
Nos últimos dias, a pauta da polÃtica brasileira foi enriquecida por assunto de máxima relevância: a possibilidade de responsabilização jurÃdica de agentes públicos por crimes cometidos contra a humanidade durante o regime militar.
Discutido em valiosa Audiência Pública, promovida pelo Ministério da Justiça, no último 31 de julho, o tema transfigurou-se, contudo, em querela polÃtica comezinha, tanto nos meios de comunicação como nos cÃrculos militares. Desafortunadamente, ambos tem descaracterizado a corajosa iniciativa. Em verdade inspirada pela busca da Justiça, tem ela merecido a alcunha de ação “extemporânea” ou “revanchista”, como se estranha fosse ao mundo jurÃdico e ao fulcro do Estado de Direito.
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Certos de que a consolidação da democracia requer o restabelecimento da legalidade erga omnes, independentemente dos cargos ou patentes que tenham ocupado os acusados por graves violações de direitos humanos, e convictos de que a cultura da impunidade, hoje vigente no Brasil, radica-se na fé, por alguns depositada, na fruição de um estatuto superior à s leis pátrias e imune ao direito internacional, decidimos lançar um manifesto. Por conseguinte, dirigimo-nos a todos os lidadores do Direito que não se conformam com a “blindagem” erigida para tolher esta imprescindÃvel discussão e, sobretudo, aos que refutam a tese de que a tortura, o assassinato e o desaparecimento forçado são crimes polÃticos (esta sim estranha à ordem jurÃdica brasileira, e de todo “extemporânea”).Â
Rogamos sua adesão ao presente movimento democrático, por meio da subscrição deste MANIFESTO DOS JURISTAS (ver link logo abaixo), enviando o seu nome, acrescido de referência ao seu Estado de origem e instituição a que está vinculado (em havendo) para o endereço eletrônico manifestodosjuristas@hotmail.com até o próximo dia 27 de agosto, eis que o documento será lançado, em ato público, no aniversário da Lei de Anistia (28/08/08). Desnecessário sublinhar que sua participação será decisiva para que a continuidade deste debate seja assegurada, solicitando, ainda, a máxima difusão do presente pedido de adesão no meio jurÃdico.
Imagem: Gil Heitor Cortesão, Manifestação, 2004 (acervo Fundação Calouste Gulbenkian)

No dia 31 de julho, o Instituto de Hermenêutica JurÃdica organizou mais uma etapa do excelente projeto Direito e Literatura, do qual já muito se falou neste blog. A Professora Têmis Limberger, do nosso PPGD, analisou “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, tendo como debatedora a Professora Leny da Silva Gomes (PPGLetras/UNIRITTER).
O show “Inclassificáveis” é uma experiência sensorial única. Até pacatos senhores heterossexuais calvos, depois de alguns minutos de perplexidade, acabam por impulsionar freneticamente os respectivos troncos, aos gritos de “tesão” e “maravilhoso”. A concentração de feromônios no ar bombaria a escala Richter. Ora, não é novidade que Ney Matogrosso, desde sua estréia, tem marcado a música brasileira não somente pela voz extraordinária, mas pela sensualidade explosiva. Olhando para trás, ao menos dois momentos do Ney já haviam marcado também a minha vida: 1) nos anos 70, nas férias de verão, meus primos, minha irmã e eu, no auge da performática faixa etária dos 5-10 anos, massacrávamos o resto da famÃlia com nossos covers diários dos Secos e Molhados; 2) nos anos 90, Ney, numa fase intimista do seu repertório, tornou conhecido no Brasil, com um disco e uma tournée, o estupendo violonista Raphael Rabello, precocemente falecido, que venero, desde então, como o melhor dos melhores. Mas nesta temporada, Ney parece ter decidido fazer no palco tudo aquilo que só terÃamos coragem de fazer num dia de imensa auto-estima em que não se teme o ridÃculo, e ainda assim apenas no banho, ou diante do espelho do guarda-roupa, com a porta do quarto trancada. O corpo de mais de 60 anos (e perfeito!) rebola, se esgueira, provoca, afronta, enquanto vai se despindo ao longo do concerto (já no tornozelo, eu estava louca). Entretanto, a dimensão sensual da arte de Ney é muito mais a polÃtica ausência de renúncia à sua animalidade do que o propósito de sua expressão artÃstica, eis que a riqueza musical apresentada supera largamente a excitação que ele provoca (isto para quem consegue prestar atenção na música, claro). Seu repertório é eclético, eleito com notável cuidado e bom gosto – e cada vez mais nos damos conta da genialidade do Cazuza, da lindeza de um Jorge Drexler, etc. Brilhantemente arranjadas, mesmo as músicas que Ney já havia gravado (como minha preferida Novamente, do poderoso CD “Olhos de Farol”, 1999) são valorizadas pelo som da jovem e excelente banda que o acompanha. A iluminação e o cenário reforçam a convicção de que não se está num simples show: há muito de teatro, há dança, há moda nos atrevidos figurinos de Ocimar Versolato, há performance. O fio condutor das canções é, nitidamente, a incitação à vida e a coragem de ser por inteiro. Parece paradoxal, mas não é: em diversos momentos, Ney canta o envelhecimento. Dito deste modo, a gente só tem vontade de dizer “bem-vindos” aos anos que vêm por aà (D.V., SP, 10/08/08).
Acompanho com indignação, mas sem surpresa, a repercussão da audiência pública organizada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em BrasÃlia, no dia 31 de julho, sobre a eventual responsabilização dos agentes públicos que promoveram torturas e execuções durante a ditadura militar brasileira. Eu tive a fortuna de estar lá, pois tocou-me, ao lado da brilhante Flávia Piovesan (PUC-SP), a honra de tratar da dimensão jurÃdica internacional do tema. Em breve, o valioso aporte técnico e polÃtico gerado pela audiência será publicado, mas, por ora, quero apenas convocá-los ao debate, e tentar desfazer algumas maldades.
