O mistério do samba

Disse Hermeto Pascoal, respondendo a alguma pergunta monga, do estilo quem é a melhor cantora do Brasil, que Marisa Monte jamais poderia ser comparada à Elis Regina, pois Marisa ensaia tudo à perfeição, e nunca se atiraria na escuridão do abismo sem corda. Quem ouve Elis e Hermeto em Montreux (1980), sabe do que ele está falando – e, para o meu gosto, a irreverência daquela “Garota de Ipanema” dos dois é uma das coisas mais lindas e mais cheias de graça que existem (http://www.youtube.com/watch?v=8xtuXixwykw). O fato é que Marisa Monte é dona de um dos timbres mais belos já ouvidos sobre a Terra. Eu a escutei ao vivo, pela primeira vez, por incrível que pareça, em Paris, em 2000, num velho cinema transformado em casa de concertos, o Grand Rex, que tem o mezanino mais vertiginoso que já vi, ângulo agudíssimo, pura labirintite. No dia seguinte, o Le Monde dedicou a Marisa uma matéria inesquecível: “Deusa” e “rouxinol” foram pouco para defini-la. Tamanho foi o entusiasmo, que o jornalista Stephane Davet escreveu: todos os músicos da França deveriam ir fazer estágio no Brasil. Eu já a admirava, e tinha “Cor de rosa e carvão” (1994) como um dos grandes discos da MPB de todos os tempos. Depois daquela rica parceria com Nando Reis, Marisa reviveu os Novos Baianos num momento também feliz, embora requentado (“Barulhinho Bom”, 1996). Até entrar de cabeça na parceria com Brown e Arnaldo Antunes, que tem momentos interessantes, mas rebaixa nitidamente a estatura musical que ela já havia demonstrado. Depois da noite de grande inspiração no Grand Rex, vi Marisa diversas vezes no Brasil, sempre com músicos extraordinários, mas cada vez mais profissional, a ponto de seu último concerto solo (“Universo particular”, que vi em POA, em 2006) ter me parecido morno e descarnado, contradizendo, de certo modo, o frescor de sua pré-adolescência como compositora, revelada nos discos mais recentes.

No entanto, o papel que Marisa desempenha na MPB excede largamente seus próprios discos. Desde 1998, dando continuidade ao que Paulinho da Viola havia começado, ela tem resgatado a história do samba brasileiro, particularmente a da Velha Guarda da Portela, num trabalho que rendeu um disco (“Tudo azul”, 2000), uma série de shows e um documentário: O Mistério do Samba, que assisti ontem, numa sala de cinema quase vazia da Rua Augusta. As casas pobres dos sambistas lembram um pouco “Buena Vista” (Win Wenders, 1999). Todo o resto lembra a nossa alma. Quando S. Casemiro lança: “adivinha que idade eu tenho?”, alguém replica: “78!”, e ele suspira: “ah, quem me dera ter 78…” Sim, ele já cruzou os 80 há muito, e está lá sambando, firme, e ainda cobrando de D. Surica uns cornos que ela pôs nele pelos idos de 1950. Depois, Monarco explica porque, afinal, o samba pra ser bonito precisa de um bocado de tristeza, e nos incita a reacomodar nossas dores e saudades como notas, na harmonia de uma vida que não pode, não, parar pra sofrer: melhor cantar e partir pra outra. Já Tia Eunice diz que não entende quem se apaixona, porque amar loucamente “é palhaçada”. O seu olhar seco me fez sentir confortável em minha condição de palhaça juramentada. Peguei meu narigão redondo vermelho, meus olhos úmidos e os suspensórios imaginários, e saí dali torcendo para que muita gente veja este filme, um resgate da memória brasileira que serve de pretexto para resgatar também a simplicidade e a delicadeza da vida, longe da pirotecnia do cinema contemporâneo, e muito perto do nosso coração, esse pátio gostoso em que a gente toca e canta com nossos afetos (D.V., SP, 27/09/08).

Conheça os integrantes da Velha Guarda em: http://www.portelaweb.com.br/velhaguarda/velhaguarda-componentes.htm

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4 respostas

  1. Rachelle B. diz:

    o filme é simplesmente o máximo. daquele tipo raro de filme, em que em vários momentos dá vontade de ficar em pé e aplaudir (assim como Tango de Carlos Saura) ou sambar, no meu caso, tentar sambar… mas o que interessa é que vale muito a pena assistir pelas figuras humanas que tomam conta do filme/documentário. mesmo que apesar do título não seja um suspense.
    assistam para valorizar todos os que participaram do filme, contando sobre suas vidas, abrindo suas casas e seus corações (apesar do uso de clichês que eu faço)!!!!

  2. Letícia diz:

    É fantástico mesmo.. também assisti aí em SP em uma segunda-feira depois de não ter saído para dar risada com vcs…
    e Tia Eunice me emocionou demais também! Fantástico!:)
    pena não estar passando nessa Ilha para todo mundo ver..
    beijo!!

  3. Lívia diz:

    Alguém sabe me dizer onde posso comprar o DVD?Obrigada.

  4. Deisy Ventura diz:

    Lívia, acho que ainda não saiu em DVD, mas fica de olho ou já deixa uma encomenda prévia na Livraria Cultura. Abração, D.

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