Nocaute no Primeiro Round

No depoimento da Ministra Dilma Roussef à Comissão de Infra-Estrutura do Senado Federal na última quarta-feira, o Senador José Agripino Maia (DEM-RN – antigo PFL) fez uma pergunta que revela um misto de ignorância com truculência, cumulada com altas doses de insensibilidade. Quem não viu ou ouviu, pode conferir nos vídeos abaixo (o primeiro contém a pergunta do Senador e o segundo a resposta da Ministra). Não perceber a diferença que há entre alguém mentir sob tortura para não entregar seus companheiros de luta contra a ditadura e alguém mentir ou não em declarações à imprensa ou depoimentos ao Congresso Nacional ocorridos em um regime democrático, no qual ao menos as liberdades políticas e civis estão garantidas e são minimamente respeitadas, revela, na verdade, uma visão truculenta da história recente do nosso país, que não se escandaliza ou não se choca com os procedimentos gorilescos adotados pelos militares e seus agentes de repressão durante os anos de chumbo. A resposta da Ministra foi incisiva e devastadora, arrancando aplausos até de políticos da oposição e deixando o Senador com cara de bobo e com os olhos esbugalhados (talvez até surpreso com o fato de ele mesmo não ter percebido a estupidez da sua pergunta). O mais preocupante é que esse tipo de atitude do Senador, que em 1979 foi prefeito biônico de Natal pela Arena, pode ser estendida a significantes parcelas da mídia impressa e televisiva e a muitos brasileiros que defendem ações públicas que desrespeitem os direitos fundamentais, como a prática da tortura nas delegacias de polícia e nas incursões da polícia nas favelas, por exemplo. Esse triste efeito é mais uma conseqüência da falta de educação e memória política no Brasil (J.C.M.S., POA, 11/05/08).

Veja também sobre o assunto o artigo publicado no site da Revista Carta Capital e que se intitula Dilma e o enterro do dossiê  .

Postado em Notícias | 5 comentários »

5 respostas

  1. Deisy Ventura diz:

    Jamais entendi porque se fala tanto da elaboração do dossiê e tão pouco sobre seu conteúdo. As informações sobre gastos públicos são também públicas. O tão comentado dossiê sobre os gastos do governo Cardoso nada mais é do que uma legítima compilação de dados públicos, elaborada num momento em que a oposição esquecia seus próprios gastos para denunciar os da situação. Leviandade geral da torpe bipolarização da política, que conduz a grosserias inomináveis como esta que denuncias, Zeca. Oportuno e belo post. Ademais, todo o meu respeito e admiração por Dilma. Uma dúzia de Dilmas, por favor.

  2. José Carlos (Zeca) diz:

    Concordo plenamente Deisy. E digo ainda que sempre é muito gratificante ver alguém conseguir responder com firmeza na hora certa o que devia ser dito. Ah! E nada melhor do que o Dia das Mães para postar a notícia, já que a Dilma foi apelidada de “Mãe do PAC”.

  3. Oseias Amaral diz:

    Ufa, Deisy (já sei que “professora” está proscrito!), desde o primeiro momento eu pensei a mesma coisa quanto a este lance de dossiê. Já estava achando que havia perdido algo na aula de direito penal e que o levantamento de informações acerca do passado tinha sido tipificado como crime. (A propósito Zeca… Hehe!).
    Voltando ao assunto, o fato é que alguns setores da sociedade guardam tamanha “vontade-saudade de ditadura” que, por vezes, não se contém.
    Calha aqui uma frase que li um dia desses em um blog: “Quando a gente pensa que o Brasil está mal, lembra que ele já foi muito pior.”

  4. Carla R. Schäffer diz:

    É impressionante pensar que uma mulher que já foi perseguida política, presa e torturada, em um passado não tão remoto assim, hoje entra no Senado pela porta da frente, de cabeça erguida, com orgulho por ter mentido e lutado pela democracia, pela vida dos colegas, por sua própria vida. É impossível escutar a resposta da Dilma e não se emocionar!
    Aproveito para dizer que sou super fã do blog! Parabéns aos professores organizadores!

  5. Cristina Ternes (Cris) diz:

    Que vergonha, hem, senador? Pergunta esta, que o senhor fez, “digna” de que padece de idiotia. Mas como esperar algo diferente de alguém que se sujeita a ser prefeito biônico, vulgo “pau mandado”, dos tempos de covardia? Ao contrário de quem pagou com a dor da tortura, no próprio corpo, por buscar salvar seu país do atraso da ditadura.
    Mas a diferença entre o covarde e o digno pode ser percebida com a sua miserável pergunta (“dotada” de incapacidade de raciocínio) e a resposta majestosa da ministra.

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