Sobre os negros pobres do Rio, por Maria Rita Kehl

Revue des lettres “Não haverá um freio espontâneo para a escalada da truculência da Polícia e do tráfico, nem para o franco conluio entre ambos (e, agora, membros do Exército) que vitima, sobretudo, cidadãos inocentes. Não haverá solução enquanto a outra parte da sociedade, a chamada zona sul -do Rio, de São Paulo, de Brasília e do resto do país-, não se posicionar radicalmente contra essa espécie de política de extermínio não oficial, mas consentida, a que assistimos incrédulos, dos negros pobres do Rio”.

Leia a íntegra do artigo de Maria Rita Kehl, publicado na Folha de S. Paulo de 22/06/2008, em FSP, 22/06

 Imagem: Vicente do Rego Monteiro, Menino nu e tartaruga, óleo sobre papelão, 1923 (acervo do MASP)

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“A banda” e as toneladas de solidão

Numa espécie de antologia do constrangimento, “A banda” parece esgotar a lista das situações em que jamais gostaríamos de nos encontrar, a começar pelo mote da história: uma banda militar egípcia deve apresentar-se num centro cultural árabe sediado em Israel. No entanto, ninguém aparece para buscar os músicos/policiais no aeroporto. Quase sem dinheiro, incapazes de entender o idioma local e com um débil inglês, sequer compreendem corretamente o nome da cidade em que deveriam tocar. O grupo acaba, então, perdido num vilarejo, em plena claustrofobia desértica do interior israelense (bueno, ainda que chovesse a cântaros, o sufocamento provinciano é universal, até nas metrópoles). Não se trata, de modo algum, do humor histérico de certas comédias que são desfiles de trapalhadas. Ao contrário, lento e sutil, o filme lembra que qualquer pessoa pode, repentinamente, ser retirada de sua rotina e ter de enfrentar a diferença. Há quem queira levar seu mundo consigo a todo lugar, há quem se dilua a cada novo ambiente. Os policiais egípcios dividem-se, incômodos, entre estas duas tendências, encabulados diante da acolhida de anfitriões também perplexos: casais que não se entendem e os metem em suas brigas; uma dona de restaurante generosa, mas ávida de emoções que eles não carregam; olhares desconfiados diante de seus uniformes de um azul celeste pura náusea… em qualquer caso, entre estranhos e nativos, mas também entre os próprios locais e no seio da banda forasteira, há gafes e rancores, um ridículo quase constante. Emerge, paralelamente, a ternura, a solidariedade e a descoberta do outro. Há, sobretudo, toneladas de solidão, expressão usada por um dos personagens diante de seu casamento infeliz e do pretenso encanto da paternidade. Alguns críticos propugnam que o filme não trata do conflito entre árabes e israelenses. Ora, claro que trata, porque aquele conflito, como a maior parte dos que vivemos, é fruto da mais absoluta falta de comunicação, patente na ficção e na nossa vida. Entre medos e culpas, acossados por vertigens de graças efêmeras, pelas expectativas de outros e nossas, por violências que sequer compreendemos, vemos grassar, radiante, a incompreensão, e a eventual delícia de quem ousa enfrentá-la. Lindo roteiro e delicadíssima interpretação, a beleza profunda da música árabe e algum Chet Baker mal tocado, mas não percam ! (D.V., São Paulo, 21/06/2008)

PS. A propósito, Marjane Satrapi, a maravilhosa de Persépolis (filme e livro), acaba de lançar no Brasil “Frango com ameixas” (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). É a dolorida história em quadrinhos de um músico que decide morrer porque a esposa, que ele nunca amou, quebrou o seu tar (instrumento de cordas iraniano). Ou terá ele decidido pôr fim aos seus dias porque, ao sair para comprar outro tar, ele encontrou o grande amor de sua vida, sumido há décadas, e ela sequer o reconheceu? Seja qual for a resposta, o assustador é que ela o reconheceu, sim, e, no solavanco da abordagem, faltou-lhe valentia. Depois chorou, e com razão. A devorar, num dia alegre.

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É perigoso confundir cultura com informação – entrevista com Bárbara Cassin

Revue des lettres A filósofa francesa Bárbara Cassin adverte sobre os perigos de confiar ingenuamente no recorte da realidade feito pelos motores de busca da Internet, e destaca o quanto a educação e o exercício crítico da filosofía são cada vez mais importantes na tarefa de dar sentido à existência humana. Ver entrevista completa, publicada no La Nación, em http://adncultura.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1022289

Enviado de Buenos Aires por Carla Schaffer

Imagem: Alfredo Volpi, Fachada com bandeiras, têmpera sobre tela, 116 x 72 cm., 1959 (acervo do MASP)

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As estréias de Marina

Revue des lettres

Marina Silva deixou o governo Lula, para orfandade geral dos que se deram contam da comunidade de destino entre cidadãos do mundo inteiro, diante, entre outros, do risco concreto de extinção da vida humana sobre a Terra, reconhecido unanimemente pelos cientistas, enquanto alguns estultos poderosos crêem piamente que meio-ambiente é perfumaria. Vale a pena, porém, seguir acompanhando seu trabalho como Senadora e colunista de diversos veículos de comunicação.

Veja a primeira coluna de Marina no site Terra em Terra, 17/06/08

Leia também as duas primeiras colunas de Marina na Folha de S. Paulo: FSP, 9 e 16/06/08

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Habemus Obama – entrevista com Philip Roth

P: O que restará de George W. Bush? R: Muito pouco. Muitos danos provocados. Levando-se em conta unicamente os números, ele levou o país à falência. Destruiu nossa reputação moral no mundo. Matou centenas de milhares de iraquianos sem motivo. Bush tem sido um desastre, o pior presidente de nossa história. (…) Essa avalanche de pessoas que querem votar nas primárias e de entusiasmo por seus respectivos candidatos é uma reação evidente à era de Bush. É a necessidade de fazer algo, de corrigir a situação. P: Dez anos atrás, a candidatura de Obama teria sido ficção política. R: Sem dúvida. Foi Bobby Kennedy, 40 anos atrás, quem disse que em 50 anos teríamos um presidente negro. Ele chegou mais ou menos perto. Uma das vantagens do modo como as primárias aconteceram é que fizeram nascer esperanças em todo o país com relação aos democratas. Convenceram muitas pessoas. Mas, se Obama vencer esta etapa, ainda terá que superar muitos preconceitos e barreiras na eleição final. P: Ele está se convertendo num autêntico fenômeno de massas. R: Ele é muito preparado, é brilhante. Tem um discurso articulado, possui essa energia contagiante, jovem e poderosa. Ele desperta muita esperança nas pessoas. Os democratas parecem estar encantados em poder votar em alguém assim. Quando eu era criança, recordo que elegemos para representante de classe o único garoto negro que havia na sala, e todos nós nos sentimos tão bem com nossas
consciências…
Veja a íntegra da entrevista de Roth, concedida a El País, e traduzida pela Folha de S. Paulo, em FSP. 8/6/08

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Boaventura de Sousa Santos propõe abaixo-assinado em defesa dos índios da Raposa Serra do Sol

Imagem: Divulgada pela Funai foto aérea da mais nova “ameaça à soberania nacional”, localizada no Acre.

O Professor Boaventura de Sousa Santos, sensível à ameaça de retrocesso dos direitos humanos que se esboça em nosso país no ano em que a Declaração dos Direitos Humanos completa 60 anos, vem em defesa dos povos indígenas Makuxi, Wapixana, Taurepang, Patamona e Ingarikó, distribuídos em 194 comunidades que vivem na terra Raposa Serra do Sol no Estado de Roraima , propor um abaixo assinado eletrônico, que pode ser assinado no site www.petitiononline.com/tirssjg/petition.html . Como o site não aceita os caracteres em português, anexa-se aqui a íntegra do texto .  A proposta do abaixo assinado surgiu durante o Seminário Povos Indígenas, Estado e Soberania Nacional, ocorrido no dia 28 de maio de 2008 no Auditório Dois Candangos da Universidade de Brasília. O Professor José Carlos Moreira da Silva Filho do PPGD UNISINOS foi convidado e esteve presente no evento, organizado pelo Fórum de Defesa dos Direitos Indígenas (FDDI) e pelo Observatório da Constituição e da Democracia – C&D (Grupo de Pesquisa “Sociedade, Tempo e Direito” do PPGD da UnB). As duas mesas ocorridas, intituladas “Territórios Indígenas e Soberania Nacional – o caso da terra Raposa Serra do Sol” e “Povos Indígenas e Estado Nacional – Racismo e Discriminação no Brasil Contemporâneo” foram extremamente ricas e abrangentes. Quem saiu daquele seminário certamente pôde perceber com nitidez, se ainda não o tinha feito, que um dos maiores problemas do Brasil é a desinformação. É frontal e incomensurável a parcialidade disfarçada de imparcialidade, a seleção dos fatos para que reafirmem uma conclusão assumida desde o início e a apresentação de fatos não ocorridos como se ocorridos fossem, de suspeitas que ao serem noticiadas, normalmente sem nenhuma prova, viram fatos incontestáveis. A opinião pública simplesmente aceita com pouca ou sem nenhuma resistência as notícias e as análises que desfilam nos telejornais e que são escritas nas revistas semanais e em muitos jornais impressos. A cobertura do episódio dos índios da Reserva Raposa Serra do Sol, assim como dos fatos recentes envolvendo um conflito entre os índios Kayapó e um engenheiro da Eletrobrás na Região Amazônica são um grande exemplo da doença crônica chamada “desinformação”, que tem como um dos principais sintomas a “acomodação” (para não dizer “alienação”).Este “post” procura, modestamente, servir de contraponto à análise que de maneira maciça tem sido veiculada pela imprensa. O leitor que estiver interessado em obter mais informações sobre esses episódios e, conseqüentemente, sobre a questão indígena no Brasil, tem aqui à disposição informações que dificilmente têm vencido as barreiras editoriais da nossa imprensa, e poderá, com base nelas, formar o seu juízo a respeito do assunto e, se assim entender, participar da iniciativa promovida pelo Professor Boaventura de Sousa Santos e integrar o abaixo assinado que consta no começo deste “post”. Eis os textos que são aqui anexados: uma resenha do Professor José Carlos sobre o Seminário Povos Indígenas, Estado e Soberania Nacional, ocorrido na UnB; um texto de Boaventura de Sousa Santos escrito especialmente para o evento e intitulado Bifurcação na Justiça; um artigo intitulado O STF e a terra indígena Raposa Serra do Sol de autoria da Profa. Rosane Freire Lacerda, advogada do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e membro do Grupo de Pesquisa “Sociedade, Tempo e Direito” do PPGD da UnB, além da principal organizadora do evento; um texto da mesma autora explicando a questão dos índios Kayapó em conflito com o engenheiro da Eletrobrás; um artigo escrito pelo advogado Fábio de Oliveira Ribeiro, intitulado Globo silencia os índios (também sobre o caso dos Kayapó) e, por fim, a entrevista com o Padre Jesuíta Aloir Pacini que foi concedida ao Instituto Humanitas da UNISINOS, com o título Os índios não precisam mais deixar de ser índios para serem brasileiros.

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Democracia participativa ou representativa?

A opinião pública seria uma doença infantil ou senil da democracia? O Le Monde de 31 de maio publicou o resumo de um debate organizado pelo Institut Pierre-Mendès-France sobre a “democracia da opinião”, a fim de saber se ela consiste num estágio moderno de desenvolvimento da vida política ou uma forma de degeneração inquietante para a República.

Como debatedores, Régis Debray e Jacques Juliard. Para Debray, “a ditadura midiático-estatística transforma o governo em gestor do dia-a-dia, tendendo aos supostos desejos da opinião pública, para antecipar-se a eles ou prevenir-se contra eles. Assistimos, assim, por exemplo, ao nascimento de uma diplomacia onde tudo comove instantaneamente (o Darfour, Ingrid Betancourt, o Tibet, etc.) para depois não ocupar-se continuamente de nada; onde salta-se de uma imagem à outra sem memória”. Veja o debate em Le Monde, 01/06/2008

Foto: Régis Debray (AFP)

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Imigração brasileira na Espanha, por Evandro Menezes de Carvalho

O Professor Evandro Menezes de Carvalho, Coordenador do Curso de Direito da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro), concedeu, no dia 21 de maio último, entrevista à Globo News sobre a pressão da União Européia em relação aos imigrantes, que se reflete nos funcionários de imigração.

Para ele, o tratamento que vem sendo dado a brasileiros na Espanha é injustificado. Veja a entrevista em http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM830781-7823-ESPECIALISTA+EM+DIREITO+INTERNACIONAL+ANALISA+IMIGRACAO+BRASILEIRA+NA+ESPANHA,00.html

Leia, igualmente, seu livro sobre a Organização Mundial do Comércio, que corresponde à brilhante tese defendida, em 2006, na USP, sobre a linguagem das decisões do Órgão Permanente de Apelação da OMC: Evandro Tese Resumo

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