o filho da vizinha interpretada pela veterana Kathy Bates. John, na excelente interpretação de Michael Shannon (que foi, inclusive, indicado ao Oscar), é paciente psiquiátrico que, tratado à base de choques elétricos na cabeça, é liberado para passar alguns dias na casa dos seus pais. Ao contrário da sua mãe e de grande parte da sociedade que o cerca, John não tem papas na língua, deixa fluir o estrondo das suas palavras diretas e cortantes e dos seus gestos únicos e totais, tornando-se a voz da lucidez em um mundo anestesiado. Os Wheller sentem o poder desta presença quando contam os seus planos de mudança para John, que, admirado, diz: “Muito poucos têm a coragem de encarar the emptiness hopeless”, expressão usada por Frank para descrever a vida que pretendiam abandonar. John é, by far, a pessoa mais sã e lúcida de todo o filme (com ecos machadianos de “O alienista”).

 Vale muito a pena assistir a película: dirigida de modo sensível e competente por Sam Mendes (o mesmo de “Beleza Americana”); estrelada por Kate Winslet (ganhadora do Globo de Ouro pelo trabalho), Leonardo Di Caprio (indicado merecidamente ao Globo de Ouro) e Michael Shannon (indicado ao Oscar, mas tendo o azar de o ser bem no ano do Coringa de Heath Ledger); baseado em verdadeiro best-seller de Richard Yates publicado em 1961; com fotografia e figurino de época impecáveis; e com uma cena final desconcertante e genial. Quero registrar, inclusive, que o trabalho de Kate Winslet neste filme é memorável e, para mim, mereceria o Oscar ainda mais do que o também excelente papel de Hannah Schmitz em “O Leitor”. Winslet nos transporta às sutilezas interiores de April Wheller, construindo um grande personagem, para quem, inclusive, ficam simbolicamente depositadas minhas respeitosas homenagens do Dia da Mulher.   

 Eis um filme que descreve com sensibilidade o vazio existencial que arrasta boa parte das chamadas “pessoas de bem”, presas em casamentos cimentados pela conveniência e pela covardia, pressurosas em preencher seus vazios com objetos e planos sem real importância, ávidas em se convencerem mutuamente, em reuniões sociais e em visitas familiares, de que não são coadjuvantes das suas vidas, de que fazem parte de algum grande plano que em algum dia mágico será revelado e virá lhes libertar. Essa armadilha ronda a todos nós, assim como também a consciência profunda e sufocada de que estamos amortecidos. Talvez por isto todos achassem os Wheller especiais, porque pressentiam que eles poderiam tentar viajar na Revolutionary Road. Para ver onde esta estrada vai dar, veja o filme, ainda em cartaz na cidade de Porto Alegre (ZK 08/03/2009). 

Postado em Cinema | 11 comentários »

Paradise Now

 

Mal rompeu o ano de 2009 e já estamos estarrecidos com mais um extermínio em massa. Nada justifica a ofensiva desproporcional e cruel empreendida por Israel. Mais de 600 mortos entre crianças, mulheres e idosos. Escolas, que serviam de abrigo aos que fugiam dos ataques, bombardeadas. Incontáveis feridos sem o direito a serem atendidos por serviço médico, sem fornecimento de água, víveres e energia, sem o direito a terem sequer as suas tragédias contadas, já que a imprensa está impedida de entrar.

É preciso entender que o Hamas não é simplesmente um grupo terrorista fanático e extremista. É verdade que dentro dele há grupos armados que realizam atividades terroristas sim, mas, por outro lado, o Hamas representa grande parte da população palestina, e desenvolve atividades culturais, assistenciais e religiosas. Os sofredores cidadãos palestinos vivem confinados e cercados de violência por todos os lados, com pessoas fortemente armadas controlando suas fronteiras e o seu deslocamento e que atuam segundo a lógica militar (eliminação do inimigo). O belíssimo filme “Paradise Now”, dirigido pelo palestino Hany Abu-Assad, ganhador do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 2005 e tendo inclusive sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro naquele mesmo ano (pela primeira vez um filme representante da Palestina realiza tal feito), nos mostra com o lirismo tão próprio das situações mais cruas e dos relatos mais diretos e venais, a realidade cotidiana daquele povo: Parentes que para visitarem seus familiares têm de se submeterem a constantes controles militares, tendo os caminhos bloqueados (assim como Cuba amarga há décadas um injustificável e escandoloso bloqueio econômico), vivendo sob o signo da inconstância, da insegurança, da violência e da falta de mínimas condições materiais.

O filme mostra que o interminável conflito entre palestinos e israelenses não tem apenas uma raiz religiosa. Trata-se de uma questão profundamente política e que afeta de modo contundente os mais comezinhos detalhes das vidas dos envolvidos, com o agravante de um desproporcional equilíbrio de forças, seja no plano bélico, econômico, poltíco e internacional em desfavor da Palestina. Ao relatar as quarenta oito horas que antecedem o sacrifício de dois homens-bomba (interpretados magistralmente por Kais Nashef e Ali Suliman) o filme desmistifica muitos estereótipos e mostra, antes de tudo, a difícil e aflitiva situação do povo palestino. Mas faz isto sem descuidar da realidade israelense e sem fazer a apologia dos atentados terroristas. Evidencia que a saída para o impasse não pode ser a das armas e a da violência. É preciso acabar com este conceito (aceito tão facilmente e tão difundido pelo mainstream estadunidense) da guerra justa, da violação dos direitos humanos em nome dos direitos humanos. Já é tempo de se levar a sério a possibilidade de se construir tanto uma política nacional quanto uma internacional que respeite os direitos humanos, que não os descarte tão facilmente.

Que os Estados Unidos não se importem tanto em ter na guerra uma das suas principais políticas pode até ser explicado pelo fato de o país nunca ter experimentado a ocupação estrangeira e hostil do seu território, ou ainda a devastação que a Europa sofreu durante as grandes guerras, mas que um povo como o israelense, que tem na sua memória o holocausto, seja protagonista, através do seu governo e de amplos setores da sua sociedade, de um genocídio como o que está sendo promovido contra os palestinos é algo que nos estarrece. Eis mais um exemplo de como é vital o cultivo da memória política e do não esquecimento das bárbaries sofridas no passado: “lembrar para que não aconteça novamente” (ZK, 07/01/2009). 

Um dos melhores textos disponíveis sobre o genocídio que segue curso na Faixa de Gaza é a entrevista concedida pela Profa. Deisy Ventura à Rádio Gaúcha no dia 29/12/2008. Não deixe de conferir.    

Postado em Anistia e Memória Política, Cinema, Notícias, Opinião | 4 comentários »

AI-5 – Nossa Memória Não Esquece, Isto Ainda Acontece

seminario-justica-de-transicao-e-postes-ai-5-069.jpg 

Poucas sextas-feiras 13 fizeram mais jus à fama de mau agouro do que a sexta-feira de 13 de dezembro de 1968. Naquele dia, o Conselho de Segurança comandado pelo então presidente Costa e Silva aprovava um dos mais infames decretos já instaurados no Brasil, aquele que ficou conhecido por deflagrar o “golpe dentro do golpe”. O AI-5 foi a espinha dorsal jurídica da repressão, suprimindo o habeas corpus, cassando centenas de mandatos eletivos, propiciando a demissão de milhares de trabalhadores, seja do setor público ou privado, dando ensejo à expulsão de inúmeros estudantes e professores e deflagrando de modo escancarado a tortura e a eliminação física de cidadãs e cidadãos brasileiros. Imaginem como foi aquele Natal para milhares de famílias…Creio que o famoso bordão de Jarbas Passarinho resume tudo: “às favas com os escrúpulos de consciência!”

De um modo bastante original, a ELAOPA (Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas) decidiu marcar os 40 anos do AI-5 na cidade de Porto Alegre, colando em postes da cidade as fotos de ex-militantes políticos assassinados e desaparecidos. A foto acima foi tirada por mim na Av. Protásio Alves, Bairro Rio Branco, um pouco depois da Rua Dona Leonor.  De cima para baixo: Carlos Marighella, Ana Maria Nacinovic Correa, Dinalva Oliveira Teixeira (a Dina) e Vladimir Herzog. Outras atividades estão previstas para esta semana em Porto Alegre. Todas elas acontecerão a partir das 19:30h no Território Cultural da Tribo de Atuadores Ói nóis aqui Traveiz, situado na Rua João Alfredo (a mesma da boemia porto alegrense da Cidade Baixa) número 709. Vale a pena conferir! Veja abaixo a programação da semana, que conta com debates, exibição de filmes, performances teatrais, exposições e até ato de rua na Praça da Alfândega. Confira também aqui a reportagem que saiu no domingo passado (07/12/08) sobre os bastidores que cercaram o surgimento do AI-5, e que conta com o depoimento de uma das pessoas que participou deste momento tão triste da história brasileira, Rondon Pacheco, o ex-chefe da Casa Civil do governo Costa e Silva (ZK 08/12/2008). 

“Um povo que não conhece o seu passado também não tem futuro.”

Programação:
08/12-segunda-feira:
Apresentação teatral: O canto da terra, grupo Levanta Favela
Mesa: Enrique Serra Padrós: Professor de história da UFRGS, Suzana Lisboa: militante dos direitos humanos de Porto Alegre, Bruno Lima Rocha: militante de rádio comunitária e cientista político.
Exposição: “Memória Em Preto e Branco”, do artista-plástico Tharcus Aguilar.
Local: Território Cultural da Terreira da Tribo: João Alfredo, 709.
Hora: 19h

09/12-terça-feira:
Vídeo-debate: Com o filme Pra Frente Brasil, de Roberto Farias.
Local: Território Cultural da Terreira da Tribo: João Alfredo, 709.
Hora: 19h30min

10/12-quarta-feira:
Vídeo-debate: Com os documentários: Y cuando sea grande e Operação Condor.
Local: Território Cultural da Terreira da Tribo: João Alfredo, 709.
Hora: 19h30min

11/12-quinta-feira:
Apresentação teatral: O Amargo Santo da Purificação, construção coletiva da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.
Ato de rua: AI-5: Nossa memória não esquece, isso ainda acontece!
Local: Praça da Alfândega
Hora: 12h

Vídeo-debate: Com o filme Chove Sobre Santiago de Helvio Soto
Local: Território Cultural da Terreira da Tribo: João Alfredo, 709.
Hora: 19h30min

12/12-sexta-feira:
Vídeo-debate: Com o filme Crônica de uma fuga, de Israel Adrián Caetano
Local: Território Cultural da Terreira da Tribo: João Alfredo, 709.
Hora: 19h30min

         

Postado em Agenda, Anistia e Memória Política, Cinema | Sem comentários »

Two Lovers e Vicky Cristina Barcelona


Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, é exatamente o contrário de Two Lovers, de James Gray, embora os filmes comunguem a temática da pretensa oposição entre viver uma grande paixão, ou permanecer numa relação morna e segura. Mas ambos ultrapassam largamente este mote, Vicky em direção ao riso e ao erotismo, Two Lovers rumo à melancolia e ao desespero. Enquanto o personagem Juan Antonio de Allen diz tudo, o Leonard de Gray quase nada diz. Ambos, porém, fazem muito, em grandes performances de, respectivamente, Javier Bardem e Joaquin Phoenix.

Two Lovers é um filme sobre o Plano B. Sobre como somos capazes de nos lançar a fundo na primeira relação que passa pela frente, justo quando amamos desesperadamente a um outro, que parece impossível ou que simplesmente não nos ama. Muitas vezes, quando a loucura passa, já nos vemos enredados no Plano B e ele se torna o Lado A. Mas o filme trata do processo, do salto entre um carro e outro em movimento, e não do que veio a ocorrer depois. Parece um pequeno tratado da relação entre o amor e o acaso. Lembrei destes sujeitos que passam a vida numa sucessão de casos superficiais sob o pretexto de estar em busca “do” grande amor, depois acabam casando com a pessoa mais banal do mundo e levando a mais morna das vidas. Quase sempre dizem que cansaram de procurar, mas dificilmente assumem que pouco escolheram: a “felizarda” estava passando por acaso naquele momento, e veio a calhar (e parece que a tal busca, na verdade, era apenas uma fuga das ligações profundas e arriscadas, as que tiram pedaços, que não deixa de ser legítima, aliás).

O que de fato me surpreendeu ao ler as sinopses e críticas destes dois filmes foi a constante referência à “escolha” de Leonard ou à “escolha” de Vicky, que teriam “preferido” uma relação estavel à aventura da paixão. Ora, nem Leonard nem Vicky escolheram o destino que tiveram. Sandra amava Leonard que amava Michelle que amava outro cara, casado e rico. Para Michelle, representada pela insossa Gwyneth Paltrow, Leonard não era nada, depois se tornou, voluntariamente, um Plano B. Já para Leonard, Sandra (na pele de Vinessa Shaw) era o Plano B, que vingou somente porque Michelle conseguiu conquistar o seu próprio Plano A (o seu amante abandonou a esposa, logo Michelle abandonou Leonard). A escolha de Leonard, na verdade, foi outra: entre o Plano B=Sandra e o suicídio, sombra constante num filme que tem, aliás, um belo domínio da luminosidade.

Caso a trama tivesse uma continuação, provavelmente Leonard repetiria, depois de alguns anos de casado com Sandra, a frase que pronunciou dias antes de se apaixonar por Michelle: às vezes penso que estou morto. Contudo, caso tivesse partido com Michelle, o próprio Phoenix declarou que, em sua opinião, a amada chutaria Leonard em 15 dias. No cinema, é facil ver quão patética é a dedicação do apaixonado a alguém que não o ama. Na realidade, mil vezes infelizmente, é bem mais difícil perder a esperança, porque ela não é racional. Nunca Leonard pôs em questão sua decisão pela aventura insana: na frente do sogro, prometendo amor eterno à Sandra, ele já havia organizado a fuga com Michelle e tinha nas mãos o anel de brilhantes que ofereceria a ela (detalhe: foi divertido ver Isabella Rossellini, a doida de Veludo Azul, cult dos anos 80, representar, e bem, a mãe judia de Leonard).

Já a simpática Vicky de Rebecca Hall tinha como rivais ninguém menos do que Maria Elena (Penélope Cruz) e Cristina (Scarlett Johansson), amantes de Juan e entre si; para o meu gosto, um dos triângulos mais lindos do cinema. Literalmente, cruzes! Logo, pessoa sem maiores arroubos ou dotes físicos, Vicky estava segura de que Juan Antonio nunca a amaria. Ainda assim, seguiu gravitando em torno do trio arrebatador, e finalmente tentou a sorte. Tornou-se o Plano B do guapo por alguns minutos, abandonado que ele estava pelas duas divas surtadas, até que uma delas voltou e pôs fim bruscamente à brincadeira. Enfim, ao contrário do que vêem os olhares menos detidos, Vicky e Leonard escolheram a aventura, mas a aventura não os escolheu. Em qualquer caso, a franqueza de Juan Antonio, o desconcerto mas depois a qualidade das relações que sua ousadia ocasiona, é o que de melhor vi no cinema nos últimos tempos, e sem dúvida é o que eu gostaria de ver na “vida real” com bem maior freqüência (Paris, D.V., 23/11/08, para a Luciana – Lu, viva e franca, que me recomendou Vicky).

Postado em Cinema, Opinião | 2 comentários »

A Sete Palmos

 

Six Feet Under ou “A Sete Palmos” é uma série produzida pela HBO, que foi ao ar em 2001 e terminou na quinta temporada, em 2005. A série foi criada pelo genial Alan Ball, o mesmo roteirista de Beleza Americana.

Na última quinta-feira, finalmente acabei de assistir a série toda (em Porto Alegre, pode ser locada na Espaço Vídeo) e confesso que fiquei realmente extasiado. Foi um dos mais belos trabalhos que já tive a oportunidade de ver nas telas. Impecável, do início ao fim. E que fim! E que começo!  Leio o resto dessa entrada »

Postado em Cinema | 4 comentários »

« Entradas prévias