FSM 2009

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Gustav Janoush: “Vivemos em um mundo destruído”
Franz Kafka: “Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado. Tudo racha e estala como no equipamento de um veleiro destroçado”
[1]            

A máxima dita por Joseph Goebbels (líder da propaganda nazista) nos adverte que “uma mentira repetida milhares de vezes se torna uma verdade autêntica.”           
Essa lógica cruel não se resume apenas aos “tempos de exceção”. Em nossa sociedade moderna essa máxima segue sendo utilizada por nossos governos (ditos democráticos) como um instrumento que “justifica” atos de violência desproporcional aplicados a determinados “espaços” ou “campos” de exclusão que chamaremos de aldeias kafkianas.              
Kafkianas são as situações de impotência do indivíduo moderno que se vê às voltas com um superpoder que controla sua vida sem que ele ache uma saída para essa versão planetária da alienação – a impossibilidade de moldar seu destino segundo uma vontade livre de constrangimentos, o que transforma todos os esforços que faz num padrão de iniciativas inúteis.
O mundo transtornado de Kafka se apresenta em um contexto que Max Weber já havia anunciado na aurora do século XX: a modernidade conduz ao “desencantamento do mundo” – os sonhos virariam pesadelos e as utopias tomariam a forma de distopias.           
Aquilo que as utopias do passado não conseguiram tornou-se possível com as distopias contemporâneas, ou seja, “ficção científica, ficção política, ficção do direito: todas mostrariam os desregramentos do espaço, do tempo, do direito, descrevendo mundos muito pouco habitáveis” [2]           
Os personagens kafkianos se apresentam nessa seara extremamente elucidativos e paradigmáticos. Kafka é tido como o profeta dos totalitarismos que assolaram o século XX: seus juízes corruptos, seus comandantes cruéis, seus advogados venais, suas administrações inumanas se tornaram os arquétipos da perversão do direito.           
Portanto, as aldeias kafkianas representam nossos espaços contemporâneos “pouco habitáveis” aonde essas perversões se tornam mais visíveis, pois as pessoas que ali habitam são consideradas absolutamente descartáveis pela máquina estatal (sofrem a “coisificação” ou “metamorfose” dos personagens kafkianos e assim podem ser abandonados, estigmatizados ou violentamente dizimados).
Assim como os personagens de Kafka, esses “inimigos” estatais na maior parte das vezes, carregam uma “culpa” simplesmente por pertencerem àquela parcela da população que já nasce condenada.  
Os Estados se apropriam de discursos falaciosos (a favor da Ordem Pública, dos Direitos Humanos, da Democracia e outras abstrações recorrentes…) repetidos como mantras que, ao final, acabam sendo aceitos como verdades irremediáveis pela maior parte da população, ou seja, a violência estatal é apoiada como única solução possível de controle social – puro autoritarismo em pleno século XXI.           
Afinal, como romper com esse ciclo interminável de violência?Existe algum tipo de violência que seja justificável?           
Um dos caminhos possíveis para quebrar esse ciclo é o desvelamento dessas mazelas através de pequenas rupturas pacíficas que buscam o entendimento e o reconhecimento do outro como um ser humano igual a mim.
Nessa atividade que propomos, buscamos contribuir com a pequena ruptura de que o Fórum Social Mundial é responsável, trazendo a imagem fotográfica como um instrumento de reflexão e denúncia, mostrando alguns espaços de exclusão social e incitando o debate e a sensibilização dos participantes. (L. A. P – Belém do Pará – 27/01/2009)    




[1] JANOUSH, Gustav. Conversas com Kafka. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.[2]
OST, François. Contar a Lei: as fontes do imaginário jurídico. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004, p. 373

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