A cidade uruguaia de Melo é parecida com qualquer povoado da metade Sul do Rio Grande, sobretudo na claustrofóbica pobreza de sua gente, contrastada à riqueza anacrônica e bolorenta de poucos. A onipresença do contrabando, o sotaque único e as deliciosas gírias locais jogam-nos na atmosfera peculiar daquela zona de fronteira – a mesma que o Brasil cogita diminuir para facilitar a instalação de empresas transnacionais, em detrimento, entre outros, do nosso meio-ambiente. Pois quando se assiste O Banheiro do Papa, fica fácil entender porque, neste tipo de lugar, todo investimento é bem-vindo, inclusive o predatório. O abandono está patente em cada rosto e, a propósito, é uma patente o ardiloso mote do filme. Quem pretende seguir acreditando que basta trabalhar duro para melhorar de vida, não deve ver este filme saboroso e demolidor. A candura e o humor irresistíveis dos uruguaios dotam a obra de singular leveza, mas não poupam ninguém. A trama revela como o modelo político achata definitivamente os horizontes da população, refém da escandalosa manipulação perpetrada tanto pela religião como pelos meios de comunicação. Na bela expressão castelhana “cuentapropismo”, a conta própria dos pobres vê-se rapidamente convertida em dívida. Sim, a pobreza é um círculo vicioso, marcado na paleta daqueles viventes. A linda paisagem do campo, o radiante elenco e o frescor do roteiro oferecem momentos maiores. Não percam. (D.V. 29/03/08)
Confira o site: http://www.montevideo.com.uy/banodelpapa/
… e veja aqui o trailer:

03/04/2008 às 15:37
Assisti “El baño del Papa”, nas férias, quando estava no Uruguai, em um balneário que já havia sido próspero. O filme narra a falta de perspectiva da população, que vive nas cidades de fronteira. Demonstra a realidade destas pessoas que (sobre)vivem fazendo pequenos descaminhos de mercadorias. A falta de perspectiva é algo colocado cruamente na tela. A vinda do papa proporciona um horizonte de possibilidade de melhoria de vida, ainda que por um dia, que se revela completamente ilusório. É difícil não sair do filme abalado e até deprimido, devido a esta difícil realidade que assola a população fronteiriça.