Numa espécie de antologia do constrangimento, “A banda” parece esgotar a lista das situações em que jamais gostaríamos de nos encontrar, a começar pelo mote da história: uma banda militar egípcia deve apresentar-se num centro cultural árabe sediado em Israel. No entanto, ninguém aparece para buscar os músicos/policiais no aeroporto. Quase sem dinheiro, incapazes de entender o idioma local e com um débil inglês, sequer compreendem corretamente o nome da cidade em que deveriam tocar. O grupo acaba, então, perdido num vilarejo, em plena claustrofobia desértica do interior israelense (bueno, ainda que chovesse a cântaros, o sufocamento provinciano é universal, até nas metrópoles). Não se trata, de modo algum, do humor histérico de certas comédias que são desfiles de trapalhadas. Ao contrário, lento e sutil, o filme lembra que qualquer pessoa pode, repentinamente, ser retirada de sua rotina e ter de enfrentar a diferença. Há quem queira levar seu mundo consigo a todo lugar, há quem se dilua a cada novo ambiente. Os policiais egípcios dividem-se, incômodos, entre estas duas tendências, encabulados diante da acolhida de anfitriões também perplexos: casais que não se entendem e os metem em suas brigas; uma dona de restaurante generosa, mas ávida de emoções que eles não carregam; olhares desconfiados diante de seus uniformes de um azul celeste pura náusea… em qualquer caso, entre estranhos e nativos, mas também entre os próprios locais e no seio da banda forasteira, há gafes e rancores, um ridículo quase constante. Emerge, paralelamente, a ternura, a solidariedade e a descoberta do outro. Há, sobretudo, toneladas de solidão, expressão usada por um dos personagens diante de seu casamento infeliz e do pretenso encanto da paternidade. Alguns críticos propugnam que o filme não trata do conflito entre árabes e israelenses. Ora, claro que trata, porque aquele conflito, como a maior parte dos que vivemos, é fruto da mais absoluta falta de comunicação, patente na ficção e na nossa vida. Entre medos e culpas, acossados por vertigens de graças efêmeras, pelas expectativas de outros e nossas, por violências que sequer compreendemos, vemos grassar, radiante, a incompreensão, e a eventual delícia de quem ousa enfrentá-la. Lindo roteiro e delicadíssima interpretação, a beleza profunda da música árabe e algum Chet Baker mal tocado, mas não percam ! (D.V., São Paulo, 21/06/2008)
PS. A propósito, Marjane Satrapi, a maravilhosa de Persépolis (filme e livro), acaba de lançar no Brasil “Frango com ameixas” (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). É a dolorida história em quadrinhos de um músico que decide morrer porque a esposa, que ele nunca amou, quebrou o seu tar (instrumento de cordas iraniano). Ou terá ele decidido pôr fim aos seus dias porque, ao sair para comprar outro tar, ele encontrou o grande amor de sua vida, sumido há décadas, e ela sequer o reconheceu? Seja qual for a resposta, o assustador é que ela o reconheceu, sim, e, no solavanco da abordagem, faltou-lhe valentia. Depois chorou, e com razão. A devorar, num dia alegre.