A Internet fornece um novo ambiente para a atualização da cultura de gênero

Em entrevista ao blog do PPG em Ciências Comunicação da Unisinos, a pesquisadora Adriana Braga avalia os resultados de sua tese “Feminilidade Mediada por Computador: interação social no circuito-blogue”, premiada no último dia 10 pela CAPES. 

“É curioso notar que o ambiente do blog oferece um espaço renovado para essa prática tradicional feminina de troca de saberes”, diz a pesquisadora, que analisou as interações entre jovens mães no weblog Mothern

Na entrevista, ela fala também sobre a metodologia aplicada na pesquisa, a necessidade de novas ferramentas para compreender os fenômenos on line e a perspectiva ecológica de estudo da mídia. 

Links externos“Comunicação On-line: uma perspectiva ecológica”http://www2.eptic.com.br/arquivos/Revistas/v.%20IX,n.3,2007/AdrianaBraga.pdf  

Além da qualidade do trabalho, você acredita que o tema recente e ainda por ser descoberto foram fundamentais para a premiação?

O tema em si, claro que agrega interesse pelo caráter da novidade, mas o que mais chama atenção, acredito, é a própria questão de pesquisa e o tratamento que dei a esse tipo de material. Criei um aparato metodológico específico, em um cruzamento de técnicas de pesquisa que incluem observar o fenômeno on-line e off-line. Essa abordagem deu origem a resultados surpreendentes. Talvez esse tipo de aproximação seja menos comum entre as pesquisas feitas nos ambientes de Internet. Pode ser que esteja aí o aspecto da inovação, que era um dos critérios da avaliação. 

Como você vê essa relação entre um fenômeno recente – o blog – e o sentimento secular da maternidade feminina?

A maternidade, como outros elementos da cultura feminina, atualiza-se através das interações interpessoais, da educação, dos produtos de mídia, das piadas, dos benefícios conquistados, do movimento feminino pela sociedade. A Internet fornece um novo ambiente social, local de acolhimento de grupos diversos, que se apropriam desse espaço, promovendo uma atualização específica da cultura de gênero. Dessa maneira, o que se observa ali é uma perspectiva diferenciada da maternidade, que ao mesmo tempo reitera e contesta os valores tradicionais. Uma complexa versão contemporânea dos sentidos da maternidade. 

Na sua tese, você diz que o weblog analisado permite uma “teorização informal” da feminilidade. Os blogs seriam, então, um espaço para a reafirmação da identidade de jovens mães, em movimento oposto ao das representações feitas pela mídia tradicional?

Não diria que este seja um movimento oposto ao das representações tradicionais, na medida em que o surgimento do novo depara-se sempre com o peso da tradição. O moderno só é moderno com relação ao tradicional, tendo a tradição como referência. Dessa maneira, no fenômeno observado as categorias tradição e modernidade se sobrepõem, se complementam, até se contradizem, mas não são opostas: são relacionais. Mas, sem dúvida, questiona-se nesse ambiente os papéis tradicionais de gênero, estabelece-se ali uma representação feminina sem precedentes.  

A interação das jovens mães, mediada pelo computador e pelo blog, inaugura novas formas de sociabilidade e de representações sobre o feminino?

Sim. A troca de saberes específicos praticada por mulheres há longas gerações encontra na Internet um novo ambiente, e como conseqüência, uma nova configuração. A comunicação por essa via exige que participantes das interações nesses contextos adaptem as novas atividades tendo como referência práticas anteriores, dando origem a protocolos interacionais próprios que obedecem a lógicas distintas daquelas observadas em outros contextos relacionais.  

Trata-se de um material que reflete o modo pelo qual esse grupo pensa articulações e desafios entre componentes tradicionais da feminilidade e processos sociais amplos e atuais referentes à inserção feminina. Negociações de sentido sobre a feminilidade são propostas, instituindo assim representações midiáticas que se apresentam ao campo social. 

É curioso notar que o ambiente do blog oferece um espaço renovado para essa prática tradicional feminina de troca de saberes. Se a conversa sobre filhos/as tem sido desvalorizada socialmente, no contexto do blog pode ser entendida como prática moderna pelo ambiente tecnológico no qual se estabelece. 

As técnicas tradicionais de pesquisa respondem às demandas metodológicas geradas por estes novos ambientes virtuais? Quais são os desafios para o/a pesquisador/a?

As técnicas tradicionais de pesquisa apresentam muitas possibilidades, mas também sérios limites para a análise desses fenômenos. Cada pesquisa deve desenvolver uma composição de técnicas que resulta, em cada caso, num aparato metodológico específico. Mesmo que as atividades das pessoas nesses espaços tenham como modelo recursos de práticas anteriores, jamais serão idênticas. 

Textos canônicos de outras áreas são citados freqüentemente nas pesquisas. Entretanto, a aplicação direta de modelos concebidos especificamente para outras atividades comunicativas pode ser desastrosa nas análises da CMC [Comunicação Mediada por Computador]. Esses modelos devem ser usados caso a caso, como uma base possível entre outras, sob o risco dos desvios do modelo de base serem interpretados como problemas daquela comunicação, por se apoiarem em um modelo que não considera as especificidades desses fenomenos.  

Uma coisa comum de se observar é que os registros deixados pelos/as participantes das interações on-line e arquivados pela própria tecnologia da CMC muito freqüentemente são tomados como os únicos dados de pesquisa. Claro que isso facilita os problemas de coleta de dados ou de negociação de acesso aos ambientes, por exemplo. Entretanto, esta opção metodológica permite apenas uma vista aérea da interação geral, ou seja, um ponto de vista típico do/a analista, não do/a participante da interação. O risco em assumir que a atividade on-line ocorre somente on-line, e que todos os fatos a serem analisados estão disponíveis na Internet, é o de perder a oportunidade de perceber os sentidos intersubjetivamente partilhados pelas pessoas. Do meu ponto de vista, a alma do fenômeno. 

De que forma a “perspectiva ecológica” pode contribuir para o estudo da comunicação on-line?

A perspectiva ecológica da mídia apresenta-se como aporte teórico-metodológico importante para o estudo da comunicação on-line por considerar essas práticas como atividades específicas, situadas, evitando uma teorização apenas especulativa, que contribui pouco com o avanço da ciência. Além disso, esta perspectiva inclui os aspectos materiais, históricos e sócio-econômicos dos processos em suas preocupações, contribuindo para a compreensão da complexidade desses fenômenos.

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