O dia 26 de novembro de 2009 deve ser guardado como um dia histórico para o Brasil e para o mundo, pois um dos maiores educadores que já existiu finalmente, alcançou plenamente a sua cidadania. Ana Maria Freire, viúva de Paulo Freire, quando do seu depoimento na sessão de julgamento do pedido de anistia de seu esposo, destacou especialmente o desejo intenso de Paulo Freire, ao longo dos seus 17 anos de exílio, não só de retornar ao seu país e à sua adorada Recife, mas de poder brandir o seu passaporte de brasileiro onde fosse preciso. O passaporte brasileiro foi negado à Paulo Freire durante seu exílio. Em repetidas vezes, com toda a simplicidade e integridade que lhe era peculiar, como narra o Conselheiro Edson Pistori no magistral voto que proferiu como relator do requerimento de anistia, Freire demandou seu direito de provar sua nacionalidade brasileira em todos os países pelos quais passou levando adiante o seu método pedagógico revolucionário.
O que Freire queria, antes de tudo, era o “empoderamento” das pessoas, o fortalecimento da autonomia que surgia como o fruto de um verdadeiro reconhecimento. O reconhecimento das suas próprias origens (esta é a verdadeira originalidade), dos desafios, das dificuldades, das alegrias, das tristezas, da dominação, da injustiça, do valor do reconhecimento da própria realidade e das lutas que devem ser promovidas. Ele queria ver o brilho da retina confiante e lavada nas lágrimas da catarse popular, com cheiro de dignidade libertada, de humanidade pulsante, a derrubada das baias disciplinares, dos purismos violentos, a brisa da liberdade alisando os cabelos, mesmo quando despenteados pelos tapas da indiferença e da covardia. Ele queria amar as pedras, os rios, as árvores, os animais, as mulheres, os homens, as crianças, enfim, a vida. Tinha, porém, uma queda especial pelo povo brasileiro, matéria prima que gerou sua ousadia e sua generosidade.
Na manhã de 26 de novembro, uma quinta-feira, lá estava eu, juntamente com os outros Conselheiros e Conselheiras da Comissão de Anistia, no palco do Centro de Convenções Ulisses Guimarães em Brasília, onde transcorria o Fórum Mundial de Educação Tecnológica. A cada homenagem prestada ao grande educador, entre vídeos e depoimentos, uma platéia de milhares que lotava o imenso Anfiteatro Principal do Centro de Convenções, disposta em galerias, mezaninnos, corredores, cadeiras e escadas, aplaudia, entoava palavras de ordem e gritos de “Viva Paulo Freire!” ou “Paulo Freire Vive!” Foi uma espécie de arrepiamento coletivo, com os olhos turvos de emoção e a garganta atenta em nós, especialmente quando Ana Maria Freire prestou o seu depoimento.
Como disse Paulo Abrão, Presidente da Comissão de Anistia, naquele dia o Estado pedia desculpas não somente a Paulo Freire mas a todos os brasileiros e brasileiras, a todas as famílias, prejudicados pelo súbito cancelamento do Plano Nacional de Alfabetização, que seria comandado por Paulo Freire em todo o país, envolvendo voluntários alfabetizadores que empregariam o seu método para retirar esse gigantesco povo brasileiro das sombras do anafalbetismo e da cegueira política. Um dos principais alvos do golpe militar foi a educação. Prenderam-se, mataram-se, desapareceram-se, exilaram-se estudantes e professores. Paulo Freire e os concursados do PNA foram perseguidos, presos, demitidos. Paulo Freire ficou preso 70 dias, depois teve de se exilar, durante longos 17 anos, sendo reconhecido e dignificado por onde quer que passasse. Hoje, sua contribuição pessoal e acadêmica é reconhecida nos quatros cantos do mundo. E um dos mais claros sinais da amnésia brasileira, induzida desde os tempos da colônia, é o fato de que por aqui, a principal e a maior revista semanal a “Cegue” (nome criativamente sugerido pela Deisy Ventura para melhor se referir à Revista Veja), em reportagem bizonha sobre a educação no Brasil (ver matéria já publicada neste Blog sobre o assunto: http://unisinos.br/blog/ppgdireito/2008/08/22/sinprors-repudia-reportagem-de-veja-sobre-a-educacao-brasileira), disse que os professores “idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização”.
Veja a reportagem da Revista Brasil, da Rede Brasil Atual, sobre a sessão de anistia de Paulo Freire: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/anistia-a-paulo-freire-lembra-que-ditadura-foi-duro-golpe-para-alfabetizacao . Veja também texto de Silvino Heck, Assessor Especial do Gabinete da Presidência da República, no qual são apresentadas diferentes respostas para a pergunta: “o que significa anistiar Paulo Freire hoje?”, produzidas por diferentes personalidades, entre elas o Presidente da República (ZK, 29/11/2009).

29/11/2009 às 21:28
Belíssimo texto, ZK!
Anistiar Paulo Freire é voltar os olhos (e a memória) para a questão da educação no país.
Muito bom, parabéns!
Abraços
Gabriel
02/12/2009 às 07:13
Obrigado Gabriel! Grande Abraço, ZK.