O homem de ferro e o cinema vira-lata


Há Robert Downey Jr., cuja vida transcorreu entre prisões, clínicas de reabilitação para drogados e estúdios de cinema. O ambiente das primeiras talvez seja mais saudável, mas é de todo modo surpreendente que o Hollywood chame a este grande ator, de sarcasmo e barriguinha evidentes, para um grande papel comercial. Certo, o Iron Man dos quadrinhos é alcóolatra, mas o das telas é apenas um playboy; nem sob este prisma, Downey, de beleza bem menos óbvia que as demais estrelas, e de quem as seguradoras recusam-se a aceitar os contratos, seria recomendável. Há também o estupendo Jeff Bridges. O pianista blasé de Susie e os Baker Boys (Steven Kloves, 1989), ou o adorável maconheiro tardio de O Grande Lebowsky (Irmãos Cohen, 1998), custa a ser reconhecido no vilão da cabeça raspada que brilha em todos os sentidos. De bom, nada mais há. Poderia haver, sobretudo, algo inteligente sobre as armas, principal mote do filme. O super-dotado Tony Stark herdou do pai uma fábrica de armamentos pesados, com os quais acreditava fazer o bem e proteger sua pátria. Um atentado destrói a terna inocência de seus bilhões de dólares: sequestrado e à beira da morte, ele descobre que as armas são uma coisa muito feia. Sobrevive, e então decide parar de fabricá-las. No entanto, para combater os árabes, que no filme são todos mercenários sujos, bocós e cruéis, Stark aperfeiçoa a engenhoca que havia permitido sua fuga do cativeiro e a transforma na mais potente das armas, a que não poderia cair nas mãos erradas: é ele mesmo. Acobertado por um amigo que é comandante das Forças Armadas, o Homem de Ferro sai vingando, matando, invadindo o espaço aéreo alheio e, deleite tipicamente americano, chega a entregar um homem ao linchamento. A seguir (desmentindo Berlusconi, para quem as mulheres de direita são mais bonitas do que as de esquerda, pelo que Il Cavalieri não serve sequer para montaria), um bela jornalista engajada revela ao Cara de Pau que ele mesmo vendia armas aos árabes. Oh ! Stark tem um sócio malvado ! Mas, sendo branco, o vilão não é bocó: copia o Homem de Ferro numa versão trash. Garantido, portanto, o final de apoteótica explosão de violência entre dois montes de lata, diante da mais abobada do que nunca Gwyneth Paltrow. Prefiram ler a HQ original e ver outra coisa. Por exemplo, Downey em A Pele (Steven Shainberg, 2006). E boa sorte com todos os jogos, roupas e quinquilharias que ridicularizarão nossas crianças nos próximos meses. (DV, POA, 04/05/08)

Leia, com urgência, sobre as armas. Por exemplo, http://www.controlarms.org/

Postado em Cinema | 1 comentário »

Uma resposta

  1. Felipe Furlan diz:

    A visão etnocentrista ainda é um lugar comum nas produções cinematográficas, especialmente nas destacadamente comerciais. Nada de novo no filme, o final segue ao pé da letra esse marasmo o herói e o vilão se enfrentam no telhado da empresa de Stark e a secretária(Gwyneth Paltron) faz uma rajada disparar lá de baixo que atinge o vilão e salva seu emprego. Destaque para a aparição de Nick Fury (Samuel Jackson) após os créditos.

Deixe um comentário

*

Atenção: a moderação de comentários está ativada e pode demorar para aparecer. Não há necessidade de reenviar seu comentário.