Sobre Mártires

 


Foto: O lavrador Elton Brum da Silva é velado na cidade de Canguçu-RS.

É com muito pesar que publico este “post” a mim enviado pelo Emiliano Maldonado, bolsista de iniciação científica do PPGD da UNISINOS. O texto foi escrito por Cláudia Ávila, advogada defensora dos Direitos Humanos que atua com o Emiliano junto aos movimentos sociais. O pesar advém da notícia que o texto informa, não, obviamente, do texto em si ou da sua importância e pertinência para este espaço. Para mim, é sempre surpreendente perceber o quanto nosso país é ainda extremamente autoritário e ditatorial na atuação das nossas forças de segurança pública, na atuação da nossa mídia e na manifestação manipulada da “opinião pública”, que na falta de maiores informações sobre os fatos, prefere bancar o papagaio de pirata dos que na TV ou nos jornais repetem e recitam fórmulas conservadoras, preconceituosas e brutalizantes.

O tema que está na pauta é o da crescente marcha da criminalização dos movimentos sociais, especialmente no estado do Rio Grande do Sul, e a recente atuação repressiva e violenta da Brigada Militar em São Gabriel, que resultou em torturas e no assassinato de Elton Brum da Silva, mlitante do MST. Sobre o tema da criminalização dos movimentos sociais remeto à entrevista que concedi à Revista do IHU-Online em junho de 2008: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_tema_capa&Itemid=23&task=detalhe&id=1187

Sugiro também a leitura do texto escrito pelo Rodrigo Lentz, bolsista de iniciação científica sob a minha orientação, e que se intitula A tragédia anunciada e a urgência de uma Justiça de Transição .

Segue abaixo o texto da Cláudia Ávila comentando mais um fato que evidencia a existência de uma verdadeira política institucional do Governo do Estado de criminalização dos movimentos sociais, já denunciada inclusive pela Anistia Internacional. Eu me pergunto: já que a política do governo é reprimir com tanta violência o que enquadra como crime, porque não atuam do mesmo modo contra os crimes de colarinho branco ? Afinal, eles causam mal a um número muito maior de pessoas do que as envolvidas no conflito de São Gabriel (ZK, 26/08/2009).

Na sexta-feira 21 de agosto, durante os procedimentos de desocupação de uma parte da Fazenda Southall, em São Gabriel, um integrante da Brigada Militar assassinou pelas costas, com tiro de espingarda calibre 12, um trabalhador rural integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra- MST.

 Essa morte, entretanto, tratada cinicamente como tragédia inesperada, tem por trás de si todos os ingredientes que só autorizam ser vista como surpresa pelos desavisados ou mal intencionados.

Há, todavia, ao menos dois fatores de radical importância que devem ser considerados. O primeiro deles é que para os órgãos da Segurança Pública do Estado, para o Ministério Público Estadual e para o Poder Judiciário, assim como para os órgãos responsáveis pelas questões agrárias do País haviam sobrado elementos caracterizadores de uma morte anunciada. Segundo,  trata-se, aqui no Rio Grande do Sul, de uma morte que adquire tais repercussões, muito pelas circunstâncias em que ocorre, mas que tem antes de si outras mortes que foram ignoradas e um quadro de brutalidade institucional convenientemente velado. É de se considerar, também, uma teia de condicionamentos da opinião pública que resulta do encontro desses dois primeiros fatores com a atuação de setores da imprensa que omitem – quando não deformam – informações sobre tudo o que se refere à questão da reforma agrária e sobre o MST.

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Homenagem aos 30 anos da luta pela Anistia no Brasil

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Foto: Presos políticos do Presídio Frei Caneca-RJ em greve de fome em 1979.

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 Foto: A causa da anistia ganha as ruas do país.

Há 30 anos atrás, em agosto de 1979, após intensa e ampla mobilização nacional, a Lei 6683, mais conhecida por Lei de Anistia, foi finalmente votada e promulgada. Esta data tão importante foi comemorada de um modo emocionante e inesquecível no dia 22 de agosto de 2009, quando se completaram 30 anos da votação da lei no Congresso Nacional. A comemoração ocorreu no pátio interno do Arquivo Nacional, em frente à Praça da República na cidade do Rio de Janeiro. Fico feliz de ter tido a oportunidade de estar lá pessoalmente. Tentarei passar algumas das minhas impressões neste “post”.

A Comissão de Anistia organizou um grande ato em homenagem aos brasileiros e brasileiras que lutaram contra a ditadura no Brasil e, mais especificamente, a favor da anistia, caminho incontornável para que o arbítrio institucional em todos os níveis do governo finalmente pudesse ter fim. Sobre a importância e o significado da anistia de 1979, remeto à entrevista que concedi ao Instituto Humanitas, e que saiu publicada exatamente no dia 22 de agosto. O endereço é: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=24825 . Ainda, sobre a repercussão que o evento teve na mídia e as declarações de impacto feitas pelo Ministro Tarso Genro, remeto os leitores ao Blog “Memória Política e Justiça de Transição”, mantido e atualizado pelo Dailor dos Santos, mestrando da UNISINOS. Basta acessar o endereço http://memoria-politica.blogspot.com/ .

Para quem não conhece, vale a pena visitar o prédio do Arquivo Nacional, arquitetura e mobiliário do século XIX restaurados e impecáveis. Trata-se de um conjunto de prédios harmônicos que fazem um retângulo, em cujo interior se localiza um grande e bonito pátio interno, com jardins e palmeiras. Foi justamente neste pátio que foi montada uma ampla tenda contendo: um grande palco, cadeiras para cerca de 300 pessoas (estiveram presentes quase 500), mesas para o coquetel, telões e televisores “wide screen”, estandes de livros e mesas para sessões de autógrafo, e uma equipe de garçons para servir bebidas e salgadinhos.

Nesta grande homenagem estavam presentes centenas de brasileiros e brasileiras que foram vítimas de prisões políticas e torturas durante a ditadura militar, e, em especial, aqueles que não foram anistiados pela lei 6683/79. Eram justamente os que se envolveram na resistência armada (para quem não sabe, a lei de anistia excluía da sua incidência aqueles que se envolveram na luta armada). Eram aqueles que não se conformaram com a imposição de uma ditadura violenta e exerceram o seu direito de resistência. O preço pago por isto foi muito alto. Muitos morreram e foram desaparecidos e outros foram barbaramente torturados.Lá no evento estávamos frente a frente com os sobreviventes. Um grupo em especial que chamava a atenção era o dos presos políticos que iniciaram a greve de fome no Presídio Frei Caneca no Rio de Janeiro. Fome de liberdade. Pessoas como Perly Cipriano, Gilney Vianna, Nelson Rodrigues Filho, o poeta Pedro Tierra (seu nome civil é Hamilton Pereira), além dos outros companheiros,  estavam presentes. Durante a solenidade, exibiram o vídeo feito por Paulo Jabur, também participante da greve de fome que durou mais de 30 dias, no qual são registrados momentos históricos da decisão da greve de fome e do seu desenrolar.

A homenagem contou também com a presença de três ministros de Estado (Tarso Genro, Carlos Minc e Orlando Silva), do Presidente da Comissão de Anistia (Paulo Abrão) e boa parte dos Conselheiros e Conselheiras da Comissão, o Rabino Henry Sobel, o diretor do Arquivo Nacional, Eny Moreira, uma das advogadas que fundou o Comitê Brasileiro para a Anistia, o advogado Modesto da Silveira (que defendeu milhares de presos políticos) e outras personalidades ligadas à história da anistia no Brasil. Na ocasião também foi apresentada a maquete e o projeto do Memorial da Anistia, a ser construído na cidade de Belo Horizonte, em parceria com a UFMG, até 2010. E, por fim, foi lançada a Revista Anistia Política e Justiça de Transição, publicação semestral da Comissão de Anistia, com artigos acadêmicos, documentos, entrevistas e especiais.

Acredito que faria muito bem a qualquer brasileiro ou brasileira travar contato com essas pessoas, verdadeiras testemunhas e arquivos vivos da nossa história. Uma dessas pessoas em particular me sensibilizou muito. Trata-se de Inês Etiene Romeu, mineira e estudante de História que se envolveu na luta armada contra a ditadura. Ela caiu presa em 1971 na cidade de São Paulo, onde foi torturada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, de triste memória. Depois foi transferida para o Rio de Janeiro, sempre sofrendo os mais bárbaros suplícios. Em 1972 é condenada à prisão perpétua, permanecendo na penitenciária de Bangu até o ano de 1979. Nesse meio tempo, Inês é aprisionada em uma casa que o DOPS alugava na cidade de Petrópolis e que ficou conhecida como a “casa do terror”, lugar onde Davi Capistrano foi morto e esquartejado (a sua viúva, a senhora Maria Augusta Capistrano deu um comovente depoimento na solenidade). Segundo a simpatíssima irmã de Inês, a Elizabeth Etiene, me contou, graças à Inês e à lembrança que tinha do número de telefone da casa (ouvido furtivamente de uma conversa entre os seus captores) é que este lugar foi descoberto e denunciado pela OAB, ABI e outras entidades. Inês também denunciou o médico Amílcar Lobo, que “tratava” dos presos para que eles suportassem mais torturas.

Hoje Inês é uma senhora doce, mas cheia de seqüelas, com dificuldades para falar e se locomover. Quando, em uma cena memorável, todos os ex-perseguidos políticos que estavam no Arquivo Nacional subiram em cima do palco e, abraçados, cantaram, juntamente com todas as autoridades públicas presentes, o samba “Apesar de Você”, do Chico Buarque, Inês Etiene deixou suas lágrimas correrem soltas e quentes (ZK, 24/08/2009).

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Manoel de Barros: poeta das instabilidades semânticas

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No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

 

Em tempos resfriados começamos mais um semestre aqui no PPGD da UNISINOS. Nada melhor para começar do que o delírio poético de Manoel de Barros, sensivelmente apontado e comentado pelo Leonardo de Camargo Subtil, aluno do Mestrado e colaborador assíduo deste Blog. Belo “post” Leonardo! (ZK, 17/08/2009).

 

Deleito-me a escrever algumas poucas linhas sobre aquele que reputo ser, ao lado de Ferreira Gullar, o atual maior poeta brasileiro. Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no Beco da Marinha, beira do rio Cuiabá (MT), em 1916, migrando ainda jovem para Corumbá. Manoel vivera em Corumbá, Campo Grande, Rio de Janeiro, Nova York, Bolívia, Peru, Equador, Portugal, Itália e França. Atualmente, mora em Campo Grande (MS). Mistura erudição e primitividade. Advogado não praticante, diz que não conseguia defender nem mesmo a si próprio, quiçá outras pessoas. Adora fragilidades. Fazendeiro e Poeta. Casado com a mineira Stella, Manoel tem três filhos, Pedro, João e Marta e sete netos. Costuma passar dois meses por ano no Rio de Janeiro, ocasião em que vai ao cinema, revê amigos, lê e escreve livros. Escrevera seu primeiro poema aos 19 anos de idade. Sua revelação poética ocorrera aos 13 anos de idade, quando, em meio à disciplina do Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro, descobriu o delírio dos verbos, a mistura dos sentidos, a sublimação das coisas. Publicara seu primeiro livro de poesia, Poemas Concebidos Sem Pecado, em 1937.

Poeta da geração de 45, ao mesmo tempo, primitivo e moderno no trato com a linguagem, surge como rei das instabilidades semânticas, pois delira os verbos, delira as palavras. Manoel descoisifica o homem à luz de borboletas, de lagartixas. Diria que mais sente do que pensa. Acha possível sentir um homem simples nesse mundo de ser não mais ser, homem não mais homem. Sua inspiração? O pantanal. Universaliza-o. Troca frases gramaticalmente corretas pela desordem semântica da natureza. Faz do homem formiga. Transforma o ter em ser. Fusiona ser e natureza. Manoel crê na poesia como ocupação da palavra pela imagem, ocupação da imagem pelo ser. Vê nas riquezas do ínfimo o cerne para tornar o homem líquido. Na mistura dos sentidos, no orgasmo das palavras afirma que “a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso“. Crê na primitividade do homem, onde “ali o que eu tinha era ver os movimentos, a atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas. Era o apogeu do chão e do pequeno“. Explora os mistérios irracionais na toca do inútil, na toca do nada. Diz “exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. explorar os mistérios irracionais.”. Adora o escrever com lápis. A cada apontar, desvela os nascimentos nominais. A cada mexer das mãos, dos dedos, transforma papel em ser e ser em papel. Diz que noventa por cento do que escreve é invenção. Só dez por certo é mentira. Impossível entender poesias. Razão não serve. É preciso sentir. Sentir é preciso. Poetas não têm compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança. A rebeldia da escrita encarna seu ser. Normas, regras não existem. Existem delírios apofânticos, os sentidos de liberdade vindos de Arthur Rimbaud, na sua “Une Saison en Enfer”.

Poeta reconhecido internacionalmente como um dos mais originais e importantes do Brasil, Manoel busca, na natureza, a renovação do homem. Guimarães Rosa tinha os textos de Manoel como doces de coco. Antonio Houaiss o tinha como poeta das riquezas ínfimas “na humildade diante das coisas. (…) Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor“. Ganhador de diversos prêmios como o Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro O Guardador de Águas, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, Manoel torna-se imortal poeticamente. Dentre suas principais obras publicadas no Brasil, estão: Poemas concebidos sem pecado (1937), Livro de pré-coisas (1985), Concerto a céu aberto para solos de aves (1991), O Livro das ignorãças (1993), Livro sobre nada (1996), Retrato do artista quando coisa (1998), Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001) e Poemas rupestres (2004). Além disso, Manoel possui obras publicadas em Portugal, França e Espanha.

Concito-vos a (re)visitar a obra de Manoel de Barros!! Enfim, um pouquinho de Manoel faz bem ao ser não mais ser, homem não mais homem, desse mundo moderno dominado pela razão absoluta (Leonardo de Camargo Subtil, 17/08/2009).

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