Com a presença de 34 pessoas, dentre elas estudantes e professores da graduação e pós-graduação da Unisinos, bem como do palestrante Prof. Dr. Fernando Ferrari Filho, foi realizado no dia 27 de novembro mais um IHU Idéias, cuja temática discutiu a crise dos mercados financeiros e suas repercussões sobre a economia do Brasil.
Durante sua fala, Ferrari afirmou que a sociedade brasileira ainda não percebeu o tamanho da crise atual. Crise esta que, para ele, estava anunciada há muito mais tempo, num processo de erosão das margens de segurança tanto das pessoas físicas como das pessoas jurídicas. Na realidade Ferrari mostrou, por meio de uma rápida “retrospectiva”, que todo o processo de estabilidade ou de “boom” econômico, tende a levar a uma crise, que é, portanto, um processo endógeno, como Keynes já afirmava com propriedade há muito tempo. Sendo assim, as crises se repetem, tendo em comum entre elas a desregulamentação financeira, as inovações financeiras que levam a oferta de crédito que foge do controle das instituições financeiras de todos os países. É por tudo isso que a estabilidade leva à instabilidade.
A partir do exposto acima, o palestrante afirma que a crise financeira é endógena e não exógena como querem explicar alguns. Ela tem alguns condimentos externos que apimentam o paradigma de crise, como o subprime, erros de governança corporativa das instituições financeiras intermediárias, a ausência de marcos regulatórios, o desmantelamento das margens de segurança, dentre outros.
E é claro que esta crise, em outras épocas, teria um impacto ainda maior sobre o Brasil, mas mesmo no contexto atual ela tem significativas conseqüências. Para se ter uma idéia, a crise é muito problemática aos EUA e à China, que tem suas reservas em dólares, sendo que estes dois países juntos respondem por 30% do PIB mundial. Ainda, EUA e os países do euro, respondem por 50% das exportações do Brasil.
Portanto, para Ferrari se o governo brasileiro e a sociedade não entenderem a gravidade da crise atual, ela poderá gerar repercussões ainda maiores, no que tange ao desequilíbrio financeiro do país, a desaceleração do PIB, a queda dos índices de emprego, a inflação, dentre outros. Afirma ainda que a postura atual do governo e da sociedade brasileira tende, hoje, a não enxergar a crise como ela é, uma vez que ela acaba escondida nas declarações do governo, que insiste em dizer que não seremos fortemente afetados por ela e, também, se esconde por detrás do último semestre do ano, que é um semestre no qual o consumo e a atividade econômica aumentam tradicionalmente.
Os reflexos da crise deverão ser sentidos ainda mais em 2009 e 2010, afetando não apenas dimensões econômicas da sociedade, mas também questões e dimensões sociais, culturais, políticas, ambientais, uma vez que todas estão interligadas. Por exemplo, a aceleração do desemprego tende a agravar problemas sociais e, ao mesmo tempo, reduzir o consumo e a cultura do consumo, o que gerará certo alívio para a questão ambiental.
Segundo Ferrari, o Banco Central e o governo federal do Brasil deveriam ser mais arrojados e quiçá, superação da crise, buscando, por exemplo, expandir a produção agrícola de maneira mais intensa e efetiva, ofertar combustíveis menos poluentes e, ao mesmo tempo, ampliar as reservas e ofertas de petróleo, dentre outros.
Mas, para o palestrante, o mais importante é buscarmos entender o que denominou de marco teórico da crise. Para ele, este marco está no processo de globalização financeira, que cria uma trajetória disruptiva, na qual a instabilidade é vista não como uma anomalia, mas sim como resultado do sistema, sendo que acaba tornando o mundo um cassino global. Para Ferrari, Keynes já mostrava que o mercado hora acentua a preferência pela liquidez do capital, hora pela questão do capital produtivo. E, num mercado sem regulamentação, quando se acentua a busca pela liquidez, é gerada uma crise de confiança, que auxiliada pela globalização, torna-se também uma crise sistêmica.
Ainda, segundo Ferrari, outro marco teórico que contribui para o entendimento da crise é Minsky, que mostrou que as práticas especulativas se baseiam em concessões de crédito de alto risco, que levam à deteriorização das margens de segurança, resultando em fragilidade financeira, que é contexto atual. Para Ferrari, Keynes e Minsky propõem que tenhamos políticas econômicas e fiscais contra-cíclicas, como uma mão visível do estado para assegurar a funcionalidade da mão invisível do mercado. Para isso, os autores citam a necessidade de se pensar um “Big Central Bank”, como parte funcional das economias mundiais, permanente, portanto, intervindo e regulando de forma contínua, e não apenas em momentos de crise buscar esta intervenção, como se fosse uma solução “ex post”. Ou seja, na direção do que propôs Keynes, seria necessário criar um banco central supranacional, capaz de assegurar a liquidez internacional, de coibir o capital especulativo, de estabilizar as taxas de juros e câmbio, de permitir políticas de ajuste de balanças de pagamentos que gerem o desenvolvimento econômico.
Depois das considerações de Ferrari, tivemos um acalorado debate sobre o significado desta crise, se ela representa uma ruptura ou não do ciclo do capitalismo do neoliberalismo, proporcionado por professores do PPG em Economia da Unisinos e pelo palestrante, que afirmou que ele jamais diria que é o fim do capitalismo ou do neoliberalismo, mas é, si, o sinal de que o capitalismo e o mercado não se auto-regulam. Também contribuiu na reflexão o coordenador do PPG em Ciências Sociais da Unisinos, que questionou a ajuda aos bancos e, principalmente, os paradigmas de consumo atuais.
Diante do exposto por Ferrari e das reflexões feitas, para mim que não sou economista e tenho poucos conhecimentos na área, me parece que a crise poderá mexer com paradigmas culturais, ambientais e sociais importantes, caso ela própria não se permita esconder, como querem nossos governantes. Acredito que a crise demonstra a superação de um paradigma desenvolvimentista, baseado no consumo compulsivo e de massa, que não se sustenta e evidencia sua não sustentabilidade no exemplo da China e na própria crise como um todo.
No Brasil, este paradigma recentemente fez melhorar alguns índices sociais, econômicos, como a questão do emprego, por exemplo, mas já demonstra sinais do seu esgotamento, o que pode ser percebido nas notícias do IHU das últimas semanas, onde talvez as palavras demissão, desemprego, férias coletivas, paralisação da produção, dentre outras nesta linha, repetem-se em várias notícias, mostrando, para mim, sintomaticamente, a necessidade de se repensar este paradigma desenvolvimentista. Quem sabe não é o momento do decrescimento, do (re)pensar e (re)conceituar o trabalho, do repensar a distribuição da terra, a utilização de recursos naturais, a cidadania de forma mais ampla e não relacionada a questão produtiva e econômica, dentre outros. Ou será novamente hora de cada um por si e que vença o melhor? Depende um pouco do que vamos fomentar.
O que eu posso afirmar é que seguiremos discutindo esta temática no próximo IHU Idéias do dia 4 de dezembro, no qual o tema será a crise, o consumo e o endividamento. Sintam-se todos e todas convidados e convidadas! (Postado por Lucas Luz).