Reportagem de capa da Veja desta semana sobre a educação no Brasil motivou um firme manifesto por parte do Sindicato dos Professores da Rede Privada do Rio Grande do Sul (SINPRO-RS). A nota de repúdio, reproduzida acima, foi publicada na Zero Hora do dia 22/08/2008. Veja aqui a versão integral da Nota de Repúdio. É realmente ridícula e, ao mesmo tempo, apavorante a matéria de capa da Revista Veja desta semana. Pretensamente, a reportagem se dedica a encontrar as razões e os porquês dos baixos índices escolares no Brasil quando em comparação com outros países do mundo. O principal motivo encontrado pela Revista é que os professores “esquerdizam” a cabeça dos alunos, perdendo tempo em “incentivá-los para a cidadania”. Para comprovar a afirmação, a reportagem seleciona alguns exemplos totalmente descontextualizados (um deles extraído de uma aula de história no Colégio Anchieta de Porto Alegre) obtidos em aulas e em livros didáticos. É visível nos comentários feitos o tom paranóico e raivoso da reportagem. Lendo o texto, chegamos a pensar que ser de esquerda deve ser considerado algum crime muito grave, como aliás era explícito durante a ditadura civil-militar. O nível dos impropérios e a virulência lançada a personagens e autores de esquerda é contundente. Sobre Karl Marx: “Os professores esquerdistas veneram muito aquele senhor que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência”. Sobre Che Guevara: “Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara(…). Che Guevara poderia ter se dedicado aos estudos médicos e descoberto uma vacina contra a malária. Assim teria ajudado muito mais os ’humilhados e ofendidos’ do que o fez na sua carreira de guerrilheiro, que só beneficou os fabricantes de camiseta”. Sobre Paulo Freire: “(os professores) idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização”. E por aí vai… O mais curioso é que a reportagem acusa os professores que criticam o sistema capitalista em sala de aula ou que tenham preocupação com a formação em cidadania dos alunos de serem doutrinadores ideológicos e não percebe o próprio tom altamente ideológico e doutrinador. Vejamos, por exemplo, o comentário feito a um trecho de um livro de Geografia. Diz o trecho: “Para muitos estudiosos, o modelo de desenvolvimento capitalista, baseado em inovações tecnológicas, na busca do lucro e do aumento contínuo dos níveis de consumo, precisa ser substituído por outro, que leve em consideração os limites suportáveis da natureza e da própria vida”. Diz o comentário da reportagem: “Se há alguma esperança de poluir menos a natureza, ela está na criatividade e no rimo de inovações propiciadas pela economia de mercado”. Ou seja, para a reportagem o consumismo, a santificação do lucro e as agressões ao meio-ambiente parecem ser um mero efeito colateral da economia de mercado, que pode ser corrigido. De todo o modo, não vejo problema nenhum na afirmação criticada que, aliás, inicia dizendo “para muitos estudiosos”. A patrulha ideológica é cristalina. Para conferir esta e outras pérolas, vejam a reportagem da Veja no link http://veja.abril.com.br/200808/p_076.shtml , mas não aconselho a fazer isto após alguma refeição, especialmente se vocês tem o estômago sensível. Aliás, não sei se viram, nas instalações da UNISINOS, a oferta de brindes feita por simpáticas moças da Editora Abril. O brinde em questão era exatamente um exemplar deste número de Veja. Quando uma delas me ofereceu o mimo, não resisti e disparei: “Não obrigado. Eu não uso drogas pesadas” (ZK, 22/08/2008).
Ago|22
SINPRO/RS repudia Reportagem de Veja sobre a educação brasileira
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24/08/2008 às 20:34
Comecei a ler a reportagem da Veja e confesso que cheguei a pensar que era uma piada (de extremo mau gosto!). Frases como “é embaraçoso que o marxismo-leninismo sobreviva apenas em Cuba, na Coréia do Norte e nas salas de aula de escolas brasileiras” ou “idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização” são reais, escritas no ano de 2008, veiculadas na revista de maior circulação nacional e, pior, recebem poucas manifestações de repúdio. A reportagem é revoltante, absurda e claramente tendenciosa, chegando ao disparate de citar Hannah Arendt para justificar a equivocada e parcial conclusão: “meio século atrás, a filósofa alemã Hannah Arendt já alertava para o equívoco de fazer das aulas um lugar para a doutrinação ideológica, qualquer que fosse o matiz.”
Talvez os repórteres estudaram em alguma escola que os ensinaram a serem “bamba em matemática” mas está claro que não foram ensinados a interpretar, a pensar, a refletir.
Eu estudei no Colégio Anchieta durante a toda a década de 80 e afirmo que, sob a batuta do educador Paulo Freire, fui educada para a liberdade: de expressão, de pensamento, de escolhas. Ainda bem!
Zeca, tu tinhas razão, a reportagem (ou a revista?), é uma droga!