Já está passando na capital, no Instituto NT e no Cine Bancários, o excelente documentário “Cidadão Boilesen”. O cineasta e também funcionário da ONU Chaim Litewski demorou 15 anos preparando cuidadosamente este documentário. Sem nenhum exagero, ele contribui para reconstituir uma parte expressiva da nossa história perdida.
Henning Boilesen nasceu na Dinamarca e veio, ainda rapaz, para o Brasil, casado com uma brasileira que conheceu na Europa. Tendo escolhido a cidade de São Paulo para morar, ele construiu uma impressionante escalada profissional e social, transformando-se no Presidente do Grupo Ultra, que comandava, entre outras, a empresa Ultragás, líder no fornecimento de gás de cozinha no Brasil durante os anos 60 e 70.
O filme começa com um entrevistador perguntando aos transeuntes da Rua Henning Boilesen, na cidade de São Paulo, se eles sabem quem foi o homem que dá nome àquela rua. Ninguém sabe. Somente no final do filme um cidadão saberá dar a resposta, mas a esta altura, é claro, o espectador já saberá quem foi Boilesen (ou ao menos terá mais informações sobre ele) e o depoimento não estragará a surpresa.
Uma das qualidades do filme é que ele vai construindo pouco a pouco as características da personalidade de Boilesen e as circunstâncias que o envolveram, e o faz, inclusive, com depoimentos de parentes e pessoas que com ele conviveram, tanto na Dinamarca quanto no Brasil. Inicialmente, com fartura de imagens e reportagens da época, vemos um Boilesen jovial, atlético, generoso, simpático, figurinha carimbada em grandes recepções e eventos sociais, empresário preocupado com o bem-estar dos seus empregados, empreendedor de programas sociais promovidos pela empresa, incorpora o espírito malicioso e brincalhão dos brasileiros, entusiasta da miscigenação e grande apreciador das mulatas brasileiras, enfim, um cidadão modelo, segundo muitos daqueles que participam dos depoimentos da primeira parte do filme.
Na segunda parte do filme é que vemos o Boilesen que liderou a tropa de empresários paulistas no apoio e financiamento da Operação Bandeirantes – OBAN. A OBAN foi uma espécie de polícia secreta instaurada em São Paulo, então centro das ações da resistência militante. Era um órgão controlado pelo exército que envolvia policiais civis e que se constituía em uma espécie de esquadrão de extermínio e comando de caça que estava acima da lei, podendo prender quem bem entendesse, torturar e até matar. Este modelo de “órgão de segurança” exportou sua fórmula para os DOI-CODIs dos demais Estados brasileiros.
Boilesen, segundo um amigo próximo relata, tinha verdadeiro ódio dos comunistas e despejava neles todo o seu lado sombrio, violento e agressivo, que, a partir deste momento do filme, começa a ser tecido também. Boilesen não só passou a sacolinha por empresas como a Ford e a Chevrolet, como também, além das generosas doações, forneceu veículos e caminhões da Ultragás para as ações dos agentes da OBAN. O documentário também menciona a participação da Empresa Folha da Manhã, a Folha de São Paulo, no empréstimo de veículos, utilizados para transportar pessoas presas clandestinamente e torturadas.
Para Boilesen, contudo, não era suficiente o apoio econômico, seria preciso um envolvimento físico. Ele freqüentava com assiduidade as dependências do DOI-CODI na Rua Tutóia em São Paulo, onde costumava tomar parte nas sessões de tortura, presenciando suplícios como o pau-de-arara, os afogamentos, a cadeira do dragão e choques elétricos. Nesta última modalidade, inclusive, deu uma contribuição substancial. Trouxe do exterior uma máquina de dar choques, uma bateria, que era acionada em escala crescente por um teclado a ela acoplado. A “engenhosa ferramenta” ficou conhecida como “Pianola Boilesen”. O sanguinário delegado Sérgio Paranhos Fleury era amigo íntimo de Boilesen, sendo este muito próximo também ao Coronel Brilhante Ustra, o comandante da OBAN.
Devido às suas ações ostensivas, a resistência armada à ditadura rapidamente descobriu o mais que ativo papel de Boilesen na repressão ditatorial. O documentário traz indícios de que teria sido o próprio Lamarca a sugerir uma ação contra o empresário dinamarquês. A ação acabou acontecendo, facilitada pelo fato de que Boilesen se negava a andar com escolta e seguranças, munido tão somente do seu revólver. Acabou morto a tiros à luz do dia em uma via pública da cidade de São Paulo.
Para comprovar e apresentar esses e outros fatos, o documentário faz uso de depoimentos tanto de pessoas que apoiavam a ditadura como de opositores a ela. Entre os entrevistados, destaco Carlos Eugênio da Paz (músico, ex-militante da ALN, ex-militar, provavelmente, depois de Lamarca o ex-militar mais procurado pela ditadura, foi ele quem comandou a operação de justiçamento de Boilesen); o Coronel Erasmo Dias (na época Secretário de Segurança Pública de São Paulo, recentemente falecido e de triste memória pela sua implacável perseguição aos estudantes, tendo comandado a invasão da PUC-SP em 1977); Fernando Henrique Cardoso (que faz lúcidas análises do caso, aproveitando, inclusive para condenar terminantemente o AI-5 e as operações ilegais e violentas da OBAN); Dom Paulo Evaristo Arns (que se negou a rezar a missa pela morte de Boilesen); Antonio Carlos Fom (ex-militante da resistência à ditadura), Paulo Egydio Martins (governador de São Paulo à época, foi sob seu governo que se deu o assassinato de Herzog e a invasão da PUC-SP); o Coronel Brilhante Ustra (que dá todo o seu depoimento lendo); Paulo Bonchristiano (ex-delegado do Dops SP); o historiador Jacob Gorender (ex-militante da resistência à ditadura); o historiador Daniel Aarão Reis (também ex-militante da resistência à ditadura); o cara-de-pau mor da República Jarbas Passarinho (um dos autores do AI-5); o filho de Boilesen, entre outros.
Chaim Litewski conta que somente um terço dos que convidou para serem entrevistados aceitaram, e que só citou as informações que tinha obtido de pelo menos três fontes diferentes. Uma das maiores contribuições do documentário é escancarar o fato de que a ditadura no Brasil não foi só militar, e que houve um expressivo e maciço apoio do empresariado brasileiro (com as honrosas exceções, se informa no documentário, de José Mindlin e Antonio Ermírio de Moraes, que se negaram a contribuir). Como o FHC conclui em seu depoimento, o decisivo neste apoio financeiro não era tanto o dinheiro doado, mas sim a aliança política selada através dele, aliança que até hoje a sociedade brasileira mal conhece.
No documentário também fica evidente a personalidade pinóquiana do Coronel Brilhante Ustra. O espectador assiste ao ex-comandante da OBAN recitar seu texto escrito em tom monocórdico e pausado, com uma cara inexpressiva. Ele diz que Boilesen só foi lá na Rua Tutóia uma única vez para lhe desejar Feliz Natal, que não havia dinheiro de empresas particulares por lá e que na OBAN não se torturava ou matava ninguém. Suas declarações eram desmentidas pelos seus próprios ex-companheiros e ex-agentes da OBAN, como o ex-delegado do Dops paulista Paulo Bonchristiano.
Por fim, outro ponto que acho importante destacar é que o filme traz ao final, por meio de entrevistas, uma reflexão sobre o significado moral da ação de justiçamento realizada pela ALN. Fica claro que tais atos não podiam ser simplesmente taxados de “terroristas”. Seria o mesmo que dizer que os partisans durante o nazismo eram criminosos e que deveriam assistir impassíveis ao domínio do seu território pela tirania e pelo arbítrio. Sem nenhum constrangimento, os ex-militantes entrevistados declararam que sentiram uma grande alegria com a morte de Boilesen.
Da minha parte, penso que é muito difícil condenar a ação extremada da resistência armada em um contexto como aquele, após o AI-5 ter fechado todas as portas de oposição pacífica e ter intensificado a sua violenta e radical repressão. Sou adepto da não-violência e não aprovo ações de extermínio, mas, apesar disso, acho um grande equívoco querer colocar no mesmo patamar os que torturaram e impuseram um governo ditatorial e ilegítimo e aqueles que resistiram, com toda a legitimidade e razão, contra isso. Como disse um dos entrevistados, vítimas das ações da OBAN: “Só existe uma democracia no Brasil, que é a democracia da tortura”.
“Cidadão Boilesen” conta também com uma trilha sonora brejeira que dá o tom de sátira e ironia, tão apropriados para o modo como o Brasil costuma encarar os episódios relacionados à ditadura instaurada em 1964. “Cidadão Boilesen” ganhou os prêmios de Melhor Filme no É Tudo Verdade 2009, Melhor Documentário no Cinesul 2009, Melhor Direção no RECINE 2009 e Hors Concours no Festival do Rio 2009. Imperdível (ZK – 17/01/2010)!
