Two Lovers e Vicky Cristina Barcelona


Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, é exatamente o contrário de Two Lovers, de James Gray, embora os filmes comunguem a temática da pretensa oposição entre viver uma grande paixão, ou permanecer numa relação morna e segura. Mas ambos ultrapassam largamente este mote, Vicky em direção ao riso e ao erotismo, Two Lovers rumo à melancolia e ao desespero. Enquanto o personagem Juan Antonio de Allen diz tudo, o Leonard de Gray quase nada diz. Ambos, porém, fazem muito, em grandes performances de, respectivamente, Javier Bardem e Joaquin Phoenix.

Two Lovers é um filme sobre o Plano B. Sobre como somos capazes de nos lançar a fundo na primeira relação que passa pela frente, justo quando amamos desesperadamente a um outro, que parece impossível ou que simplesmente não nos ama. Muitas vezes, quando a loucura passa, já nos vemos enredados no Plano B e ele se torna o Lado A. Mas o filme trata do processo, do salto entre um carro e outro em movimento, e não do que veio a ocorrer depois. Parece um pequeno tratado da relação entre o amor e o acaso. Lembrei destes sujeitos que passam a vida numa sucessão de casos superficiais sob o pretexto de estar em busca “do” grande amor, depois acabam casando com a pessoa mais banal do mundo e levando a mais morna das vidas. Quase sempre dizem que cansaram de procurar, mas dificilmente assumem que pouco escolheram: a “felizarda” estava passando por acaso naquele momento, e veio a calhar (e parece que a tal busca, na verdade, era apenas uma fuga das ligações profundas e arriscadas, as que tiram pedaços, que não deixa de ser legítima, aliás).

O que de fato me surpreendeu ao ler as sinopses e críticas destes dois filmes foi a constante referência à “escolha” de Leonard ou à “escolha” de Vicky, que teriam “preferido” uma relação estavel à aventura da paixão. Ora, nem Leonard nem Vicky escolheram o destino que tiveram. Sandra amava Leonard que amava Michelle que amava outro cara, casado e rico. Para Michelle, representada pela insossa Gwyneth Paltrow, Leonard não era nada, depois se tornou, voluntariamente, um Plano B. Já para Leonard, Sandra (na pele de Vinessa Shaw) era o Plano B, que vingou somente porque Michelle conseguiu conquistar o seu próprio Plano A (o seu amante abandonou a esposa, logo Michelle abandonou Leonard). A escolha de Leonard, na verdade, foi outra: entre o Plano B=Sandra e o suicídio, sombra constante num filme que tem, aliás, um belo domínio da luminosidade.

Caso a trama tivesse uma continuação, provavelmente Leonard repetiria, depois de alguns anos de casado com Sandra, a frase que pronunciou dias antes de se apaixonar por Michelle: às vezes penso que estou morto. Contudo, caso tivesse partido com Michelle, o próprio Phoenix declarou que, em sua opinião, a amada chutaria Leonard em 15 dias. No cinema, é facil ver quão patética é a dedicação do apaixonado a alguém que não o ama. Na realidade, mil vezes infelizmente, é bem mais difícil perder a esperança, porque ela não é racional. Nunca Leonard pôs em questão sua decisão pela aventura insana: na frente do sogro, prometendo amor eterno à Sandra, ele já havia organizado a fuga com Michelle e tinha nas mãos o anel de brilhantes que ofereceria a ela (detalhe: foi divertido ver Isabella Rossellini, a doida de Veludo Azul, cult dos anos 80, representar, e bem, a mãe judia de Leonard).

Já a simpática Vicky de Rebecca Hall tinha como rivais ninguém menos do que Maria Elena (Penélope Cruz) e Cristina (Scarlett Johansson), amantes de Juan e entre si; para o meu gosto, um dos triângulos mais lindos do cinema. Literalmente, cruzes! Logo, pessoa sem maiores arroubos ou dotes físicos, Vicky estava segura de que Juan Antonio nunca a amaria. Ainda assim, seguiu gravitando em torno do trio arrebatador, e finalmente tentou a sorte. Tornou-se o Plano B do guapo por alguns minutos, abandonado que ele estava pelas duas divas surtadas, até que uma delas voltou e pôs fim bruscamente à brincadeira. Enfim, ao contrário do que vêem os olhares menos detidos, Vicky e Leonard escolheram a aventura, mas a aventura não os escolheu. Em qualquer caso, a franqueza de Juan Antonio, o desconcerto mas depois a qualidade das relações que sua ousadia ocasiona, é o que de melhor vi no cinema nos últimos tempos, e sem dúvida é o que eu gostaria de ver na “vida real” com bem maior freqüência (Paris, D.V., 23/11/08, para a Luciana – Lu, viva e franca, que me recomendou Vicky).

Postado em Cinema | 2 comentários »

2 respostas

  1. ZK diz:

    Não vi Two Lovers, mas acabei de assistir a Vicky Cristina Barcelona. Woody Allen mesmo quando é ruim é bom. De todo modo, no caso do filme não é ruim de nehum ângulo que eu veja. O filme consegue construir um forte contraste entre a paz dos cemitérios e a alegria efêmera de tudo o que é vivo. Tenho pena de quem ainda não sentiu este contraste e prefere a auto-mutilação disfarçada de normalidade. Eu já tive a oportunidade de me sentir morto e de ter a coragem suficiente para ressuscitar. Voltar à vida antes de tudo e nela permanecer. Mesmo que pelo sofrimento, que faz o coração bater, a lágrima cair e a franqueza pousar suavemente em nossas palavras e gestos. Que pena que senti de Vicky, mortificada naquele casamento mauricinho com campos de golfe e jogos de Bridge (blargh!) à sua espera, tendo na sua tia, aterrorizada demais para reagir, a imagem do seu futuro. Mas sempre é possível se redimir, como mostra o conto de Tolstoi sobre um juiz que nunca viveu com franqueza e intensidade e reencontra sua autenticidade, soterrada desde a infãncia, apenas no leito de morte, libertando-se no último minuto (“A morte de Ivan Ilitch”), ou como diria o sábio ditado popular: “antes só do que mal acompanhado”. A verdade é que nunca dá para saber como a vida vai nos surpreender e reeditar o seu constante convite para que nos misturemos a ela. Pode até ser na forma de um relacionamento que se afirme a cada dia, a cada sensação de tranquilidade e liberdade ao lado do companheiro ou da companheira, ou então pode aparecer em outras situações e pessoas, em encantos tantos e diferentes, sem que haja contradições entre eles, afinal, “o ser se diz de muitos modos” e o decisivo sempre será o não-ser que nunca saberemos, mas que dá sentido a cada experiência realmente vivida. À grandiosa humildade e à inesgotável sede de viver.

  2. Rosa Maria Zaia Borges diz:

    Porque vi Vicky Cristina Barcelona e, depois de consumir aqueles fantásticos diálogos, tive a certeza de que não valeria a pena ter como meta de vida um caos calmo (parodiando outro filme muito bom que está em cartaz); porque não vi Two Lovers, mas fiquei completamente tentada a fazê-lo pela reincidência temática e pelo instigante texto da Deisy; permito-me deixar uma singela frase que ouvi em outro filme – que me marcou mais do que o próprio, pois não me lembro o nome – que traduz um sentimento que há tempos tem me confrontado com meu infinito particular e que, pra mim, é uma outra forma de dizer que é preciso amar (e amar-se) (n)as pessoas como se amanhã não houvesse: “a certeza é para aqueles que não amam o bastante”. Porque para viver é preciso, antes de tudo, sentir-se vivo!

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