A alma boa de Setsuan, de Brecht (and bye, bye Unisinos)

Bueno, depois da despedida da UNISINOS, chegou a hora de me despedir também deste blog, que fica nas maravilhosas mãos do Zeca e da sua equipe.

Este ano e meio no PPG tornou-se uma de minhas melhores experiências (idéia e obra da Jânia, my sister). No plano humano, o mais importante, fechou-se com chave de ouro numa noite de salsa radical, e em nosso ateliê de metodologia da tarde ressaqueira seguinte, quando o Hector concluiu sua fala/homenagem com a impagável expressão: “Warat falta” ! Não há como agradecer ao Bolzan e ao Lênio esta grande oportunidade profissional, assim como à Vera e à Rose, aos meus colegas professores e aos alunos, sinceramente queridos, pelo muito vivido, de trabalho intenso e alegre. Mas confesso que, entre as tantas atividades de que tive o gosto de participar, este projeto de “corredor virtual” do programa de pós-graduação me marcou como algo mais do que exitoso.

Nestes 9 meses, ouvimos ecos da nossa aventura blogueira pelo Brasil afora, além dos comentários (no próprio blog ou em nossos emails pessoais ou em corredores de verdade) de muitos brasileiros que nos acompanham pelo mundo. Zeca e eu dedicamos uma boa parte do nosso tempo a este projeto, inclusive para aprender como funciona um blog, eis que ambos éramos novatos. Creio que conseguimos construir um espaço alternativo de expressão acadêmica e política, modesto e diminuto, mas descolado, aberto e limpo. Parto, então, para me dedicar a um projeto de espaço virtual internacionalista, que entrará no ar no ano que vem e dará um trabalho danado. Afinal, é preciso saber escolher, pontuar as f(r)ases da vida. Mas não apenas por isto: este “lugar” é do PPG/Unisinos e são os atores do programa, liderados pelo Zeca, que devem dar a ele o seu próprio rosto. Não obstante, acompanharei fiel e atentamente este blog, mandando de vez em quando meus comentários.

Pois é a hora do meu último post e eu quis escrevê-lo sobre a nova montagem de “A alma boa de Setsuan”, dirigida por Marco Antônio Braz e estrelada por Denise Fraga. Confesso que fui ao teatro só porque estava com vontade de rir. Ousei levar comigo uma grande amiga argentina, Adriana Dreyzin, alma cosmopolita e sensível, apesar do “fenômeno Globo” – refiro-me a pessoas que saem de casa apenas para ver artistas famosos, e ser vistas, ou contar que foram a uma bela sala, pagaram caro pelo ingresso, e fulano de tal é gay ou mais baixinho do que parece. Logo, atendem celulares, conversam alto, vestem-se como nas revistas, gargalham compulsivamente, procuram colunáveis na platéia… aquela agitação no palco até atrapalha! Pois, já na chegada, Denise desconcertou os ávidos de celebridade: lá estava ela na porta, avoada e sorridente, distribuindo folhetinhos. Depois, decepção ainda maior: havia muito a ser entendido naquelas piadas tristes. O texto de Brecht é estupendo e o elenco de primeira linha; o cenário é feérico. e a dinâmica da montagem lembra muito os geniais Monty Python. Nós que estávamos prestando a atenção, rimos e choramos muito. Mas apesar da casa cheia toda a temporada, o público sai muito contrariado ao final. E é fácil entender porquê.

Os deuses vão a Setsuan em busca de uma alma boa, cuja simples existência provaria que não fracassaram como deuses. Denise interpreta a prostituta Chen Te, única alma boa que acharam. Os deuses premiam-na com uma grande soma. Chen Te não sabe o que fazer com tanto dinheiro. Para enfrentar a horda de oportunistas que dela querem aproveitar-se, cria uma segunda identidade: veste-se de homem, fica malvada e assim inventa o primo Chui Ta. Começou por necessidade, mas depois Chen Te acabou gostando de transitar de um personagem a outro. A sucessão de eventos nos quais se envolve é fascinante, a riqueza material crescendo junto com terríveis dilemas pessoais, especialmente um amor não correspondido (ah, bruta flor do querer…, diz o Caetano na minha poesia musical preferida). Não contarei a trama, salvo que, ao final, todos pensam que o vilão Chui Ta seqüestrou ou matou a prima Chen Te. Os deuses vêm, então, acudi-la. Ela tenta contar a eles que Chui Ta e Chen Te são a mesma pessoa, mas os deuses não querem ouvir.

Diz ela: “como é difícil este vosso mundo!/ A fome é tanta, é tanto o sofrimento!/ Quem procura ajudar a um desgraçado/ Acaba se desgraçando também/ Quem é que pode resistir assim/ à tentação de ser também ruim/ Se, para não morrer/ A carne alheia se tem de comer? (…) Alguma coisa deve estar errada/ Em vosso mundo: por que é que o mal/ É premiado e o bem não ganha nada/ Quando por sorte não é castigado? (…) ver a miséria alheia/ Às vezes me fazia sofrer tanto/ Que eu virava uma loba enfurecida:/ Sentia a boca inchar como um focinho/ E as melhores palavras que eu dizia/ Me arranhavam por dentro como cinza… (…) Para os sublimes planos/ Vossos, ó Deuses, eu era somente/ Um pequenino e pobre ser humano!”. Mas os Deuses, apressadíssimos, perdoam tudo, porque o que importa a eles é saber que ainda existe uma alma boa no mundo. Chen Te ainda grita: “mas eu sou também aquela alma perversa de quem tanto falaram mal”. Eles dizem “seja boazinha e tudo bem”. Ela se desespera: “mas eu preciso do meu primo para viver!”. Os deuses respondem: “Basta sê-lo uma vez por mês”. E somem, deixando-a perplexa, jogada à própria sorte partida ao meio. Uma vez por mês, para não perder tudo, ela encarnará o primo mau…

Como se isto já não fosse suficiente para desgostar a audiência, quando o pano desce, o elenco se dirige diretamente ao público e Denise recita os versos de Brecht que tomo emprestados como despedida: “Talvez nada nos ocorra agora, de puro medo:/ Isto acontece! Entretanto, como encerrar este enredo?/ Já batemos o bestunto e nada achamos no fundo:/ Se fossem outros os homens, ou se outro fosse o mundo,/ Ou se os Deuses fossem outros ou nenhum – como seria?/ Nós é que ficamos mal, sem nenhuma fantasia!/ Para esse horrível impasse, a solução no momento/ Talvez fosse vocês mesmos darem trato ao pensamento/ Até descobrir-se um jeito pelo qual pudesse a gente/ Ajudar uma boa alma a acabar decentemente/ Prezado público, vamos: busque sem esmorecer!/ Deve haver uma saída: precisa haver, tem de haver!” (DV, SP, 29/11/08).

Veja lindas fotos da montagem em: http://diversao.uol.com.br/album/a_alma_boa_de_setsuan_album.jhtm

Postado em Sobre o Blog do PPGD Unisinos | 3 comentários »

3 respostas

  1. Hector, Cury e Soares diz:

    Deisy…

    Mea-culpa: descobri que sou um grande “fdp”, pois nesse tempo todo de blog não fui capaz de escrever uma linha (Ai! Que Preguiça!). Conhecido pelo papo fácil de corredor, o malandro sem navalha e que não sabe sambar… sempre tentando “transformar o tédio em melodia”, waratiando ao extremo. Confesso – e deve ser o espírito natalino – pro blog eu fui nulo! Não quero me redimir, sem arrependimentos… hehehe… Esse último post emocionou-me, fiquei surpreso com o “warat falta”. Então resolvi contar uma passagem (a derradeira homenagem ou não?)

    O início: ingressei na faculdade em 2002, no primeiro ano já me envolvia com o movimento estudantil. O que ocorre? Tínhamos que promover uma palestra sobre a ALCA (que era o top de linha acadêmico, com trio elétrico e limpador traseiro)… Quem chamar? Por sugestão da Profa. de Direito Internacional, convidamos a Profa. Deisy Ventura. Estava nos primeiros meses de faculdade, a primeira palestra, o primeiro evento realizado e escutei daquela santamariense que ter a graduação era o equivalente ao segundo grau. Eu já era um nerd-zinho, depois da palestra re-dobrei os estudos e notei que precisaria seguir estudando e estudando (a)pós-graduação!

    Afinal, todo carnaval tem seu fim?!? Formei-me ao final de 2007, entre TCC, pesquisa, estágio resolvi tentar ingressar na Unisinos… Quem eu encontro na Unisinos? Aquela que nem sabia, mas é uma das minhas incentivadoras (virtuais) para seguir na pesquisa. Fui pro ateliê! Resultado: mudou tudo, inclusive, meu comportamento (virei carnaval, a minha dissertação virou carnaval também), uma espécie de Pastor João e a igreja invisível acadêmico (eita Raulzito! Pra mim não existe impossível!). E, hoje, ao ler as primeiras linhas do teu post – e ao ficar levemente emocionado – pensei: esse eu vou comentar!

    As homenagens são merecidas. Realmente “warat falta” aqui na Unisinos, mas lembrei de um samba bem legal, imortalizado na voz da “Marrom”, finalizo assim e não poderia ser diferente: “Não deixe o samba morrer/Não deixe o samba acabar/O morro foi feito de samba/De samba, pra gente sambar…”

    Bj,

    Hector, Cury e Soares (as minhas três vozes)

  2. ZK diz:

    Que final! Refiro-me tanto à peça quanto à participação da Deisy como blogueira neste blog. Realmente, o que dá sentido à vida é buscar a alma boa em tudo, ainda que isto represente “reconhecer o valor necessário do ato hipócrita” de vez em quando. A luta contra o risco de se perder na cegueira e no esquecimento daquela centelha da infância (risco do qual ninguém está imune neste mundo cruel) é um bom Oeste para o nosso Norte (parafraseando Vinícius). Devo à Deisy a lembrança, em tantos momentos, de tão luminosa fonte, manifesta na simplicidade com que trata a todos e a todas e no riso frouxo que lhe é tão natural e desarmante. Graças a ela acabei me aventurando nesta dimensão blogueira, que tem se revelado uma atividade totalmente prazeirosa. É claro que dá trabalho e toma tempo, mas de uma maneira que não aflige ou oprime. É como se fosse a partida de futebol dos sábados, na qual encontro os amigos e mando a bola para a rede (modéstia à parte). Posso apenas torcer e trabalhar para que o Blog do PPGD da UNISINOS possa continuar sendo um espaço tão agradável e inspirador, mesmo depois de tamanha perda. Deisy, farás muita falta por aqui. Apareça mesmo sempre (e não só de vez em quando), assim podemos nos prevenir de qualquer risco de definhamento. Creio que não serei o único a dizer que tu e a Jânia deram uma nova vida e um grande alento para o Programa de Pós-Graduação em Direito da UNISINOS. Deisy, tenha certeza de que estás deixando o PPGD melhor do que tu o encontraste, e graças ao teu jeito desprendido e generoso de compartilhar tua visão lúdica do mundo, tua inteligência sem par e teu coração espaçoso, nos sentimos mais perto das almas boas.
    Bem, agora é mãos à obra! Conclamo todos os atores que transitam neste palco vitual a colaborarem com este mediano e limitado blogueiro, especialmente os alunos e professores ligados ao PPGD. Na medida em que forem tendo idéias para um “post” ou matéria, procurem redigir um texto nos moldes dos que vem sendo postados (com as informações de “link” ou com arquivos a serem anexados – a primeira opção é sempre melhor pois ocupa menos espaço de armazenamento)e mandem para o meu e-mail: josecarlosfilho@terra.com.br
    Lembro ainda que os comentários também são uma forma inestimável de colaboração, portanto participem!
    Por fim, posso dizer que é sempre bom acabar as coisas com um gostinho de quero mais, pois aí ressalta-se a leveza que adormece tranquila na lembrança, como um vento de mar que deixa um carinho na pele e expulsa algumas lágrimas dos olhos.

    Saudosamente, ZK.

  3. Deisy Ventura diz:

    Zeca, há expressões que infelizmente se banalizaram no império do descartável, esta película de superfície imediata em que se encontram hoje as relações entre as pessoas. Em qualquer ônibus, a gente é obrigado a ouvir alguém no celular gritando diversas vezes aquilo que tu ou eu levaríamos algumas semanas para decidir dizer baixinho pra alguém, e ainda engasgaríamos. Para alguns, “eu te amo” pode equivaler a “mas EU sou um amor mesmo”; “estou morrendo de saudade” sai fácil como “atchin”, e assim por diante. Por isto é muito difícil te responder com palavras verossímeis. Só vou dizer que no final deste ano, que foi maravilhoso, mas tão enervante, truncado e extenuante pra mim, não podia haver compensação maior do que ler o que tu escreveste. C’est tout. Je te remercie infiniment, chéri !

    Hector, a marca é recíproca e a prova de nossa franqueza virá com o tempo, no modo de nutrir sempre nossos vínculos, por meio do Aracê e de outros projetos que vão bombar mundo afora.

    Meu caro Cury, encontro muitas pessoas que contam efeitos de falas minhas por aí, e isto me deixa tão realizada quanto apavorada. Que responsabilidade tentar discernir o interesse coletivo, escolher as boas batalhas e as pessoas certas pra ajudar. Eu fico sabendo dos acertos, mas certamente os numerosos erros andam por aí.

    Finalmente, meu velho Soares, o peso que advém do dilema acima referido (a tal da caetanística dor e delícia de ser o que é) é aliviado por papos como os teus. E por falar em Marrom (bah, minha irmã e eu sabemos metade do repertório dela, e Beth Carvalho, então, de cor e salteado), Maria Betânia e Alcione cantando Chico são tudo !

    Beijos emocionados pra vocês ! Da Fly

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