
“Foi apenas um sonho” (Revolutionary Road, 2008) é um filme para sonhadores. Não para aqueles que sonham com insípidas e infantis histórias de amor (como aquela que aparece em Titanic). O sonho que escorre pelos dedos de Frank e April Wheller (magistralmente interpretados por Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, que aqui se redimem de Titanic) é o sonho de sermos autênticos.
Frank e April são jovens, bonitos e se acham especiais (quem não se acha?). Mais do que isso, todos afirmam que eles são especiais. Os Wheller são um excelente e perfeito protótipo do happy couple dos anos 50: moram em um tranqüilo e pacato bairro do subúrbio, em uma casa grande com um vasto gramado sem cercas; ele é um vendedor bem sucedido economicamente, faz parte de uma grande empresa e tem seu lugar assegurado em uma das inúmeras baias que se alojam nos andares de um alto prédio no centro da cidade; ela, por sua vez, é dona de casa caprichosa e mãe atenciosa com seus dois filhos, freqüentemente visitada por suas vizinhas; internamente a casa dos Wheller exibe aquele conforto morno e pastel dos carpetes, dos abajures, das mesas de centro, do piso de madeira, das telas nas portas dos fundos, dos sofás grandes, fofos e discretos, enfim de toda uma estética contida e calma, sem cores fortes e formas ousadas, que lembra o ambiente sufocante no qual a personagem de Juliane Moore em “As Horas” se afoga de tristeza.
Para muitos o verdadeiro sonho americano (devidamente exportado para todo o mundo capitalista) orbita em torno desse lay-out. O problema, porém, é que todo esse conforto de morfina não garante que seus protagonistas sejam felizes ou se sintam realizados, autênticos ou intensamente vivos. Frank odeia o seu trabalho, despreza seus colegas e superiores e maldiz o fato de ter se tornado, assim como o seu pai, apenas mais um funcionário e burocrata da mesma empresa. A sua condição de “especial” é contrariada pela imagem de um batalhão de homens, todos de chapéu, pasta, terno, gravata, jornal e guarda-chuva, em tons que variam do cinza ao azul claro, e em meio aos quais Frank se mistura para pegar o trem que leva ao centro da cidade. April, por sua vez, estudou artes cênicas e vê, logo no início do filme, sua possível carreira de atriz ser completamente desacreditada em uma exibição mal sucedida, assistida também por um constrangido e desconfortável Frank. Apenas passos são o que se ouve no corredor de saída do teatro. Frank à frente, inconformado com a frustração da esposa, como se talvez ela o espelhasse, como se talvez ela estivesse querendo pular no abismo que se esconde atrás daquela vida que levam. Atrás, April só quer ficar só e calada. Vê-se que ela é quem está mais próxima de forçar o limite, que ela quer sair da “armadilha”, e que Frank se debate para manter a arapuca intacta.
No dia do seu aniversário, porém, toda aquela placidez insatisfatória torna-se especialmente insuportável para Frank, e é quando April lhe propõe que abandonem tudo e se mudem para Paris, concretizando antigo sonho de juventude de Frank. Ela quer trilhar a Revolutionary Road (que também é o nome da estrada que fica perto da sua casa e que leva para fora da cidade), mas não pode fazê-lo sozinha. Com relutância Frank aceita a idéia. Ambos passam a viver intensamente a possibilidade da ruptura. Seus vizinhos ficam assombrados e admirados, procurando desesperadamente se convencerem de que tudo não passa de uma aventura inconseqüente pela qual não vale à pena largar uma vida sem emoções fortes, mas com estabilidade e conforto. Os colegas de trabalho de Frank permanecem incrédulos, como se vislumbrassem algum alienígena, cuja linguagem não compreendem.
A única pessoa que parece entendê-los é o filho da vizinha interpretada pela veterana Kathy Bates. John, na excelente interpretação de Michael Shannon (que foi, inclusive, indicado ao Oscar), é paciente psiquiátrico que, tratado à base de choques elétricos na cabeça, é liberado para passar alguns dias na casa dos seus pais. Ao contrário da sua mãe e de grande parte da sociedade que o cerca, John não tem papas na língua, deixa fluir o estrondo das suas palavras diretas e cortantes e dos seus gestos únicos e totais, tornando-se a voz da lucidez em um mundo anestesiado. Os Wheller sentem o poder desta presença quando contam os seus planos de mudança para John, que, admirado, diz: “Muito poucos têm a coragem de encarar the emptiness hopeless”, expressão usada por Frank para descrever a vida que pretendiam abandonar. John é, by far, a pessoa mais sã e lúcida de todo o filme (com ecos machadianos de “O alienista”).
Vale muito a pena assistir a película: dirigida de modo sensível e competente por Sam Mendes (o mesmo de “Beleza Americana”); estrelada por Kate Winslet (ganhadora do Globo de Ouro pelo trabalho), Leonardo Di Caprio (indicado merecidamente ao Globo de Ouro) e Michael Shannon (indicado ao Oscar, mas tendo o azar de o ser bem no ano do Coringa de Heath Ledger); baseado em verdadeiro best-seller de Richard Yates publicado em 1961; com fotografia e figurino de época impecáveis; e com uma cena final desconcertante e genial. Quero registrar, inclusive, que o trabalho de Kate Winslet neste filme é memorável e, para mim, mereceria o Oscar ainda mais do que o também excelente papel de Hannah Schmitz em “O Leitor”. Winslet nos transporta às sutilezas interiores de April Wheller, construindo um grande personagem, para quem, inclusive, ficam simbolicamente depositadas minhas respeitosas homenagens do Dia da Mulher.
Eis um filme que descreve com sensibilidade o vazio existencial que arrasta boa parte das chamadas “pessoas de bem”, presas em casamentos cimentados pela conveniência e pela covardia, pressurosas em preencher seus vazios com objetos e planos sem real importância, ávidas em se convencerem mutuamente, em reuniões sociais e em visitas familiares, de que não são coadjuvantes das suas vidas, de que fazem parte de algum grande plano que em algum dia mágico será revelado e virá lhes libertar. Essa armadilha ronda a todos nós, assim como também a consciência profunda e sufocada de que estamos amortecidos. Talvez por isto todos achassem os Wheller especiais, porque pressentiam que eles poderiam tentar viajar na Revolutionary Road. Para ver onde esta estrada vai dar, veja o filme, ainda em cartaz na cidade de Porto Alegre (ZK 08/03/2009).

08/03/2009 às 21:19
Zk, fiquei emocionada com teu comentário sobre esta nova maravilha que nos oferece o Sam Mendes, em particular a homenagem à April no dia da mulher, que não poderia ser mais feliz !
Impossível não reconhecer-se nela de algum modo. O filme me tocou profundamente, entre outras razões, porque na década de 90, já com 30 anos de idade, eu consegui arrastar meu à época marido para Paris, e vivemos diversas daquelas situações de estupor alheio retratadas no filme.
Em alguns anos, meu Paris passou a ser Montevidéu, e depois voltou a ser Paris, e depois São Paulo, porque a questão nunca é geográfica: são as possibilidades de vida que vislumbramos no convívio com certas pessoas e em dados ambientes que nos atraem, marcando nossa vida tanto quando vamos como quando ficamos.
Não falo da obrigação contemporânea de gozo e exultação permanentes, que a sociedade de consumo traduz na efervescência do descartável ou na sucessão vertiginosa de experiências fugazes. Aliás, considero esta alucinante aceleração na superfície dos sentimentos também uma forma de amortecimento, tão ruim quanto o marasmo. Falo mesmo é de ousar algumas grandes guinadas, de construir fases profundamente degustadas e sofridas, capazes de enriquecer uma existência que se pretenda plena.
Mas o mais importante, como destacaste, é que a trama desnuda o preço elevadíssimo da autenticidade. O bateu/levou ininterrupto da vida real nos confronta continuamente com os limites nossos e dos outros, e vai desfazendo ilusões, também próprias e dos demais, que facilitariam muito a nossa segurança existencial.
De fato, os personagens do filme, uma vez diante da possibilidade de viver algo não pasteurizado, duvidam, confrontam-se, hesitam e padecem. O exercício mútuo da franqueza gera, então, uma instabilidade, e frequentemente um mal-estar, que infelizmente são poucos os que se dispõem a suportar.
Digo infelizmente porque também há o outro lado: o afeto e o prazer obtidos nas relações genuínas, ou naqueles momentos genuínos das relações em que ninguém precisa prestar contas à sociedade do que está sentindo ou fazendo, são inigualáveis, embora depois os tombos possam ser violentos. Como sempre digo, ainda prefiro me esborrachar lá de cima do que deslizar na planície. O que precisamos, acho eu, é aprender a cair e a deixar de entender os tombos como fracassos, aprendizagem que aliás é bem difícil e sempre incompleta. Por la duda, uma boa cotoveleira metafórica é recomendável para quem for ver o filme, que entre avanços e recuos, é uma linda advertência contra o desperdício de pessoas.
Zk, meu querido, parabéns pelo segundo ano do blog, que tenha longa vida ! Beijos, Fly
09/03/2009 às 00:10
Zeca e Deisy!
O filme é, de fato, dos mais genias. Traz consigo uma riqueza de sentido que imperativamente nos faz questionar o universo que cerca nossas vidas, esse circo muitas vezes montado com peças falsas. E essa interrogação é mais vital e valiosa que a decisão entre Paris ou o gramado verde da simpática casinha branca. Extrapola também a esfera do teatro de relações pessoais e da hipocrisia da quase totalidade delas. Como andam raras as relações sinceras né? O filme fala, antes disso, da capacidade de suportar as verdades, essas criaturas que nascem demoniacamente com a lucidez.
Viver como àquele que não somos, ou que ainda não somos, é também uma falta de consciência da necessidade de buscar a origem de nós mesmos e do que queremos. Por isso refiro que o filme trata da capacidade de suportar verdades, afinal, estamos preparados de fato para romper absolutamente com a “vida boa e digna” que nos vendem a todo momento?? E a que preço??
Ao mesmo tempo, a representação a que forçosamente temos que nos submeter diariamente é cansativa e maçante.
A náusea contida que temos no final do filme é porque de alguma forma nos projetamos nos personagens e não sabemos bem se queremos ser o matemático “louco e lúcido” ou Wheeler “são e cego”, ou seria, ao contrário, um “são lúcido” e um “louco cego”…
Aliás, lembrei do filme Into de Wild, que também fala sobre rupturas e coragem para fazê-las.
Abrazos mis queridos
09/03/2009 às 00:12
Retificando a brasilidade no nome do filme: into the wild!!
09/03/2009 às 23:09
Deisy querida,
Fico muito feliz que tua saída da UNISINOS não tenha implicado na tua saída deste espaço. O teu belo comentário acrescentou importantes palavras às que eu procurei registrar no “post”. Aprender a cair, aliás, é uma das lições mais importantes do Judô, e que é muito mais difícil de ser executada quando não há nenhum tatame entre a sua cara e o chão. Porém, quem se fere assim e depois se recupera sabe que sobrevive e que fica mais forte. A coragem de viver é algo para ser exercitado, senão atrofia.
Paulo,
Bom ouvir notícias tuas, especialmente quando indicam que te preocupas com as relações sinceras (de fato tão em falta)e com a capacidade de suportar verdades ou de suportar a náusea. Belo comentário também. Acrescentaria apenas, que o maravilhoso filme “In to the Wild”, dirigido pelo talentoso Sean Penn, é sobre (ao meu ver)a falta de condições para suportar verdades. Ao final do filme fica bem claro que todo aquele papo do protagonista em se libertar das amarras da “civilização” para viver na “Natureza Selvagem” como se fosse um urso ou um alce, era na verdade uma fuga do sentimento de rejeição que o pai dele lhe inspirava. No fundo, ele ainda não havia sequer começado a superar o fantasma da sua relação com o pai. O distanciamento é uma condição vital para tal superação (ou ruptura). Pena que quando ele começou a fazer este movimento, ele já não podia mais voltar…
11/03/2009 às 11:06
Pego a Revolutionary road hoje à tarde e caso consiga voltar dela, não deixarei de comentar aqui no Blog!
Obrigada pela profundidade de seus comentários, que me fez desejar com ainda mais intensidade, conferir este que parece um belíssimo filme.
11/03/2009 às 11:20
O filme é uma bela metáfora. Paris é uma ilusão. Todos, de alguma forma, vivemos dela.
24/03/2009 às 16:42
Corálio,
Seja bem-vindo ao espaço de comentários do blog. Espero que participes mais. Penso eu, contudo, que Paris pode ser muito mais real do que a rotina conformada e insípida de muitas pessoas. O decisivo não é a cidade de Paris ter alguma solução mágica para o casal, mas ela representar, naquele contexto específico, a ruptura com uma vida insatisfatória e infeliz.
Abraço, ZK.
24/03/2009 às 16:44
Pâmela,
Obrigado pelos elogios. Espero que tenhas gostado da experiência cinematográfica. Abraços, ZK.
PS:Mande mais umas boas dicas musicais para nós. Adorei o Little Joy!
29/03/2009 às 00:30
Caro ZK, obrigado. Acompanho há bastante tempo o blog, pois esse recurso à metalinguagem encanta. Sobre a ilusão, pensava em Sig Freud, no seu Futuro de uma Ilusão, sobre como ela nos coloca em movimento, em direção ao desejo. É irrelevante se a ilusão é verdadeira ou falsa, é ela que nos mantém vivo.
29/03/2009 às 01:41
Olá, ZK! Obrigada pelo convite para participar deste espaço e parabéns pela (sempre) brilhante atuação. Teus comentários cinematográficos são de uma sensibilidade emocionante.
Especificamente sobre o Revolutionary Road, fiquei tentada a ir correndo vê-lo, pelo seu conteúdo profundamente humano e pela reflexão que incita.
Me lembrou muito alguns contos do genial Julio Cortázar, mestre em romper as fronteiras entre realidade e fantasia. Em especial, me remeteu a um livro singular, ‘Los Autonautas de la Cosmopista’, sobre uma viagem que ele e sua última esposa (Carol Dunlop) fizeram de Paris a Marselha, em 1982, percorrendo a ‘Autopista del Sur’ (aliás, antigo conto de Cortázar, de certa forma vivenciado por ele nesse trajeto).
É um livro de viagem que subverte qualquer linearidade temporal, pleno de desafios e descobertas, ‘un juego de treinta y tres maravillosos días, una interminable fiesta de la vida’. Ao final desse mesmo ano, sua esposa vem a falecer e Cortázar, 2 anos depois.
Paris é apenas um lugar. Como em Cortázar, a realidade não prescinde da fantasia, ao contrário, dela se alimenta. Os dois planos conformam dimensões humanas inseparáveis e interdependentes que, na ótica cortazariana, fazem da vida algo menos entediante e pleno de liberdade.
Grande abraço!
30/03/2009 às 17:59
Corálio, concordo totalmente contigo! Lara, valeu pelo ótimo comentário e pela importante dica literária. Vou conferir! Seja bem vinda ao blog.
Abração, ZK.