O sentimento de aversão à grande imprensa uniu, na última quinta-feira, 20-03-08, um grupo de quase 50 pessoas, entre jornalistas e profissionais que atuam em mídias alternativas, além de estudantes. O encontro aconteceu no DCE da UFRGS, em frente à Faculdade de Economia, em Porto Alegre. Entre tantos questionamentos sobre a função da mídia, quatro preocupações foram comuns entre o grupo: a) como garantir a diversidade da informação; b) a má qualificação dos profissionais de jornalismo; c) maneiras de fortalecer a mídia alternativa; e d) a criação de uma legislação que garanta recursos para a pequena imprensa. O encontro não trouxe soluções, mas proporcionou o debate pouco existente dentro dos cursos de comunicação.
Sobre o evento promovido pela Carta Maior e coordenado por Joaquim Palhares, gostaria de lançar alguns comentários, que considero importantes para as questões apresentadas no encontro, mas sem pretensão de trazer respostas definitivas.
Em poucas disciplinas do curso de jornalismo, vi um debate apurado sobre como construir uma mídia que realmente cumpra seu papel de informar com dignidade e proporcionar a reflexão. Mas uma coisa sempre esteve clara: a sociedade brasileira carece de informação de qualidade, de discussões. Talvez isso justifique, em parte, a formação de profissionais despreparados, inexperientes intelectualmente e “mal formados”, como disse o professor Marcos Dantas, da PUC-Rio, na ocasião.
Hoje, poucos estudantes de jornalismo têm oportunidade e vontade de trabalhar com mídias alternativas. No entanto, em contrapartida, são, em geral, os grandes meios de comunicação que garantem, bem ou mal, o salário, muitas vezes precário, a esses “especialistas técnicos”. Antes de criticar os jornalistas recém-formados, também precisamos levar em consideração as questões econômicas, afinal de contas o mercado está superlotado e, apenas na região metropolitana de Porto Alegre, cerca de 200 novos jornalistas concluem, anualmente, o curso. Para onde vão todos esses profissionais? As mídias alternativas, como sabemos, carecem de recursos financeiros e conseguem remunerar poucos jornalistas.
Mesmo não concordando com a linha editorial de determinados veículos, jovens profissionais submetem-se a esse trabalho por questões salariais que estão muito acima de posições ideológicas, pelo menos para a grande maioria dos recém-formados. Afinal de contas, ideologia não enche barriga e tampouco paga contas. É triste, mas se trata de uma realidade que deve ser levada em consideração. Isso porque a lógica do capitalismo ainda é, embora muitos sejamos contrários a ela, predominante. Assim, trata-se muito mais da vontade pessoal do jornalista de se engajar com algumas mídias ou atuar no mercado comandado pela grande imprensa.
Concordo com o professor Dantas quando ele diz que a própria universidade forma jornalistas precários. Porém, devemos considerar que a falta de qualificação dos profissionais é conseqüência de um problema muito maior que esbarra, por exemplo, nos programas de estágios oferecidos pelas universidades em parceria com grandes grupos midiáticos. Os impasses colocados pelo sindicato, referentes à tal proibição dos estágios no jornalismo, também engessam o futuro profissional, sem falar da maioria dos professores que nos preparam para atuar apenas nesses meios de comunicação. Das quase 50 disciplinas que cursei na faculdade, três demonstravam a preocupação de orientar os estudantes e apresentar-lhes outras possibilidades de trabalho, como mídias alternativas, por exemplo. Dessas poucas disciplinas, uma nem era obrigatória.
Quando falamos em garantir a diversidade da informação, é consenso que isso só será possível com a ampliação das chamadas mídias alternativas. Com isso, de qualquer modo, surge outro questionamento: como dar visibilidade para esses veículos? A internet tem sido um bom meio de interação entre as mídias e os leitores. Levando em consideração esses problemas, o encontro do dia 20 de março propõe que a única maneira dos pequenos conquistarem espaço no mercado se dará através da união. Quero deixar bem claro que aqui não se trata de unificar pensamentos, mas sim respeitar a diversidade e a opinião de todas as mídias, como esclareceu Palhares, logo no início do encontro.
Ainda vamos discutir muito sobre esse assunto, mas a diversidade da informação só será garantida quando o processo de formação qualificado começar dentro das universidades. Mas, com a crise do ensino e a precariedade das instituições, esse sonho de formar jornalistas competentes fica cada vez mais distante. Esse é, sem dúvida, um desafio para o jornalismo do século XXI.
Postado por Patricia Fachin