
Foto: Cena do Filme “Entre les Murs” (2008).
Finalmente consegui tempo para assistir à película “Entre les Murs”, traduzido por aqui para “Entre os muros da escola”. O filme, dirigido por Laurent Cantet, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado, e se baseia no livro homônimo de François Bégaudeau, que, inclusive, atua no filme na pele do Professor François Marin.
Ao ver o filme anunciado nos jornais e nos cartazes de cinema fui levado, em uma primeira e pueril impressão, a imaginar que se tratava de mais um daqueles filmes sobre sala de aula que desfilam conhecidos estereótipos: o aluno bagunceiro, as bonitinhas e bonitinhos sem cérebro, os inteligentes feios e esquisitos e, é claro, o professor perfeito que em arroubos Robinwilliannianos leva seus estudantes a subirem em cima das mesas e a gritarem: “Oh capitain, my capitain!”; ou o professor que no início é durão, mas que revela depois um coração de manteiga disposto a ajudar os mais desajustados (vide Sidney Poitier em “Ao mestre com carinho”); ou, o professor gente boa de paciência e ternura infinitas, que enfrenta toda a burocracia das escolas em benefício dos seus alunos, chegando quase a se envolver sentimentalmente com uma de suas alunas (o Mr. Holland de Richard Dreyfuss); ou, finalmente, o professor meio malucão capaz de se tornar mais adolescente que os seus próprios alunos e dar-lhes verdadeiros exemplos de vitalidade e ousadia (como o roqueiro de Jack Black em “Escola de Rock”).
Na medida em que o filme começou a ficar falado, suspeitei de que talvez ele não se encaixasse nos estereótipos mencionados. De todo modo, evitei ao máximo ler qualquer coisa sobre ele antes de conseguir vê-lo, com exceção de um e-mail recebido de Júlia Lafayette Pereira, estudante de Direito da UFSM, e que foi o estímulo final para que eu me dirigisse o quanto antes a uma sala de projeção. Eis o teor da dica da Júlia: “O filme é realmente genial, um retrato fiel de um dos problemas sociais que a França enfrenta em relação aos imigrantes originários de ‘países periféricos’. Rodado em uma escola nos subúrbios de Paris, região amplamente habitada por esses imigrantes, o filme mostra o choque cultural entre as diversas nacionalidades (nativos x estrangeiros e também entre os últimos). Retrata, igualmente, problemas universais em relação à crise do ensino escolar, educação doméstica, entre outros. As atuações são excelentes, ainda que o elenco seja composto por não-atores. Em síntese, fazia tempo que não via um filme realmente tão bom”.
Concordo com a Júlia. Realmente o filme é muito bom. Em primeiro lugar porque desconstrói os lugares comuns dos tradicionais filmes de colégio. Não há salvações ou lições inesquecíveis. Não há professores perfeitos dispostos a qualquer sacrifício para o bem dos seus alunos. Não há, do mesmo modo, diretores cruéis e inflexíveis. Na minha condição de professor não pude deixar de acompanhar com mais interesse o que fazia ou o que demonstrava sentir o François, professor de francês da sétima série de uma escola pública da periferia parisiense. Talvez tenha sido o professor mais humano que já vi retratado nas telas. Ora mais doce e compreensivo (especialmente com os alunos que reagiam positivamente às suas estratégias pedagógicas, e, em especial, com o aluno prodígio da turma, o chinês Wey), ora duro, impiedoso e disciplinador (o que acontece nas aulas em que certos alunos resistem às suas estratégias, como a africana Khoumba, interpretada por Rachel Régulier, quando se recusa a ler uma poesia durante a aula). François transparece a hesitação, a dúvida sobre se tomou a melhor atitude ou se forneceu a melhor explicação, mas também demonstra, ao mesmo tempo, a capacidade de dialogar com seus alunos, aprender com eles e se surpreender com a realidade cultural diferente da qual procedem (a sala conta com descendentes de árabes, africanos, chineses, latinos, franceses, góticos, rappers, etc).
Em certos momentos do filme, evidencia-se o acerto do professor em estimular o desenvolvimento das habilidades e competências dos seus alunos. Quando, por exemplo, consegue valorizar e envolver o aluno-problema Souleymane na elaboração do seu auto-retrato, permitindo que, ao invés de ele escrever um texto padrão que revelasse seus sentimentos e personalidade, baixasse fotos do seu celular e escrevesse seu auto-retrato na forma de legendas para as fotos. A atuação desse menino no filme, o jovem ator Franck Keïta, aliás, é digna de elogios, alternando olhares maliciosos, orgulhosos e enfastiados diante da insistência do professor para que ele se envolvesse na aula com olhares lânguidos e desprotegidos nos momentos em que é recriminado pela direção da escola por suas “proezas” de indisciplina.
Em outros momentos, contudo, o professor François é capaz de ser vingativo, agressivo e dissimulado, chegando, em um dos momentos de maior tensão no filme, a chamar de “vagabundas” duas alunas que desafiavam a sua autoridade e a omitir tal circunstância no relatório que fez para a direção, na tentativa de evitar que as coisas se complicassem para o seu lado.
Quando saí da sala de projeção, me senti com certa claustrofobia. O filme conseguiu me fazer sentir na pele o seu próprio título. As duas horas de projeção se passam literalmente entre muros, mas não só dos “muros da escola” (tanto que o título original é só “Entre os muros”). São muitos os muros que se impõem nas relações entre os personagens: o muro da hierarquia (diretor, conselho de classe, professor, alunos), o muro da linguagem (as gírias dos alunos, o francês culto, burguês e esnobe do presente do subjuntivo – questionado em uma das passagens mais criativas do filme – as barreiras lingüísticas entre os pais chineses, maleses e os professores da escola), o muro étnico (discussões sobre futebol entre os alunos de origem africana e provenientes de etnias distintas, as dificuldades de entendimento do professor quanto a certas atitudes e hábitos culturalmente distintos dos seus), o muro religioso (o aluno Souleymane, que traz uma passagem do Corão tatuado no braço), o muro social (a aluna Esmeralda que embora tenha nascido na França não se considera francesa, pois se sente excluída da comunidade, e outra aluna que acha sua vida desinteressante, pois só come, dorme e vai pra escola), e outros muros que evocam símbolos murados espalhados pelo mundo todo (fronteira do México, Favelas do Rio, Campos de Concentração, Bloqueios econômicos, Muro de Berlim, etc).
A sensação de claustrofobia é intensificada pelo foco da câmera que, ao longo, dos constantes diálogos chega muito perto dos rostos, das carteiras e cadeiras e se movimenta constantemente. As tomadas distantes se enquadram sempre entre as paredes da escola. O intervalo ou recreio é vislumbrado de cima, assemelhando-se a um banho de sol no presídio, com pouco espaço para as diferentes atividades que ali se dão (esportes, conversas, alimentação, descanso). Isto sim é que é show de realidade: uma obra cinematográfica que dilui as fronteiras entre o documentário e a ficção, trazendo um tema real de modo real, mas sem abrir mão do roteiro e da construção dos personagens.
O filme nos estimula, assim como François a seus alunos, a fazer um auto-retrato: da nossa sociedade e do nosso papel nela, das infinitas teias de relações, algumas construtivas, outras destrutivas e outras indiferentes. Uma indiferença que pode se tornar forte e inquietante quando é percebida, como acontece na cena quase final do filme no momento em que uma aluna (que eu já notava desde o início do filme como alguém que estava totalmente à parte do processo, ou como se diz: “boiando completamente”) confessa ao incrédulo professor que não aprendeu absolutamente nada, que não entende o que estavam fazendo ali e que não pretende continuar a estudar (ZK, 02/05/2009).