Aureliano Tango Club, L’inmune

Fatal e propenso à fusão, o tango anda na moda em sua versão eletrônica. Cada um assimila o leve bate-estaca passional à sua moda. Lembro que o público brasileiro não quis dançar, ao menos nos shows do Bajo Fondo em São Paulo, e do Gotan em Porto Alegre (ambos em 2007) -quando a platéia gaúcha aplaudiu de pé uma lindíssima canção, creio que foi Philippe Cohen-Solal, um dos líderes do Gotan, quem gritou do palco: “por favor, não sentem” ! Já o jazz e o tango andam juntos há muitas décadas, com interferências mútuas, ou num gênero que se pretende mesmo ”tango-jazz music”. Não sei onde se encaixa exatamente o argentino Aureliano Marín, e pouco importa. O fato é que este jovem de Córdoba arrepia até a alma, tanto ao cantar suas composições, como quando bola estupendas versões dos clássicos (neste particular, valho-me do teatro para uma comparação: a gente pensa “Hamlet, de novo?”, mas quando vai assistir a um fenômeno como Wagner Moura na pele do Príncipe da Dinamarca, corrige rápido: “quando ele fará o Rei Lear ou Otelo?”). Pois o Aureliano gravou um primeiro disco independente, em 2005, o Cool Tango, em que encarou tangos maiores como Maquillaje e Pasional, mas deu mostras de versatilidade, passando pela folclórica Los ejes de mi carreta, de Yupanqui,  e por minha linda e preferida Milonga Sentimental. Ali havia apenas duas composições próprias, que passam a ser quatro no novo disco, L’inmune (2007, MCR Records). Ainda mais tangueiro, o álbum conta com nova banda: Esteban Ochoa no piano e Martín Rovaretti na percussão. Aureliano toca guitarra e baixo, e responde pelos arranjos e direção musical.  Ademais, sua voz grave vai rasgando o peito numa dor intensa e alegre, sobretudo nas belíssimas Cristal e Mano a Mano. O tango, tão dramático, parece natural na encarnação de Aureliano. Seu calor convida muito mais à dança do que o eletrônico, mas seguramente é de outro baile que se trata. Que esta moda chegue logo ao Brasil. E espero que o mundo, um dia, seja mesmo dominado pelos contrabaixistas (D. V., São Paulo, 13/7/08).

Veja mais sobre o Aureliano Tango Club em http://www.myspace.com/auretangoclub

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2 respostas

  1. Cauê diz:

    Deisy querida

    Não sei se foi a gravação, já que ao vivo tudo é muito diferente. Mas devo discordar da sua apreciação. O cantor é bom, mas não há toda a emoção que você descreve. A bateria se perdeu algumas vezes, aqui e ali. O todo ficou parecendo uma tentativa de jazz-tango, mas não foi nem ali, nem aqui, já que os fundamentos não apareceram, ou se aparecerem se sobrepujaram de tal modo a se anularem. Parece uma gravação do fim dos anos 70…ficou uma mistura de uma atmosfera quase-Gerry Mulligan (não em sua melhor fase) com um quase-cantor-de-tango que poderia ser vários.

  2. Deisy Ventura diz:

    Meu kantiano preferido: estás falando do vídeo? De fato, a gravação não é boa, sobretudo em função do local. Já o disco é muito bem gravado, e o Aureliano, um cantor singular. Vale conferir ! besote, D.

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