Ney, realmente inclassificável

O show “Inclassificáveis” é uma experiência sensorial única. Até pacatos senhores heterossexuais calvos, depois de alguns minutos de perplexidade, acabam por impulsionar freneticamente os respectivos troncos, aos gritos de “tesão” e “maravilhoso”. A concentração de feromônios no ar bombaria a escala Richter. Ora, não é novidade que Ney Matogrosso, desde sua estréia, tem marcado a música brasileira não somente pela voz extraordinária, mas pela sensualidade explosiva. Olhando para trás, ao menos dois momentos do Ney já haviam marcado também a minha vida: 1) nos anos 70, nas férias de verão, meus primos, minha irmã e eu, no auge da performática faixa etária dos 5-10 anos, massacrávamos o resto da família com nossos covers diários dos Secos e Molhados; 2) nos anos 90, Ney, numa fase intimista do seu repertório, tornou conhecido no Brasil, com um disco e uma tournée, o estupendo violonista Raphael Rabello, precocemente falecido, que venero, desde então, como o melhor dos melhores. Mas nesta temporada, Ney parece ter decidido fazer no palco tudo aquilo que só teríamos coragem de fazer num dia de imensa auto-estima em que não se teme o ridículo, e ainda assim apenas no banho, ou diante do espelho do guarda-roupa, com a porta do quarto trancada. O corpo de mais de 60 anos (e perfeito!) rebola, se esgueira, provoca, afronta, enquanto vai se despindo ao longo do concerto (já no tornozelo, eu estava louca). Entretanto, a dimensão sensual da arte de Ney é muito mais a política ausência de renúncia à sua animalidade do que o propósito de sua expressão artística, eis que a riqueza musical apresentada supera largamente a excitação que ele provoca (isto para quem consegue prestar atenção na música, claro). Seu repertório é eclético, eleito com notável cuidado e bom gosto – e cada vez mais nos damos conta da genialidade do Cazuza, da lindeza de um Jorge Drexler, etc. Brilhantemente arranjadas, mesmo as músicas que Ney já havia gravado (como minha preferida Novamente, do poderoso CD “Olhos de Farol”, 1999) são valorizadas pelo som da jovem e excelente banda que o acompanha. A iluminação e o cenário reforçam a convicção de que não se está num simples show: há muito de teatro, há dança, há moda nos atrevidos figurinos de Ocimar Versolato, há performance. O fio condutor das canções é, nitidamente, a incitação à vida e a coragem de ser por inteiro. Parece paradoxal, mas não é: em diversos momentos, Ney canta o envelhecimento. Dito deste modo, a gente só tem vontade de dizer “bem-vindos” aos anos que vêm por aí (D.V., SP, 10/08/08).

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