No dia 09.07.2010, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lançou o Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – 2009, documento que retrata a realidade dos índios brasileiros e mostra que a situação dos povos indígenas continua preocupante.
Segue, abaixo, o artigo do coordenador nacional do MNDH, Gilson Cardoso, que analisa os dados do Relatório e a triste realidade de desrespeito às comunidades indígenas do país. O artigo foi publicado no sítio do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), em 20.07.2010. E, após, segue entrevista com a pesquisadora e antropóloga, Lúcia Rangel – realizada por Aldrey Riechel, da Amazon.org.br e publicada no sítio do Conselho Indigenista Missionário, em 21.07.2010 -, que também discute questões atinenentes às violações de direitos humanos cometidas contra os índios brasileiros.
Eis o artigo de Gilson Cardoso – coordenador nacional do MNDH:
No início do mês, o Cimi lançou o Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília, apontando, entre outros dados, 60 casos de assassinatos de indígenas em todo país.“São números e informações assustadores, que apontam para uma série de violência praticada contra a pessoa, como assassinatos, ameaças e atos de racismo, e contra o patrimônio indígena, como os conflitos territoriais e os danos ambientais”, disse o coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos.
De acordo com o relatório do Cimi, no ano de 2009 foram registrados 60 assassinatos de indígenas, número igual a 2008. A grande maioria dos casos ocorreu no Mato Grosso do Sul, sendo que todas as vítimas pertenciam ao povo Guarani Kaiowá. No ano passado, foram registrados 133 casos de violência provocados pela “omissão do poder público”. 41 pessoas morreram por falta de assistência médica e houve 13 vítimas de atropelamento.
Durante o lançamento, o presidente do Cimi, D. Erwin Krautler, ressaltou que o objetivo do relatório “não é dizer se a violência contra os indígenas aumentou ou diminuiu, mas mostrar que a violência existe. Não se trata de estatística, porque nosso relacionamento é pessoal com esta gente”, disse o prelado, que tem sido ameaçado de morte por causa do seu empenho nesta causa.
A antropóloga Lúcia Rangel, coordenadora do relatório, considera que estes dados “não são números que possam ser trabalhados estatisticamente. Nos últimos dez anos podemos falar de aumento de violência contra o patrimônio indígena, assassinatos, suicídio”, destacou.
Terra
Gilson Cardoso endossa a análise do Cimi que aponta os conflitos pela posse da terra como a origem da violência contra os indígenas. Outra preocupação, lembra o coordenador nacional do MNDH, diz respeito às obras de infra-estrutura, que segundo o Cimi impactam diretamente e negativamente no dia-a-dia dos povos indígenas.
O relatório do Cimi aponta que “os grandes projetos do governo federal, que causam danos, vão desde pequenas centrais hidrelétricas a programas de ecoturismo, gasodutos, exploração mineral, ferrovias e hidrovias”.
O documento dedica especial atenção às obras da hidrelétrica de Belo Monte (Pará), que “trará conseqüências desastrosas e irreversíveis ao meio ambiente e às comunidades da região. Diversos especialistas e movimentos sociais já apontaram o número sem fim de irregularidades que envolvem a obra, como o não respeito à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura o direito de oitiva às populações em caso de obras que lhes afetem”.
Mais transparência e participação
“Entendemos que o governo federal deveria ser mais transparente no caso dos grande projetos. Os ribeirinhos, os índios e as sociedades que venham a ser impactadas devem ser necessariamente ouvidas – preferencialmente em audiências públicas nos locais afetados, para que o governo possa colher democraticamente a opinião da sociedade civil”, analisa Cardoso.
Para ele, é necessário, também, que as regras para as empresas – sejam elas nacionais ou internacionais – responsáveis pelas obras, sejam claras e de conhecimento de toda a sociedade brasileira. Cardoso defende, ainda, o urgente uso do estudo e do relatório de impacto em Direitos Humanos para os grandes projetos.
Saúde indígena
“E não podemos nos esquecer, ainda, como aliás registra o relatório do Cimi, diz Gilson Cardoso, da questão da saúde dos indígenas, cujo atendimento é precário e de responsabilidade do Governo Federal. É preciso mudar esse estado de coisa.”
______________________________
Eis a entrevista de Lúcia Rangel – pesquisadora e antropóloga:
Amazônia.org.br – Quem são os responsáveis pelas violências contra indígenas, lideranças e comunidades?
Lúcia Rangel - Digamos que o pano de fundo da violência é o conflito pela posse da terra, o conflito fundiário. Nele estão envolvidos fazendeiros, madeireiros, minerados, garimpeiros e também estão envolvidos políticos, governo locais, municipais e governo estaduais. Estes seriam, assim, os principais responsáveis.
Amazônia.org.br – No relatório vocês apontam que os projetos de infraestrutura impactam territórios indígenas e afetam a vida de diversos povos. Quais seriam esses projetos?
Lúcia Rangel - Dentre os projetos de infraestrutura, nós temos a transposição do rio São Francisco, as hidrelétricas do Rio Madeira, Santo Antônio e Jirau, em Rondônia, e há uma grande ameaça aos povos do rio Xingu com a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Esses estão mais na “crista da onda”, mas são inúmeros os projetos de infraestrutura que afetam os povos indígenas.
Amazônia.org.br -Você acredita que esses projetos ainda podem ser mudados? Esses impactos ainda podem ser revertidos?
Lúcia Rangel - Eu não sei. No caso de Belo Monte há uma movimentação muito grande contra a construção da hidrelétrica. Todo mundo está contra, o Ministério Público, os ambientalistas, as comunidades indígenas, os ribeirinhos da região… Todo mundo! No entanto, o governo federal está fazendo o maior esforço para a construção.
A última investida foi colocar o dinheiro dos Fundos de Pensão à disposição da construção. Quer dizer, eu achei que é forçar a barra, mesmo porque essa hidrelétrica, se ela for construída assim, vai produzir energia apenas seis meses por ano. É uma coisa absurda. Uma insistência em fazer uma obra que está ou fadada a dar prejuízo e servir de pretexto para investir em outras – como fizeram lá no rio Tocantins. É insaciável esse projeto, parece que não tem fim.
No Rio Madeira, com as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, eles passaram por cima de tudo, sem respeitar o que os estudos apontaram, especialmente a presença de povos indígenas isolados que vivem ali na região da obra.
Amazônia.org.br – E isso não é caracterizado como um atentando contra os direitos humanos?
Lúcia Rangel - Eu acho que é, mas o governo não acha. E como não tem prova, há indícios. A Funai [Fundação Nacional do Índio] localizou e há indícios de povos isolados ali, mas o governo não faz nada. Não quer saber disso, e os governos Estaduais dão grandes apoios a esse tipo de obra. Eles acham que vão ter mais energia, que vão ganhar alguma coisa com isso. Como é o caso do governo do Estado do Tocantins, que apoia um projeto hidrelétrico que transformará o rio em vários lagos. Esse projeto não só vai atingir populações indígenas e ribeirinhas, como vai também ter que alargar uma área de preservação ambiental, muito rica em biodiversidade e cachoeiras maravilhosas.
Há uma preponderância da proposição do crescimento econômico, do desenvolvimentismo em detrimento do ambiente natural e das comunidades que vivem nesses lugares.
Amazônia.org.br – E como vocês lidam com essa opinião?
Lúcia Rangel - Muitas vezes os índios são tidos como estorvos que não deveriam nem existir mais. É essa a ideia principal que se tem contra a população indígena. Diante disso, o respeito pelos direitos indígenas não existe no Brasil, mesmo que esses direitos estejam selados na Constituição Federal.
Amazônia – E se existem leis de proteção aos povos indígenas, garantidos pela Constituição Federal e pela Convenção 169 da OIT, e elas continuam sendo desrespeitadas, qual seria o caminho para reverter esse contexto?
Lúcia Rangel - O nosso empenho, do Cimi, é denunciar isso para ver se alguém toma alguma providência, para ver se alguns efeitos positivos o relatório do Cimi tem, algumas terras que estavam embargadas que foram liberadas e coisas assim.
Esse ano, por exemplo, é um ano eleitoral, então quando o brasileiro vota, sei lá porque razão, ele vota e não quer nem saber.
Você acha que um candidato ou como o José Serra ou como a Dilma Rouseff, vai ouvir quem? Vai ouvir os fazendeiros, os investidores, os industriais, enfim, aqueles que mandam no Brasil e comandam esse processo. Por quê? Ambos os candidatos dão prioridade para o chamado, desenvolvimento econômico, que é uma meta que hoje em dia já é tão questionada no mundo inteiro, até pelos economistas que criaram o conceito e, até mesmo eles passam a questionar a idéia de desenvolvimento. Não deveriam pensar no desenvolvimento apenas como obra de infraestrutura, agronegócio e passando por cima de tudo que a gente tem no planeta. É complicado, não há um dialogo sobre isso, por isso nos resta ficar gritando, denunciando, todo ano.
Amazônia.org – O que vocês caracterizam como omissão do poder público, no relatório?
Lúcia Rangel - O que nós estamos chamando omissão do poder público são as conseqüências nefastas da violação de direito: o direito a um atendimento de saúde diferenciado, o direito de ter escolas diferenciadas, que são elementos que não são respeitados. Então você vai ver que no campo da saúde, nós vamos ter uma desassistência muito grande.
A situação de desassistência é mais grave em regiões, que às vezes, não têm problemas de terra, como é o caso do Cale do Javari (AM). Há uma ameaça constante de epidemias de hepatite, malária, tuberculose nessa área onde muitas comunidades vivem ali, inclusive comunidades isoladas, que são extremamente vulneráveis às epidemias. Há falta de pessoal [funcionários], falta de transporte para levar para o hospital, falta de medicamento. Não é um ou outro que reclama disso, são várias comunidades que reclamam disso.
Então por que o poder público é omisso? Porque não toma providencias para equipar melhor a Funasa [Fundação Nacional da Saúde], destinar verbas específicas, colocar pessoal em campo. Falta médico, enfermeiros, técnicos de saúde.
Há alguns programas que são fortes, que funcionam e que tem um pessoal relativamente bem preparado para lidar com a comunidade indígena, respeitando a medicina tradicional, porém, há outros lugares que estão “a Deus dará” e as epidemias seguem matando gente.
Amazônia.org.br – Nesta eleição, o debate de sustentabilidade está presente nos discursos dos candidatos. Você acredita que as temáticas indígenas não vão entrar na pauta?
Lúcia Rangel - Eu acredito que uma candidata como Marina Silva, ela pessoalmente, não sei o PV que eu nem conheço direito, mas ela é uma pessoal sensível à questão indígena, ela é acriana, conhece bem e defende a Amazônia. Ela sabe o que acontece no Brasil. Agora tenho a impressão de que os outros candidatos não ligam para isso.
Fontes: IHU Online
Conselho Indigenista Missionário