
Foto: Visão aérea da Universidade Federal de Santa Maria
Na segunda-feira dia 27 de abril o Editorial da Folha de São Paulo intitulado Tribunais da Raça foi um primor! Acusou duas universidades públicas brasileiras de terem instituído “Tribunais Raciais” porque decidiram realizar entrevistas com candidatos que ingressaram nas mesmas por meio da política de ação afirmativa.
Considerando que as notícias desse jornal atingem uma parcela maciça da população pelas vias escrita e eletrônica, cabe indagar o papel democrático da grande imprensa, na medida em que, sem pudor, manipula a opinião pública acerca de tema de relevante repercussão social, porque notadamente busca a inclusão de minorias aos bancos das universidades.
Aqui, vale lembrar Giovani Sartori quando em seu “Homo videns. Televisão e Pós-pensamento” denuncia o atrofiamento do processo de compreensão humana, em que o homo sapiens é suplantado pelo homo videns (alusão que pode ser utilizada para todos os meios de comunicação de massa).
De fato. É preciso registrar que cerca de quarenta universidades públicas brasileiras adotaram política de ação afirmativa racial, social e para pessoas com necessidades especiais no intuito de reduzir as desigualdades e com o claro objetivo de dar acesso às minorias, como os negros, os índios e as pessoas com algum tipo comprovado de necessidade especial. Como disse Dworkin, especialmente no que diz respeito ao acesso dos negros à universidade, pesquisas feitas nas universidades americanas que adotaram algum tipo de ação afirmativa nesse sentido demonstraram que essa não foi considerada contraproducente. Ao contrário, sempre demonstrou ser bem sucedida. Não é injusta: não viola os direitos individuais e nenhum princípio moral. É uma poderosa arma contra a estratificação racial.
As audiências realizadas pelas universidades apontadas no citado editorial foram realizadas com fundamento no princípio da responsabilidade pública dessas instituições. Ao optarem, republicanamente, em adotar política de ação afirmativa, também decidiram efetuar o controle da lisura do sistema de cotas, em casos específicos e quando necessário, sob pena de chancelar sua própria fragilidade. O Brasil, como se sabe, muito tardiamente rende-se à necessidade de pensar em inserir no mundo do trabalho qualificado, grupos que dele sempre estiveram fora. É pensando nesse futuro para a nação que o Brasil reduz as injustiças de um passado recente. Não cuidar seriamente das políticas de ações afirmativas é alimentar o discurso de todos os que são contra elas. Mais do que se pode imaginar, há muita gente querendo que essa experiência não dê certo.
Como afirma Navi Pillay em artigo publicado na mesma Folha de São Paulo, intitulado Conferência contra o racismo e relativo à Conferência ocorrida recentemente em Genebra: “Apesar de décadas de mobilização, a verdade é qiue o racismo persiste. Nenhuma sociedade, rica ou pobre, está imune”.
Esse tema impõe no mínimo uma reflexão: em que medida a posição crítica em relação às medidas adotadas pelas universidades ao invés de fazer a defesa contra a discriminação racial no fundo não pretende reforçá-la? Não é justamente disso que se nutre o racismo latente que na sociedade? (Jânia Saldanha, 04/05/2009)

05/05/2009 às 00:34
Professora Jânia,reprisando Ronald Dworkin, ao analisar os programas de admissão de negros, nos EUA: uma sociedade que busca diminuir as diferenças de riqueza e poder, entre os diferentes grupos raciais, é uma sociedade melhor.
Lamento que o periódico tenha adotado essa linha editorial, deixando de lado uma investigação séria e necessária sobre os efeitos da admissão para a construção de uma sociedade mais solidária.