
Foto: Mães da Praça de Maio, na Argentina.
Costuma-se brincar que o dia 08 de março é o dia da mulher enquanto os outros 364 dias são do homem. Costuma-se dizer também que toda brincadeira tem o seu fundo de verdade. A verdade por trás desta brincadeira é que ainda vivemos em uma sociedade profundamente machista. A existência de uma data comemorativa da mullher é um importante lembrete anual das lutas e sofrimentos padecidos não somente pelas mulheres mas também pelos homens que conseguem compreender a necessidade do tratamento igualitário, e que não aceitam os dogmas discriminatórios que aparecem nos mais diferentes espaços, muitas vezes disfarçados de discurso progressista ou algo que o valha.
Em meio às inúmeras histórias e exemplos de luta e coragem de mulheres que fizeram questão de exercer sua cidadania e fazer suas vozes serem ouvidas, dou destaque aqui às bravas mulheres brasileiras que se insurgiram contra a ditadura no país, negando-se a se conformarem com o desrespeito maciço dos direitos fundamentais: de opinião, de ir e vir, de credo, de associação, de integridade psicofísica, à vida.
Ontem, no dia 08 de março, essas mulheres foram homenageadas em uma sessão especial da Comissão de Anistia na qual foram apreciados requerimentos de mulheres lutadoras, que pagaram com seu corpo, espírito e projetos de vida a ousadia de se fazerem ouvir em uma época de silêncios. Nesta sessão, na qual participaram apenas Conselheiras da Comissão de Anistia, foram anistiadas: Ana Lima Carmo Montenegro, Celeste Fon, Maria Cândida Raizer Cardinalli Perez, Isa Mariano Macedo, Maria Beatriz de Albuquerque David, Maria da Glória Lung, Denise Fraenkel Kose, Vera Lúcia Marão Sandroni, Elizabel Maria da Paixão Couto, Maria Alice Albuquerque Saboya, Vera Lucia Carneiro Vital Brazil, Vitória Lúcia Martins Pamplona Monteiro, Maria Inêz da Silva, Maria Albertina Gomes Bernaccio, e Helena Sumiko Hirata.
Uma das anistiadas, Maria Alice Albuquerque Saboya, entregou uma bela carta-depoimento que agora eu aqui transcrevo, situando-a como a homenagem que faço ao Dias das Mulheres (ZK – 09/03/2010).
É muito difícil falar de minha vida como falei para vocês. É difícil recompor uma trajetória que tem início nos meus 18 anos de idade ,quando comecei minha militância em movimento estudantil em 1968, e termina em 1979 com a minha volta ao Brasil em função da Anistia. Foram várias etapas de muito sofrimento, muita dor, muita angustia e indignação como as que relatei, mas também um período de muito afeto, de muita demonstração de solidariedade pelo mundo afora.
Temos um companheiro muito próximo, que diz que esse período em nossas vidas foi o período onde podemos dizer que “atingimos um dos mais altos graus de dedicação, renúncia e despreendimento que um ser humano pode alcançar”.
A dor abre feridas, que muitas vezes não se recompõem completamente na vida de uma pessoa, mas o tempo, o carinho, a cumplicidade solidária que a gente encontra inúmeras vezes, ameniza essa dor, nos transforma em seres humanos melhores.
Eu tenho duas filhas, não cheguei a tocar nesse assunto com vocês, talvez por ser um dos assuntos mais sofridos de tratar. Uma delas nasceu na Alemanha, durante o exílio de 6 anos que passei lá. A outra, mais velha ,nasceu no Chile, para onde fugi após ter sido presa 4 vezes no Rio.
Essa filha mais velha que nasceu no Chile, com 3 meses de idade teve que se refugiar comigo e meu marido na Embaixada da Argentina, onde se encontravam mais de 800 pessoas aglomeradas. Na embaixada onde se encontrava também exilado um médico nosso amigo, fomos alertados por ele sobre um problema que nossa filha estava apresentando, provavelmente de origem neurológica. Não tínhamos como sair da embaixada e buscar assistência médica. No curto espaço de tempo de um ano, essa criança sofreu as consequencias de ser transferida de lugar mais de 12 vezes. Estávamos sob os cuidados do ACNUR, e as condições de abrigo eram limitadas, as privações também, a insegurança com relação ao nosso destino para buscarmos auxílio médico para nossa filha era angustiante. Essa filha chegou a Alemanha, país que nos deu asilo político ,em estado de choque. Começou imediatamente a ser tratada no Hospital da Universidade Livre de Berlim. Até hoje, após inúmeros tratamentos (hoje é uma adulta de 35 anos) vive em estado de isolamento, em profunda depressão. Teve sua aprendizagem limitada, e tem uma vida intelectual e social altamente comprometida.
Vocês me perguntaram se quando olho para ela e vejo a vida difícil que ela vive, não me vem um sentimento de culpa, de arrependimento pelo que eu a obriguei a passar, por conta de uma opção de vida que eu fiz. Eu diria que sim, que isso acontece. Mas também percebo em seu olhar, orgulho e admiração pela nossa vivência, pela nossa história de vida. O seu olhar me alimenta e me dá forças. A força de seu olhar se sobrepõe ao meu.
A idade vem, a vida nos leva a diferentes rumos, mas o que percebo na maioria das pessoas que tiveram a militância política que tivemos, é que não perdemos nossa capacidade de nos indignarmos, nossa capacidade de sonhar e lutar por esses sonhos como se fossemos adolescentes em busca de um mundo melhor.
Dizem que era uma geração que queria mudar o mundo. Eu diria que é uma geração que QUER mudar o mundo.
Nesse momento, uma de nossas lutas mais importantes é a luta em defesa do PNDH3. Não podemos permitir que nossa vida, que nossa história, seja desrespeitada e que não seja corretamente registrada.
Essa luta que a Secretaria dos Direitos Humanos vem bravamente travando em nome do verdadeiro registro de um período da história de nosso país tem que ser uma luta de todos nós. E ela não pode ser travada somente nos gabinetes ou em sessões parlamentares. Ela tem que ser travada em todos os locais de trabalho, em nossos círculos de amigos, em nossas redes de comunicação. Essa luta tem que alcançar e se legitimar nas ruas, junto á população. Temos que organizar encontros, palestras, seminários, levar esse assunto para debates no maior número de locais possíveis. Cada um de nós tem a obrigação, principalmente nós que fizemos parte dessa luta, de sermos porta voz dessa causa.
Essa história não nos pertence. Pertence ao povo brasileiro.
E essa luta tem pressa.
Em homenagem ao Dia das Mulheres, gostaria de deixar um registro especial para duas grandes mulheres, muito importantes na minha vida. Eu torço para que elas abracem o mesmo projeto de mundo que eu abracei há muito tempo, e que dêem continuidade aos meus anseios e meus sonhos, que são minhas duas filhas: Mariana e Gabriela.
Maria Alice.

09/03/2010 às 14:03
ZK!
Que bela homenagem neste dia onde há tanto sobre o que se refletir e homenagear. Não se pode mais ignorar que a mulher enfrenta mazelas que não acometem aos homens, morrendo às milhares, em decorrência de abortos clandestinos, pré-natais não feitos e violência doméstica. Infelizmente – e não por acaso – os setores de sáude pública vêm fazendo sua parte – ampliando assistência, criando redes de apoio à gestante e programas de orientação à mãe de primeira viagem (PIM)- enquanto o Direito ainda reluta em sequer discutir temas como o aborto e faz vistas grossas quando se propõe algum avanço legislativo (Lei Maria da Penha).
Não podemos – nós, preocupados com a difusão dos Direitos Humanos e seu aprofundamento -nos alijar desta causa.
Para começar, proponho a leitura de um artigo interessantíssimo sobre o fenômeno da “feminização da pobreza” no link: http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=3020&lay=pde