A Tragédia no Haiti

 

Foto: Palácio Presidencial em Porto Príncipe completamente destruído pelo terremoto – Fonte: AP.

No segundo semestre de 2009 tive a honra e o prazer de conhecer pessoalmente o Prof. Ricardo Seitenfus, designado representante da OEA no Haiti. Na ocasião, participava de uma banca no Mestrado em Integração Latino-Americana da Universidade Federal de Santa Maria, arguindo um trabalho fantástico da Pâmela Marques sobre a Bolívia e o seu surpreendente constitucionalismo pluriétnico. Já tinha ouvido falar muito no Ricardo, especialmente a partir da Professora Deisy Ventura do IRI/USP. Quando o conheci pessoalmente, as expectativas de uma pessoa simpática, carinhosa, destemida e disposta a agir pela defesa e efetivação dos direitos humanos se confirmaram imediatamente.

Por sorte, o Prof. Ricardo havia saído de férias para o Brasil no dia do terremoto arrasador que derrubou mais de 50% das casas do país  e causou (ainda está causando) milhares de mortes, entre elas a desta pessoa que todos admiram profundamente pela sua abnegação em favor da causa dos mais necessitados e da saúde pública: a Zilda Arns.

Hoje, saiu um pequeno artigo do Prof. Ricardo na Zero Hora que, em poucas palavras, nos mostra o quanto é importante esta missão humanitária na qual o Brasil está empenhado, a despeito das vozes de sempre que se opõem sistematicamente à participação do Brasil na missão. Transcrevo o artigo logo abaixo e deixo aqui minhas homenagens e sentimentos pelos mortos e sobreviventes da tragédia (ZK – 17/01/2010).

NA URGÊNCIA E PRECARIEDADE

Professor gaúcho conta o que viu na capital do Haiti depois do terremoto

RICARDO SEITENFUS

Cheguei a Porto Príncipe na madrugada de sexta-feira. O edifício onde residi por um ano desabou completamente.

Perdi grande parte dos vizinhos e a totalidade de meus objetos pessoais. Tivesse eu adiado minhas férias por cinco dias, estaria também sob aqueles escombros. Trago comigo apenas a mochila que veio do Brasil, com alguma roupa e três cachimbos. Durmo no acampamento das Nações Unidas.

Busco notícias dos cerca de cem funcionários que se encontram a serviço da Organização dos Estados Americanos no Haiti, dos muitos amigos universitários, diplomatas, políticos e militares. A maior parte de meus interlocutores diários faleceu.

Entre as incontáveis preocupações que me assaltam hoje, sublinho a relação entre a natureza e a obra humana. Todo terremoto de tal escala causa danos de monta. Porém, se a catástrofe no Haiti alcançou tamanha amplitude, especialmente se centenas ou milhares de pessoas seguem morrendo por falta de socorro, isto se deve à inexistência prévia de um Estado proficiente em saúde pública, habitação e trabalho. A cooperação sul-americana no Haiti, extraordinário avanço da política externa da região, estava buscando exatamente forjar os meios para superar os limites de uma missão de paz tradicional, beneficiando a população de modo estrutural e permanente com variados projetos, inclusive de agricultura familiar e saneamento básico.

O Haiti vive na urgência e na precariedade desde muito antes da tragédia do presente. Trata-se de um Estado débil, dependente da ajuda internacional. O território foi particularmente castigado por catástrofes naturais. Porém, o atraso no desenvolvimento do Haiti deve-se também a outros fatores, entre os quais destacam-se as ditaduras cruéis que produziram uma cultura política de privilégios e violência. Durante a ditadura da família Duvalier, sob a batuta dos famosos Papa e Baby Doc, entre as décadas de 1950 e 1980, o Haiti mergulhou na pobreza e na corrupção. O legado autoritário repercute em todas as dimensões da vida nacional.

Por tudo isso, o Brasil, em particular, deve orgulhar-se do trabalho lá realizado e persistir na ideia de trocar o mero (e sem fim) assistencialismo, ou a obsessão securitária, pela cooperação profunda, capaz de gerar autonomia. Os desafios da reconstrução são imensos, e apenas uma aliança entre os países das Américas será capaz de enfrentá-los. Nela, o Brasil deve manter e consolidar seu protagonismo. Eis um assunto de Estado, e não de governo. Os homens e as instituições se deixam conhecer plenamente no modo como reagem aos grandes traumas gravados pela História. O horror ora vivido pelo Haiti é um deles.

* Gaúcho, representante especial do secretário-geral da OEA em Porto Príncipe

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Uma resposta

  1. Pâmela Marques diz:

    Querido ZK!

    Passando por aqui e vendo sua referência ao Haiti, não pude deixar de enviar meu relato sobre a participação do Lula no FSM 2010 e sua referência ao Haiti. Desde ontem eu estou acompanhando o Fórum Social Mundial aqui em Porto Alegre. Depois de uma manhã marcada por ausências (do Wallerstein, no painel sobre a conjuntura política mundial, e de profundidade, nas falas dos dois latino-americanos que compunham este painel com um frances e um americano – que tristeza! Eles ainda referem-se com mais propriedade a nossos problemas do que nós próprios), parti para uma tarde cheia de expectativa em torno da vinda do Presidente Lula.
    Saí do apartamento, no Bairro Petrópolis, por volta de 16:30. Fiz o trajeto de ônibus (mais tarde repararia que a maioria das pessoas presentes chegou assim ao Gigantinho) e constatei que Porto Alegre tem uma população negra expressiva, que não é vista porque não está nos circuitos “tradicionais”.
    Cheguei as 17 no Gigantinho e cheguei tarde. As 18 horas da tarde, horario indicado para o início do pronunciamento do Presidente Lula aos integrantes do Fórum Social Mundial, a fila em frente ao Gigantinho não parava de crescer. Naquele horário, policiais que faziam a segurança no local já estimavam mais de 7 mil pessoas ansiosas pela abertura dos portões. Torcedores do Internacional ali presentes (o Gigantinho fica ao lado do Beira Rio, estádio do time de futebol Internacional, em Porto Alegre, RS) repetiam, entre si, que havia “mais movimento do que em dia de jogo”.
    A espera, que ultrapassou duas horas desde o horário previsto, foi compensada. O que se seguiu, desde a primeira palavra do Presidente, de fato, lembrava um espetáculo. Em seus 40 minutos de fala, o Presidente “prestou contas” de seu governo ao público que, ha cinco anos atras, lhe recebeu com vaias. Falou na criação de escolas técnicas, na restruturação de universidades, falou em mudança na história. Lembrou – com a tranquilidade de quem venceu o desafio – do clamor para que rompesse o acordo com o FMI em sua última participação no Fórum e lembrou que pela primeira vez em sua história o Brasil não só deixou de ser um devedor, mas passou a ser credor de 14 bilhões. Surpreendendo aqueles que esperavam uma manifestação eleitoreira, o presidente falou de cooperação com os países pobres, lembrando que, há pouco tempo, o continente africano ainda era visto como uma mancha negra abaixo da Europa para as relações exteriores, e que o Haiti, antes do terremoto que lhe recolocou na mídia, foi ignorado por aqueles que poderiam ajudá-lo. Contrariando as manifestações comuns de lamento pela tragédia, a menção ao Haiti veio cheia de indignação em relação àqueles que somente agora acordaram para a situação de negação de direitos basilares que lá se vive. Mas a fala foi além. Podendo pedir o que lhe interessasse àquele séquito fiel que lhe ouvia, aplaudia e se emocionava com ele, Lula pediu pelo Haiti. Ao final de sua fala apelou aos membros do FSM para que dedicassem o ano de intervalo entre o forum de 2010 e o de 2011 para a contribuição à reconstrução do Haiti. Fazendo isso, o estadista respondeu ao apelo de ilustres participantes do forum, tal como Boaventura de Souza Santos e Anibal Quijano, para que o forum fosse além do debate e se tornasse ação e proposição. O Presidente Lula tem bons ouvidos. E uma língua cada vez mais oportuna.

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